Sobre uma civilização aplastada (E.M. Cioran)

A liberdade, eu dizia, exige o vazio para manifestar-se; o exige e sucumbe a ele. A condição que a determina é a mesma que a anula. Ela carece de bases: quanto mais completa for, mais vacilará, pois tudo a ameaça, até o princípio do qual emana. O homem é tão pouco feito para suportar a liberdade, ou para merecê-la, que mesmo os benefícios que recebe dela o esmagam, e ela acaba lhe sendo tão penosa que aos excessos que suscita ele prefere os de terror. A estes inconvenientes se acrescentam outros: a sociedade liberal, eliminando o “mistério”, “o absoluto”, “a ordem”, e não tendo nem verdadeira metafísica nem verdadeira polícia, encerra o indivíduo em si mesmo, afastando-o ao mesmo tempo do que ele é, de suas próprias profundidades. Se não possui raízes, se é essencialmente superficial, é porque a liberdade, frágil em si mesma, não tem nenhum meio de manter-se e sobreviver aos perigos que a ameaçam tanto de fora quanto de dentro; além disso, ela só se manifesta à sombra de um regime agonizante, no momento em que uma classe declina e se dissolve: foram os desfalecimentos da aristocracia que permitiram ao século XVIII divagar magnificamente; e são os da burguesia que hoje nos permitem entregar-nos a nossas fantasias. As liberdades só prosperam em um corpo social enfermo: tolerância e impotência são sinônimos. Isto é tão patente em política como em tudo. Quando compreendi esta verdade, a terra se abriu aos meus pés. Agora de nada me vale exclamar: “fazes parte de uma sociedade de homens livres”; o orgulho que sinto vem sempre acompanhado por um sentimento de pavor e de inanidade, produto de minha terrível certeza. No curso dos tempos, a liberdade ocupa tantos instantes quanto o êxtase na vida de um místico. Ela nos escapa no momento mesmo em que tentamos apreendê-la e formulá-la: ninguém pode desfrutar dela sem tremor. Desesperadamente mortal, desde que se instaura, postula sua ausência de futuro e trabalha, com todas suas forças minadas, para sua negação e sua agonia. Não há algo de perverso em nosso amor por ela? E não é aterrador dedicar um culto ao que não quer nem pode durar? Para você, que não a tem mais, ela é tudo; para nós, que a possuímos, ela é apenas ilusão, porque sabemos que a perderemos e que, de toda maneira, ela é feita para ser perdida. Por isso, em meio a nosso vazio, dirigimos nossos olhos para todos os lados, sem negligenciar, no entanto, as possibilidades de salvação que residem em nós mesmos. Não há, aliás, vazio perfeito na história. Nesta ausência inusitada em que estamos encurralados, e que tenho o prazer e a desgraça de revelar-lhe, não suponha que nada se delineia; distingo – pressentimento ou alucinação? – uma espera de outros deuses. Quais? Ninguém poderia responder. O que sei, o que todo mundo sabe, é que uma situação como a nossa não pode ser suportada indefinidamente. No mais íntimo de nossas consciências uma esperança nos crucifica, uma apreensão nos exalta. A menos que consentissem em morrer, as velhas nações, por mais apodrecidas que estejam, não poderiam prescindir de novos ídolos. Se o Ocidente não está irremediavelmente afetado, deve repensar todas as ideias que lhe foram roubadas e mal aplicadas em outros lugares: acho que lhe cabe, se quer ainda distinguir-se por um sobressalto ou um vestígio de honra, retomar as utopias que, por comodidade, abandonou a outros, renunciando assim a seu gênio e a sua missão. Quando teria sido seu dever pôr em prática o comunismo, ajustá-lo a suas tradições, humanizá-lo, liberalizá-lo e propô-lo depois ao mundo, deixou ao Oriente o privilégio de realizar o irrealizável e extrair assim poder e prestígio da mais bela ilusão moderna. Na batalha das ideologias, o Ocidente se mostrou timorato, inofensivo; alguns o felicitam por isso, enquanto seria preciso censurá-lo, pois, na nossa época, não se alcança a hegemonia sem o concurso de elevados princípios mentirosos, princípios de que se servem os povos viris para dissimular seus instintos e seus objetivos. Tendo abandonado a realidade em favor da ideia, e a ideia em favor da ideologia, o homem resvalou para um universo desviado, para um mundo de subprodutos onde a ficção adquire as virtudes de um dado primordial. Este deslize é o fruto de todas as revoltas e de todas as heresias do Ocidente, e, no entanto, o Ocidente se recusa a tirar as últimas consequências disso: não fez a revolução que lhe incumbia fazer e que todo o seu passado reclamava, nem foi até o final dos transtornos que promoveu. Ao deserdar-se em favor de seus inimigos, corre o risco de comprometer seu desenlace e de jogar fora uma ocasião suprema. Não contente de haver traído todos esses precursores, todos esses cismáticos que o prepararam e formaram, desde Lutero até Marx, o Ocidente ainda acredita que virão, do exterior, fazer a sua revolução e que lhe devolverão suas utopias e seus sonhos. Compreenderá enfim que não terá destino político e um papel a desempenhar a menos que reencontre em si mesmo seus antigos sonhos e suas antigas utopias, assim como as mentiras de seu velho orgulho? No momento, são seus adversários que, transformados em teóricos do dever que escamoteou, erigem seus impérios sobre sua timidez e seu cansaço. Que maldição o atingiu para que, ao final de seu desenvolvimento, só tenha produzido esses homens de negócios, esses comerciantes, esses trapaceiros de olhar nulo e sorriso atrofiado que se encontram por toda parte, tanto na Itália quanto na França, tanto na Inglaterra quanto na Alemanha? É essa gentalha o resultado de uma civilização tão delicada, tão complexa? Talvez seja preciso passar por isso, pela abjeção, para poder imaginar um outro gênero de homens. Como bom liberal, não quero levar a indignação até a intolerância, nem deixar-me guiar pelos meus humores, embora para todos nós seja doce poder infringir os princípios que se referem à nossa generosidade. Eu queria simplesmente observar-lhe que este mundo, de modo algum maravilhoso, poderia sê-lo de alguma forma se consentisse não tanto em abolir-se (para isso inclina-se bastante), mas em liquidar seus resíduos, impondo-se tarefas impossíveis opostas a esse horrível bom-senso que o desfigura e que constitui sua perdição.

CIORAN, E.M., “Sobre dois tipos de sociedade (carta a um amigo longínquo)”, História e utopia. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.