“Contradições lúcidas de um não-liberto” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Cioran sabe:

Contar com o que quer que seja, aqui ou alhures, é dar prova de que ainda se arrastam correntes. O réprobo aspira ao paraíso, e esta aspiração o rebaixa, o compromete. Ser livre é desvencilhar-se para sempre da ideia de recompensa, é não esperar nada dos homens ou dos deuses, é renunciar não apenas a este mundo e a todos os mundos, como à salvação mesma, romper inclusive com a sua ideia, esta cadeia entre as cadeias. (Le mauvais démiurge)

E no entanto ele se afirma um “réprobo”, um “não-liberto” (indelivré), um “fracassado” (raté) no plano metafísico e espiritual. Natureza lírica, apaixonada, amante da aparência e da multiplicidade, esteta, Cioran quer experimentar tudo e o seu contrário, todas as possibilidades e impossibilidades, todos os aspectos e estados de existência, principalmente aqueles mais evitados naturalmente pela maioria dos indivíduos, a partir do seu irresistível instinto de preservação: a precariedade, a aridez, a miséria, a queda, o fracasso, a experiência do nada… Cioran, que nutriu em sua juventude sérias pretensões religiosas, diz a Sylvie Jaudeau que “desde a minha chegada na França, em 1937, a tentação mística afasta-se: sou invadido pela consciência do fracasso e compreendo que não pertenço à raça dos que encontram, sendo minha carga atormentar-me e aborrecer-me.” (Entrevistas com Sylvie Jaudeau, p. 19) A Léo Gillet, ele diz que muito embora pense exatamente como o Buda, “as soluções que o Buda propõe não são as minhas, já que não posso renunciar ao desejo. Não posso renunciar a nada.” (Entretien avec Léo Gillet). Lucidez: o que me desperta para a urgência da libertação é o mesmo que me desperta para a sua impossibilidade. Querer renunciar, desejar o que quer que seja, é estar acorrentado à lógica da carência e da insuficiência — lógica da salvação. E no Breviário:

Deus: queda perpendicular sobre nosso pavor, salvação caindo como um raio em meio a nossas buscas que nenhuma esperança engana, anulação sem paliativos de nosso orgulho inconsolado e voluntariamente inconsolável, avanço do indivíduo por um desvio, paralisação da alma por falta de inquietudes…
Existe maior renúncia do que a fé? É verdade que sem ela nos embrenhamos em uma infinidade de becos sem saída. Mas mesmo sabendo que nada pode levar a nada, que o universo é apenas um subproduto de nossa tristeza, por que sacrificaríamos este prazer de tropeçar e esmagar a cabeça contra a terra e o céu?
[…]
Mas, se não queremos libertar-nos do sofrimento nem vencer as contradições e os conflitos, se preferimos as nuanças do inacabado e as dialéticas afetivas à unidade de um sublime beco sem saída? A salvação acaba com tudo; e acaba conosco. A salvação acaba com tudo; e acaba conosco. Quem, uma vez salvo, ousa considerar-se ainda vivo? Só se vive realmente pela recusa a libertar-se do sofrimento e por uma espécie de tentação religiosa de irreligiosidade. A salvação só preocupa os assassinos e os santos, os que mataram ou superaram a criatura; os outros chafurdam – bêbados perdidos – na imperfeição…
O erro de toda doutrina da libertação é suprimir a poesia, clima do inacabado. O poeta se trairia se aspirasse a salvar-se: a salvação é a morte do canto, a negação da arte e do espírito. Como sentir-se solidário de um desenlace? Podemos refinar, cultivar nossas dores, mas como emancipar-nos delas sem abolir-nos? Dóceis à maldição, só existimos enquanto sofremos. Uma alma só se engrandece pela quantidade de insuportável que assume.

Segundo Sylvie Jaudeau, “a ascese da renúncia é o equivalente voluntarista da decepção.” (Cioran ou le dernier homme, p. 146) Trata-se mesmo de uma decepção induzida, auto-imposta, dir-se-ia programática. Se, para aceder à despossessão, para renunciar, é preciso enganar-se salutarmente (não quero o que quero, penso que não penso, etc.), como avaliar o próprio progresso espiritual, sua evolução no caminho da libertação? A contradição lucidamente afirmada entre a necessidade e a impossibilidade da renúncia não seria uma expressão prevista no itinerário paradoxal da verdadeira libertação, a despeito de toda expectativa, de toda esperança de libertação? Como ter certeza se Cioran alcançou efetivamente essa frágil e sonhada délivrance quando ele mesmo parece não sabê-lo e contentar-se com essa inquietante ignorância? Talvez seja que, no caso desse “niilista que crê em tudo” (Silogismos da amargura), o nil admirari dos Estoicos se transforme num contrariado omnia admirari .

Cioran busca a libertação e não a alcança? Busca-a e alcança-a? Não busca-a e mesmo assim a alcança? O caráter problemático da incerteza em questão se exprime em aforismos como: “O que eu sei arruína o que eu desejo”. “Não se exige a liberdade, mas a ilusão da liberdade. É por esta ilusão que a humanidade se agita há milênios. De resto, sendo a liberdade, como foi dito, uma sensação, que diferença há entre ser livre e crer-se livre?” (Cahiers)

Se busca a libertação ou a redenção, faz confissão de anti-trágico perpetuamente insatisfeito, pois, como afirma Clément Rosset, ao trágico não lhe falta nada (Lógica do pior, p. 44). O que fica evidente pela contraposição entre Cioran e o autor de Lógica do pior é, a despeito de todo ceticismo, o fundo metafísico, se não místico, do pensamento do primeiro.

A inferência do nada do desejo a um “algo” situado fora da preensão humana é a fonte comum onde se alimentaram todas as religiões, todas as metafísicas e todas as formas de pensamento não-trágico. O que define o pensamento trágico é a recusa dessa inferência: desejar nada (antes que “não desejar nada”, o “não” expletivo parecendo já engajado na problemática de uma falta metafísica) significando unicamente o reconhecimento de uma necessidade sem objeto, de modo algum o reconhecimento de uma falta de objeto à necessidade. […] A perspectiva trágica não consiste de modo algum em fazer brilhar no horizonte do desejo um algo inacessível, objeto de uma ‘falta’ e de uma ‘busca’ eternas, cuja história se confunde com a história da ‘espiritualidade’ humana. Ela faz aparecer uma perspectiva exatamente inversa: mostra o homem como o ser a quem, por definição, nada falta — donde sua necessidade trágica em se satisfazer com tudo aquilo que tem, pois ele tem tudo. (Lógica do pior, p. 44).

No caso de Cioran, trata-se de uma metafísica poética da ruína, fragmentária, diletante e amadora, não sistemática, não “profissional”; em todo caso, a partir da analogia culinária de Rosset, uma filosofia pessimista da síntese tentada, porém malograda (p. 63), a meio-caminho entre os outros dois tipos de filosofia diferenciados pelo filósofo francês: os grandes sistemas, filosofias da síntese bem-sucedida (Platão, Leibniz, Spinoza, Kant, Hegel), por um lado, e a filosofia trágica enquanto recusa de síntese, por outro, isto é, recusa a intervir na “dispersão inerte dos objetos de pensamento, ou seja, na totalidade ‘do que existe’: […] Assim toda visão do mundo se reduz a duas grandes possibilidades: visão de elementos inertes e contíguos (estado primeiro antes do molho), ou visão de conjuntos de elementos (molho pronto). […] E toda filosofia pode assim se definir como acaso que se combinou.” (p. 62).

“Não é Deus, mas a Dor que desfruta das vantagens da ubiquidade.” (Silogismos da amargura) Para Cioran, o mundo é a Dor hipostasiada, universalizada em sistema, e o ser humano a sua forma mais sensível. De onde a urgência ascética da libertação, no sentido de desprendimento e renúncia em relação a um Real experimentado como demasiado penoso. Rosset diria que Cioran faz da “Dor” uma ideologia, senão uma religião, substancializando-a e absolutizando-a, de onde a sua negatividade e o seu pessimismo, nas antípodas dessa aprovação jubilosa do Real, visto como cortejo e abundância, que caracteriza o trágico. “Donde a reversão trágica da problemática da carência humana de satisfação: o júbilo não falta aqui — ele é, ao contrário, demasiado. Nada pode dar conta dele; donde seu caráter inesgotável (que define bastante precisamente o espanto próprio do filósofo trágico: seu maravilhamento sendo que a alegria seja, não a dor).” (p.  55)

Nenhum pensador mais resolutamente contraditório, mais gostosamente complicado, ávido de paradoxos e do indeterminado, do que este “Bogomilo edulcorado pelo contato com o Ocidente” (carta a Jacques Lacarrière). “Epígono de Jó”, “Buda de pacotilha”, “um sábio enxertado num leproso”, “místico sem Deus”, a sua obra fragmentária e polifônica nos constrange a considerar todas as possibilidades, todas as hipóteses hermenêuticas, inclusive as mais improváveis. Peter Sloterdijk se referiu à sua obra como um conjunto de “exercícios, a meio-caminho entre a ascese e a ginástica”, de onde “todas as posições do homem sem posição”, o que exprime bem a natureza experimental, dir-se-ia poiética, do pensamento de Cioran, que diz numa entrevista: “Assim como eu não sou um pessimista, mas um, como posso dizê-lo, um… consommateur (Geniesser). À minha maneira, eu suporto bem a vida. Mas por outro lado eu sou perseguido pelo sentimento do provisório, da maldição, da condenação, do fim próximo.” (Entretiens, p. 252-3)

Nenhum perito maior do que Cioran na arte de enganar-se lucidamente a si mesmo como meio de desenganar-se. É o grande trickster dos tempos atuais. De onde essa sua lucidez luciferina, louca lucidez, oscilando entre o silêncio e o grito, indiferenciando, numa mesma realidade impura e enferma, a alegria e a tristeza, a plenitude e a falta, tudo e nada, reunidos numa lucidez idiota, espectadora de sua própria tristeza.

Quando esgotamos os pretextos que incitam à alegria ou à tristeza, conseguimos vivê-las, ambas, em estado puro: nos igualamos assim aos loucos…

O pensamento que se liberta de todo preconceito se desagrega e imita a incoerência e a dispersão das coisas que quer apreender. Com ideias “fluidas” podemos nos espalhar sobre a realidade, aderir a ela, mas não explicá-la. Assim, paga-se caro o “sistema” que não se desejou.

Silogismos da amargura

Nada mais equívoco, e ironicamente paradoxal, do que a experiência do fracasso segundo Cioran…

O bem-sucedido em tudo é necessariamente superficial. O fracasso é uma versão moderna do nada. Ao longo da minha vida, estive fascinado pelo fracasso. Um mínimo de desequilíbrio impõe-se. Ao ser perfeitamente sadio física e espiritualmente falta um saber essencial. Uma saúde perfeita é a-espiritual.

Entrevistas com Sylvie Jaudeau