“O percurso das verdades viscerais em Emil Cioran” (Jayme Mathias Netto)

Revista Lampejo, vol. 7, nº 2 (2º Semestre de 2018), Fortaleza, Ceará, pp. 32-45.

RESUMO: O percurso das verdades viscerais permite-nos identificar uma epistemologia fisiológica como método da filosofia de Emil Cioran. Pretendemos analisar a verdade, o método e as consequências de sua filosofia. Em uma linguagem mais apropriada ao autor: verdades viscerais, melancolia e insônia e a crítica em relação à sociedade, às relações humanas e à história. Faremos isto utilizando as obras Breviário de Decomposição, Cumes do Desespero e Silogismos da Amargura. Os problemas existenciais advindos da insônia, da preguiça e da melancolia são uma espécie de meios epistemológicos necessários à captura da real falta de sentido da história e do nosso tempo, que são expressos pelo autor por meio de aforismos enquanto sintomas.
PALAVRAS-CHAVE: Emil Cioran. Melancolia. Verdades viscerais. Insônia. Aforismos

THE COURSE OF THE VISCERAL TRUTHS IN EMIL CIORAN

ABSTRACT: The course of the visceral truths allows us to identify a physiological epistemology as a method of Emil Cioran’s philosophy. We aim to analyze the truth, the method and the consequences of his philosophy. In a more appropriate language to the author: visceral truths, melancholy, insomnia and the critic in relation to society, to human relations and to history. We’ll do this through the works Breviary of Decomposition, On the Heights of Despair and Syllogisms of the Bitterness. The existential problems of insomnia, laziness and melancholy are a kind of the epistemological ways necessaries to realize the real lack of sense in the history and in our time, that are expressed by the author through aphorisms while symptoms.
KEY WORDS: Emil Cioran. Melancholy. Visceral truths. Insomnia. Aphorisms

Tantas páginas, tantos livros que foram,
para nós, fontes de emoção e que relemos
para estudar a qualidade dos advérbios ou
a propriedade dos adjetivos!
Emil Cioran – Silogismos da Amargura

Tendo em mãos principalmente o Breviário de Decomposição (1949), porém apoiando-se em Nos Cumes do Desespero (1934) e Silogismos da Amargura (1952), pretende-se com esse trabalho fazer um recorte para compreensão do pensamento de Emil Michel Cioran (1911-1995), acerca da sintomatologia do mundo contemporâneo, sob o viés formador de seu pensamento. O autor utiliza-se da estilística aforismática para anunciar negativamente a falta de sentido da existência. Há uma espécie de desencantamento com a vida, com a filosofia e consigo mesmo. Estamos diante de um pensamento da extrema negatividade e anunciador dos sintomas de nossa época crepuscular.

Temos em Cioran uma espécie de epistemologia fisiológica com a qual se põe em questão o problema da verdade e se propõe uma nova forma da mesma. Procuramos, então, demonstrar esse percurso presente na órbita conceitual dos livros supracitados, qual seja: verdade, método e suas principais consequências. Traduzindo para a linguagem cioraniana: verdades viscerais, melancolia e insônia e a crítica em relação à sociedade, às relações humanas e à história.

Portanto, analisaremos primeiramente o estilo aforismático, adentrando na forma como o mesmo anuncia sua filosofia negativa e seus principais questionamentos existenciais incuráveis. Considerando que há verdades, mas não aquelas com “v” maiúsculo, típica dos fundadores de sistemas e moldadores da humanidade. Mas verdades existenciais, advindas das dores e do sangue e que, portanto, ganham seu espaço por anunciarem o mais íntimo da existência: a não existência, o vago e o nada. Em seguida, analisaremos o modo com o qual o pensador chega fisiologicamente a esse tipo de verdade, analisando principalmente a insônia e a melancolia como principais aspectos de seu pensamento. Posteriormente consideraremos a crítica radical à sociedade e à história como consequências desse modo de pensar.

O estilo aforismático

Emil Cioran é um pensador em chamas. Nesse sentido, nega cruamente a vida, a existência, a si próprio e, porque não, aqueles que ousam comentá-lo. No entanto, colocando os nossos próprios pensamentos em chamas, nos desafiamos, desconfiados da verdade, a recortar seu pensamento em nome de uma compreensão do mesmo. Iniciaremos pela compreensão de seu estilo.

À maneira dos moralistas franceses, ou mesmo pré-socrática de fazer filosofia, o pensador aqui tratado segue a forma aforismática ou o modo com o qual se desmascara a vida, o artifício que os homens criam para continuarem vivos, artificiais e procrastinadores do suicídio. Nesse sentido, o pensador tem como precursores, dentre muitos: Nietzsche, La Rochefoucauld, Pascal, Heráclito e Epicuro… [PDF]