“Lessico famigliare. Questionari e confessioni – Carlo Michelstaedter” (Angela Michelis)

AUFKLÄRUNG – Revista de Filosofia, vol. 3, n. 1, abril de 2016, p. 135-­158

RESUMO: Carlo Michelstaedter é um pensador do limite: limite entre a normalidade da tradição de pensamento que surge na modernidade e a anormalidade que surge com a tradição da filosofia existencialista do Séc. XX, que se recusa a conceber a consciência como puro resultado de uma relação com a coisa. Inaugurando um pensamento filosófico ímpar e de estilo radical, sua filosofia se presta a representar o modo de vida real de uma família nobre judaica que vive na Europa Central, marcada pelo conflito e pela dor da ausência de uma terra própria, uma pátria. Nesse artigo são narrados os sofrimentos e as concepções advindas dessa situação pelo próprio autor.
PALAVRAS­-CHAVE: Existencialismo; reflexão; filosofia judaica

ABSTRACT: Carlo Michelstaedter is a philosopher of the limit: limit between the normality of that thought coming from the modern era and that one coming from the anormality from the existencialist philosophy around 20th Century. This kind of philosophy refuses to concept the philosophy as product of the relation between the mind and the object. He begins a kind of single and radical philosophical thought, and his philosphy straight to represent a real way of life of a rich jewish family living at Central Europe, characterized by the conflict and pain for not having a country like a home. This article aims to tell about that suffering and conceptions coming from that situation.
KEYWORDS: Existencialism; reflection; jewish philosophy.

Permanecem sobre a releitura da compilação de parte da obra de Carlo Michelstaedter um questionário familiar, publicado separadamente por Sergio Campilla, no volume A ferri corti com la vita – primeira edição em 1974, e a segunda em 1981. Descobre­-se, com isso, uma operação hermenêutica interessante com o objetivo de investigar um pouco mais as relações entre o pensador e a existência deste autor jovem, com uma juventude imortal – como já escrevera Alberto Cavaglion, em 1988.

Como objetivo, neste artigo, trata­se de esclarecer a dissonância entre o lugar interior e exterior no qual nasce a pesquisa sobre o belo e o bem, em Carlo Michelstaedter, que remete para sua grandiosa tentativa de transformar esta dissonância em harmonia. O sentido e o significado da parábola michelstaedteriana, em sua essência, é expressão da tragédia do viver, de fato, que procura harmonia e paz a partir do momento presente da comunicação da palavra persuadida, da palavra que quer recolher aquilo que de universal está presente no individual.

A ambiguidade estilística e conceitual, bem como falta de sistematicidade, que, neste autor, representam sinais de amargura, são igualmente traços característicos da filosofia existencialista, como também traços da filosofia de Carlo Michelstaedter, imagens fiéis da ambiguidade multiforme e aberta da vida, que excede as nossas racionalizações. Nas filosofias desse tipo, são sinais paradoxais de coerência, motivos de atualidade persistente, frescor, e atratividade. Em Michelstaedter são, além disso, manifestações do exercício deliberado de persuasão antirretórica, de uma busca sem compensações da verdade do viver individual e da palavra persuadida, ainda que não totalmente, a fim de se expressar e de se comunicar em um espaço de autêntico amor pacificante, filia, pela vida.

Carlo Michelstaedter escreve, nestas confissões, que “Tentar abstrair das mais fortes expressões da arte a razão humana do belo” é a sua ocupação preferida. E declara que, para ele, a felicidade consiste “na intensidade dos sentimentos ligada com a faculdade de expressar-se”.

Ao abrir suas confissões, todavia, com uma reposta que remete imediatamente à consciência da precariedade e da imperfeição, alguns resultados na busca pela ética, assim como na complacência das expressões e da escritura, ele reconhece, assim, Sócrates como o grande mestre. À pergunta Qual virtude emerge de ti?, prontamente responde: “Por que far-­me-­ia perder esta minha única virtude, exigindo uma autoconfissão?”

Surge, neste contexto, um modo de existir que, do espontâneo, do natural, toma o impulso propulsor do amor universal, amor que na sua idealidade é meta do viver persuadido, de Michelstaedter. Em relação à pergunta pelo o amor, escreve ele: “Defendo que o amor acolha em si todos os sentimentos e os intensifique, tornando­-se uma individualização do amor universal de todas as coisas; creio, entretanto, no amor, em certo sentido, ideal”. Michelstaedter sabe, contudo, que casos de sucesso pessoal e de degeneração, casos de vida e de morte estão presentes, ou são possíveis, em cada indivíduo. Por isso, ele sente compaixão pelo ser humano e deseja compartilhar seus defeitos. O afeto pelos próprios familiares aparece forte, ainda que saiba se situar momentaneamente no conflito; tem atração por mulheres. Declara aversão por tudo que é artefato e embrutecido, tem predileção pela literatura e pela arte italianas, incluindo a paixão por Firenze.

À pergunta sobre qual seria o dom preferido de um homem, Michelstaedter responde: “uma vontade decidida e forte”, uma vontade que pode conduzir, segundo ele, à retórica das convenções burguesas degeneradas, uma vontade que, mesmo assim, não se apresenta sem “o desequilíbrio de motivos internos intensos”, conforme escreve na mesma resposta. Em relação ao seu estado de ânimo atual, assim escreve ele: “duvido de mim”.

Estas palavras, em concordância com o pensamento do ser, de Carlo Michelstaedter, como um todo, podem muito bem sugerir um exemplo da compreensão residual do mundo, possível no caos e na angústia da alta modernidade, mas, ao mesmo tempo, suas obras e sua existência apontam para traços do “indestrutível” do qual se originam, lembrança daquela harmonia que ainda escutamos no silêncio, na fundo de nossa interioridade, na qual não temos mais palavras certas nem satisfatórias para definir: alma, consciência, razão, mente? Responde-se, assim, à questão sobre por que este autor, meio “imaturo”, percebeu um rápido crescimento da atenção de um público cada vez maior e de estudiosos de campos e orientações diversas. Michelstaedter continua a despertar grande interesse de pesquisadores diversos, sobretudo porque viveu de modo autêntico e se comunicou com intensidade e radicalidade em vários idiomas, com preocupações e problemas essenciais do ser humano, entre os quais a consciência e o tormento, característicos do homem contemporâneo, como bem observou a Profa. Nynfa Bosco, da Universidade de Turim, a qual iniciou os estudos sobre Michelstaedter.

Em 18 de agosto de 2013, porém, ela faleceu. Carlo Michelstaedter expressa a dupla incapacidade do ser e do não-­ser, de acordo com a tradição, no início do século XX, fazendo uso de uma dialética própria da modernidade, que encontra a sua imagem metafórica em cada figura diaspórica da emancipação traída pela história ou pela própria experiência existencial. Ele expressa sentimentos e pensamentos que podem ser bem representativos de seguidores da idade moderna, os quais lê com uma sensibilidade aguçada até as neuroses, e com uma coragem intelectual fora do comum. Nesse aspecto, com certeza, foi influenciado por suas múltiplas matizes culturais, bem como o apego a determinados lugares: é originário da Europa Central, onde viveu desde o início do século XX e narrou a própria crise até o fim, pertenceu a uma minoria judaica, cresceu sufocado entre a assimilação e custódia de sua diferença e a atração pela língua, literatura e arte italianas, o desejo pela alma da cultura italiana… [PDF]

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