“O comércio dos místicos” (E.M. Cioran)

Nada mais irritante do que essas obras que apresentam bem ordenadas as ideias densas de um espírito que se preocupou com tudo excepto com o sistema. De que serve dar uma aparência de coerência às de Nietzsche, a pretexto de que se movem em torno de um motivo central? Nietzsche é uma soma de atitudes, e é rebaixá-lo procurar nele uma vontade de ordem, uma preocupação de unidade. Cativo dos seus humores, registou-lhes as variações. A sua filosofia, meditação acerca dos seus caprichos, é erradamente considerada pelos eruditos como portadora de constantes, que se trataria de evidenciar, quando tudo nela as recusa.

A ideia fixa do sistema não é menos suspeita quando se aplica ao estudo dos místicos. Trata-se de uma atitude ainda tolerável no caso de Mestre Eckhart, porque ele próprio teve o cuidado de disciplinar o seu pensamento: pois não era ele um pregador? Um sermão, por inspirado que seja, tem a ver com o curso, expõe uma tese e esforça-se por a fundamentar de modo convincente. Mas que dizer de um Angelus Silesius, cujos dísticos se contradizem a gosto, possuindo apenas um tema comum: Deus — e este é apresentado sob tantos rostos que se torna difícil identificar o verdadeiro? O Viajante Querubínico, sucessão de afirmações inconciliáveis, cheio de um grande e confuso esplendor, exprime apenas os estados de alma estritamente subjectivos do seu autor: querer mostrar a sua unidade, o seu sistema, é arruinar a sua força de sedução. Angelus Silesius preocupa-se menos com Deus do que com o seu próprio deus. O resultado é uma multiplicidade de insânias poéticas, de molde a desencorajar o erudito e a aterrar o teólogo. Mas nada disso se verifica. Um e outro esforçam-se por pôr em boa ordem as afirmações de Silesius, por simplificá-las, por extraírem delas uma ideia precisa. Maníacos do rigor, querem saber o que pensava o autor da eternidade e da morte. O que pensava ele? Pensava as coisas mais diversas. São experiências suas, pessoais e absolutas. Quanto ao seu Deus, nunca terminado, sempre imperfeito e mutante, o autor regista os seus momentos e traduz o seu devir num pensamento não menos imperfeito e mutante. Desconfiemos do definitivo, afastemo-nos dos que pretendem possuir uma visão exacta acerca do que quer que seja. O facto de em certo dístico Angelus Silesius assimilar a morte ao mal e num outro ao bem, só por falta de probidade e de humor nos surpreenderia. Como é em nós que devém a própria morte, consideremos as suas etapas, as suas metamorfoses, encerrá-la numa fórmula é detê-la, sabotá-la.

O místico não vive os seus êxtases nem as suas repulsas nos limites de uma definição: a sua pretensão não é satisfazer as exigências do pensamento, mas sim as das sensações. E tende para a sensação muito mais ainda do que o poeta, uma vez que é por meio dela que confina com Deus. Não há dois frémitos idênticos ou que se possam repetir à vontade: a identidade de um mesmo vocábulo encobre, de facto, uma quantidade imensa de experiências divergentes. Há mil percepções do nada e uma única palavra para as traduzir a todas: a indigência do discurso torna o universo inteligível… Em Angelus Silesius, o intervalo que se-para um dístico de outro é atenuado, senão anulado, pela imagem familiar das mesmas palavras que se repetem, devido a essa pobreza da linguagem que faz perder a individualidade tanto aos suspiros como aos horrores e aos êxtases. Assim, o místico desnatura a sua experiência ao exprimi-la, quase tanto como o erudito desnatura o místico ao comentá-lo.

É enganarmo-nos acerca da mística crer que esta deriva de um amolecimento dos instintos, de uma seiva de compromisso. Um Luís de Léon, um S. João da Cruz coroaram uma época de grandes empreendimentos e foram necessariamente contemporâneos da Conquista.

Longe de serem deficientes, lutaram pela sua fé, enfrentaram directamente Deus, apropriaram-se do Céu. A sua idolatria do não-querer, da doçura e da passividade garantia-os contra uma tensão difícil de suportar, contra essa histeria superabundante de que procedia a sua intolerância, o seu proselitismo, o seu poder sobre este mundo e o outro. Para melhor os adivinharmos, imaginemos um Fernando Cortez no meio de uma geografia invisível.

Não foram menos conquistadores os místicos alemães. A sua tendência para a heresia, para a afirmação pessoal. para o protesto, traduzia, no plano espiritual, a vontade de se individualizar que animava uma nação inteira. Tal foi a significação da Reforma que deu à Alemanha o seu sentido histórico. Em plena Idade Média, Eckhart vai para além da tradição e empenha-se num caminho que lhe é próprio: a sua vitalidade anuncia a de Lutero. Do mesmo modo, indica a direcção que o pensamento alemão assumirá. Mas o que lhe garante uma posição única é o facto de, pai do paradoxo em matéria de religião, ter sido o primeiro a dar uma forma de drama intelectual às relações entre o homem e Deus. Esta tensão convinha particularmente a uma época em que um povo inteiro estava em fermentação e em busca de si próprio.

Havia qualquer coisa de cavaleiro nestes místicos. Portadores de unia couraça secreta, indomáveis até na sua paixão de autotortura, possuíam a altivez do gemido, uma demência contagiosa, incendiária. Suso em nada fica atrás dos mais extravagantes anacoretas, a tal ponto soube tornar variados as seus tormentos. O espírito cavalheiresco, virado para o intemporal, perpetua no âmbito deste o amor pela aventura. Porque a mística é uma aventura, uma aventura vertical: arrisca-se em altura e apodera-se de uma outra forma de espaço. Por esse lado, distingue-se dessas doutrinas da decadência, cuja característica é não brotarem da fonte, virem de alhures, como as que do Oriente foram transplantadas para Roma. Por isso não correspondem senão ao apetite de marasmo de uma civilização incapaz de criar uma religião nova ou de aderir ainda aos prestígios da mitologia. O mesmo se passa com os místicos de hoje, com o seu absoluto importado, destinado aos fracos e aos desiludidos.

Suspiro insolente da criatura, a piedade é inseparável da energia e do vigor. Port-Royal, apesar do seu aspecto idílico, foi a expressão de uma espiritualidade transbordante. Foi aí que a França conheceu o seu derradeiro momento de interioridade. Depois, só na vida laica pô-de redescobrir esse excesso e essa força: fez a Revolução; após o estabelecimento de um catolicismo edulcorado, era tudo o que podia empreender. Tendo perdido a tentação da heresia, tornava-se estéril cm inspiração religiosa.

Insubmissos por vocação, desenfreados nas suas orações, os místicos, tremendo, brincam com o Céu. A Igreja reduziu-os à categoria de conquistadores do sobrenatural, a fim de, irritantemente civilizados, poder usá-los como «modelos». Todavia, sabemos que foram, nas suas vidas e nos seus escritos, fenómenos da natureza, e que não lhes podia ter acontecido maior desgraça que a de caírem nas mãos dos padres. O nosso dever é arrancá-los delas: só a esse preço o cristianismo pode-rá ainda ter uma leve probabilidade de duração.

Quando lhes chamo «fenómenos da natureza», não pretendo de modo algum que a sua «saúde> fosse disso a prova. Sabemos que eram doentes. Mas a doença agia sobre eles como um aguilhão, como um factor de desmesura. Através da doença, visavam uma espécie de vitalidade diferente da nossa. Pedro de Alcântara conseguia não dormir mais de uma hora por noite: não será um sinal de força? Todos eles eram seres fortes, uma vez que não destruíam o seu corpo senão para arrancarem deste uma força suplementar. Julgam-nos suaves; não há seres de maior dureza. Que nos propõem? As virtudes do desequilíbrio. Ávidos de todo o género de chagas, hipnotizados pelo insólito, empreenderam a conquista da única ficção que vale a pena; Deus deve-lhes tudo: a sua glória, o seu mistério, a sua eternidade. Dão existência ao inconcebível, violentam o Nada para o animarem: como poderia a suavidade realizar semelhante feito?

O seu nada é o contrário do nada abstracto e falso dos filósofos, e resplandece de plenitude: fruição fora do mundo, esgotamento da duração, aniquilamento luminoso para além dos limites do pensamento. Para nos desafiarmos, para nos destruirmos até nos redescobrirmos, para nos afundarmos na nossa própria claridade, são necessárias mais têmpera e temeridade do que as exigidas por todos os nossos restantes actos. Do êxtase — estado limite da sensação, realização através da ruína da consciência — apenas são capazes aqueles que, aventurando-se fora de si próprios, substituem a ilusão banal que fundamentava a sua vida por uma outra, suprema, em que tudo é resolvido, tudo é superado. Aí, o espírito encontra-se suspenso, foi abolida a reflexão e, com ela, a lógica do desapontamento. Pudéssemos nós, na esteira dos místicos, ultrapassar as evidências e o impasse que delas decorre, tornarmo-nos erro deslumbrado, divino, pudéssemos nós, como eles, subir até ao verdadeiro nada! Com que perícia não se demarcam eles de Deus, pilhando-o, esquivando-lhe os seus atributos e apropriando-se destes para o… refazerem! Nada há que resista à efervescência da sua loucura, a essa expansão da sua alma sempre em vias de fabricar outro céu, uma outra terra. Tudo aquilo em que tocam ganha a cor do ser. Tendo compreendido o inconveniente de ver e deixar as coisas tal como são, esforçaram-se por as desnaturar. Vício de óptica a que consagram todos os seus cuidados. Sabem que nem um vestígio de real subsiste após a passagem, após as devastações da clarividência. Nada é, eis o seu ponto de partida, eis a evidência que conseguiram vencer, repelir, para alcançarem a sua afirmação: tudo é. Enquanto não tivermos percorrido o caminho que os conduziu a uma conclusão tão surpreendente não poderemos ver-nos em pé de igualdade com eles.

Já na Idade Média, certos espíritos, cansados de repisarem os mesmos temas, as mesmas expressões, tinham, para renovarem a sua piedade e a emanciparem da terminologia oficial, que recorrer ao paradoxo, à fórmula sedutora, ora brutal, ora recheada de matizes. Foi o caso de Mestre Eckhart. Por muito rigoroso e atento à coerência que fosse, era demasiado escritor para não parecer suspeito à Teologia: foi o seu estilo, mais do que as suas ideias. que lhe valeu a honra de ser acusado de heresia. Quando examinamos, nos seus tratados e nos seus sermões, as proposições incriminadas, surpreendemo-nos com a preocupação de dizer bem que manifestam; revelam-nos o lado genial da sua fé. Como todos os heréticos, pecou pela forma. Inimiga da linguagem, a ortodoxia religiosa ou política postula a expressão prevista. Se quase todos os místicos tiveram dificuldades com a Igreja, o motivo foi o seu excessivo talento; a Igreja não exige qualquer talento e reclama somente a obediência, a submissão ao seu estilo. Em nome de um verbo esclerosado mandou acender as suas fogueiras. Para escapar, o herege não tinha outro recurso que não fosse mudar as suas fórmulas. exprimir as suas opiniões em termos diferentes, em termos consagrados. A Inquisição talvez nunca tivesse existido se o catolicismo tivesse mostrado maior indulgência e compreensão pela vida da linguagem. pelos seus desvios, pela sua variedade e pela sua invenção. Quando o paradoxo é banido, só se pode evitar o martírio por meio do silêncio ou da banalidade.

Outras razões contribuem também para fazer do místico um herege. Se lhe repugna que uma autoridade exterior regulamente as suas relações com Deus, também não admite uma alta ingerência: mal chega a tolerar Jesus. Nada tendo de acomodatício, é, no entanto, obriga-do a prestar-se a alguns compromissos, a rezar as orações recomenda-das, prescritas, à falta de poder constantemente improvisar novas preces. Perdoemos-lhe esta fraqueza. Talvez ceda apenas para demonstrar que é capaz de descer ao nível do vulgar e de empregar a sua linguagem; talvez também para nos provar que não ignora a tentação da humildade. Mas sabemos que nela não cai muitas vezes, que gosta de inovar quando reza, que inventa quando se ajoelha e que tal é a sua maneira de romper com o deus comum.

Reanima e reabilita a fé, ameaça-a e mina-a como inimigo providencial. Sem ele, a fé tornar-se-ia exangue. Adivinhamos agora a razão por que o cristianismo está a morrer e por que a Igreja, privada de apologistas e de detractores, já não tem quem louvar nem quem perseguir. falta de heréticos, renunciaria de bom grado à sua exigência de obediência, se, em contrapartida, sentisse entre os seus um exaltado que, dignando-se atacá-la, tomá-la a sério, lhe desse alguma esperança, algum motivo de alarme. Abrigar tantos ídolos e não avistar no horizonte um único iconoclasta! Os crentes já não rivalizam entre si, nem tão-pouco os descrentes: ninguém quer ser já o primeiro na corrida para a salvação ou para a condenação…
Acontecimento de vulto: os dois maiores poetas modernos, Shakespeare e Hölderlin, passaram ao lado do cristianismo. Se tivessem sofrido a sua sedução. teriam construído a partir dele uma mitologia própria e a Igreja teria a felicidade de os poder contar como mais dois heresiarcas. Sem se dignarem atacar a Cruz, menos ainda elevá-la à sua altura, um deles deixou para irás os deuses, o outro ressuscitou os da Grécia. O primeiro ergueu-se acima da oração, o segundo invocava um céu que sabia impotente, que amava defunto: um é o precursor da nossa indiferença; o outro, dos nossos remorsos.

O solitário, combatente à sua maneira, experimenta a necessidade de povoar a sua solidão de inimigos reais ou imaginários. Se é crente, enche-a de demónios, sobre a realidade dos quais muitas vezes não tem qualquer ilusão. Sem eles, cairia na sensaboria: seria a sua vida espiritual a ressentir-se. Foi com razão que Jakob Boehme chamou ao Diabo o «cozinheiro da natureza», aquele cuja arte dá sabor a todas as coisas. O próprio Deus, fixando desde o início a necessidade do Inimigo, reconhecia não poder dispensar lutar, atacar, ser atacado.
Como na maior pane das vezes o místico inventa os seus adversários, segue-se que o seu pensamento afirma a existência dos outros por cálculo, por artifício: é uma estratégia sem consequência. O seu pensamento reduz-se, em última instância, a uma polémica consigo próprio: quer-se multidão, torna-se multidão, que mais não seja fabricando-se continuamente outros rostos, multiplicando os seus rostos: nisso se aparenta ao seu criador, cuja comédia perpetua.

Ao fenómeno místico falta a continuidade: desabrocha, atinge o apogeu, depois degenera e acaba como uma caricatura. Foi o que se verificou com os surtos religiosos de Espanha, da Flandres e da Alemanha. Se, nas artes. o epígono consegue impor-se, nada, em compensação, é mais digno de dó do que um místico de segunda ordem, parasita do sublime, plagiador de êxtases. Pode brincar-se com a poesia, pode mesmo conseguir-se produzir uma ilusão de originalidade: basta ter-se penetrado nos segredos do oficio. Tais segredos nada contam aos olhos do místico cuja arte não passa de um meio. Como não aspira a agradar aos homens e como é alhures que quer ser lido, dirige-se a um público muito restrito, muito difícil e que exige dele muito mais do que talento ou génio. Qual é a sua ocupação? Procurar aquilo que escapa ou sobrevive à derrocada das suas experiências: o resíduo de intemporalidade sob as vibrações do eu. Usa os seus sentidos em contacto com o indestrutível, ao contrário do poeta que usa os seus em contacto com o provisório; um afunda-se quase carnalmente no supre-mo (a mística; fisiologia das essências), outro deleita-se à superfície de si próprio. Dois apreciadores de diferentes níveis. Tendo provado as aparências, o poeta não pode esquecer o seu sabor; um místico é alguém que, à falta de lograr aceder à volúpia do silêncio, se limita à da palavra. Um falador de qualidade, um falador superior.

Quando lemos as Revelações de Marguerite Ebner, e percorremos as suas crises, o seu adorável inferno, invade-nos o ciúme. Durante dias inteiros, ela não conseguia descerrar os dentes; quando, por fim, abria a boca, era para proferir gritos que exaltavam e faziam tremer o convento. E que dizer de Angela de Foligno? Escutemo-la: «Contemplo, no abismo em que me vejo caída, a superabundância das minhas iniquidades, procuro inutilmente como as descobrir e revelar ao mundo, gostaria de ir nua através das cidades e das praças, com peças de carne e peixes pendurados ao pescoço, gritando: aqui está a criatura vil!»
Temperamentos sanguíneos, comprazendo-se nos extremos da de-gradação e da pureza, na vertigem dos meios subterrâneos e das alturas, os santos não se adaptam aos nossos raciocínios nem às nossas cobardias. Ver neles seres meditabundos é um erro completo. Demasiado desenfreados, demasiado ferozes para poderem deter-se na meditação (que pressupõe o controlo de si próprio e, portanto, a mediocridade do sangue), se aspiram a descer até aos alicerces das coisas, a via que os conduz até lá não é propriamente «reflexiva». Sem compostura, sem o mais pequeno vestígio de estoicismo nos seus gestos e nas suas palavras, julgam que tudo lhes é permitido, passeiam a sua indiscrição através dos corações que perturbam, porque têm horror à paz e não suportam uma alma conseguida. Condenar-se-iam a si próprios para não terem que se aceitar. Ouçamos de novo Angela de Foligno: «Ainda que todos os sábios do mundo e todos os santos do Paraíso me acabrunhassem com as suas consolações e as suas promessas, e o próprio Deus com os seus dons, se não me mudasse a mim, se não começasse no fundo de mim uma nova operação, em vez de me fazerem bem, os sábios, os santos e Deus exasperariam para além de tudo o que se pode exprimir o meu desespero, o meu furor, a minha tristeza e a minha cegueira.» Não deveríamos, frente a estas declarações e a estas exigên-cias, liquidar os nossos últimos restos de bom senso e larçar-nos como bárbaros nas «trevas da luz»? Como nos decidiremos, porém. a fazê-lo, presos como estamos à enfermidade da modéstia? O nosso sangue é demasiado morno, os nossos apetites demasiado domados. Não fica a menor possibilidade de irmos para além de nós próprios. Até a nossa loucura é excessivamente comedida. Derrubar as vedações do espírito, abalá-lo, desejar a sua ruína — eis a fonte do que é novo! Tal como é, o nosso espírito mostra-se avesso ao invisível e não vê senão o que já sabe. Para que se abra ao verdadeiro saber, precisa de se desmantelar, de atravessar os seus limites, de conhecer as orgias do aniquilamento. A ignorância não seria a nossa sorte se ousássemos alçar-nos acima das nossas certezas e dessa timidez que, impedindo-nos de operar milagres, nos enterra em nós próprios. Não termos nós o orgulho dos santos!
Se estes vigiam e rezam é para subtraírem a Deus o segredo do seu poder. Súplicas pérfidas as desses revoltados que o Diabo gosta de rondar. Hábeis, também ao Diabo subtraem o seu segredo, forçando-o a trabalhar para eles. O princípio mau que os habita, sabem beneficiar dele para se erguerem mais alto. Aqueles que de entre eles caem. põem na queda alguma complacência: caem não como vítimas, mas como associados do Diabo. Salvos ou perdidos, exibem todos uma marca de não-humanidade, todos têm repugnância em assinalar um limite aos seus empreendimentos. Renunciam? A sua renúncia é completa. Mas, em vez de se verem diminuídos e enfraquecidos, tornam-se mais poderosos do que nós, que conservamos os bens que eles abandonam. Estes gigantes, com a alma e o corpo fulminados, aterram-nos. Contemplando-os, sentimo-nos envergonhados por sermos simplesmente homens. E se, por sua vez, eles nos olham, deciframos as palavras que a nossa mediocridade inspira à sua misericórdia: «Pobres criaturas que não tendes a coragem de vos tomardes únicas, de vos tornardes monstros.» Decididamente, o Diabo trabalha em seu proveito e não é estranho à sua auréola. Que humilhação para nós termos pactuado com ele em vão!

Destruidor ao serviço da vida, demónio que se virou para o bem, o santo é o grande mestre do esforço contra si. Para vencer as suas inclinações e. em não menor medida, por medo de si próprio, força-se à bondade e, imaginando ter semelhantes e deveres para com eles, impõe-se as canseiras da piedade. Sofre e gosta de sofrer, mas no termo dos seus sofrimentos faz dos seres seus brinquedos, percorre o futuro. lê nos pensamentos alheios, cura os incuráveis, infringe impunemente as leis da natureza. Foi para adquirir esta liberdade e esta força que rezou e resistiu às tentações. O prazer — ele está consciente disso — distende e enfraquece: se recorresse ao prazer, deixaria de poder ter acesso ou sequer de ambicionar o extraordinário; a sua força e as suas faculdades quebrar-se-iam: o seu desejo deixaria de possuir a mesma energia e deixaria de ter impulso a sua ambição. São de ordem diferente as satisfações que ele deseja, e como que uma volúpia exemplar: a de igualar Deus. O seu horror pelos sentidos é calculado, interessado. Vence-os e rejeita-os, sabendo ao mesmo tempo que os redescobrirá, transfigurados, alhures.
A partir do momento em que aspira a substituir-se à divindade, fixa o preço: tão grande fim justifica todos os meios. Persuadido de que a eternidade é apanágio de um corpo devastado, procurará todas as espécies de enfermidades e conspirará contra o seu bem-estar, da ruí-na do qual esperará a sua salvação e o seu triunfo. Se se deixasse arrastar pela sua natureza, pereceria; mas como utiliza a sua vitalidade maltratada, reergue-se. Demasiado contida, esta acaba por explodir. E ele torna-se um doente temível que se vira para o Céu para de lá desalojar o usurpador. Semelhante favor, reservado àqueles que, através da dor, penetraram o segredo da Criação, só se encontra nas épocas em que a santidade é assimilada a uma desgraça.

Todo o estado inspirado procede de uma inanição cultivada, deliberada. A santidade — inspiração ininterrupta — é uma arte de se deixar morrer de fome sem… morrer, um desafio lançado às entranhas, e como que uma demonstração da incompatibilidade entre o êxtase e a digestão. Uma humanidade farta produz cépticos, nunca santos. O absoluto? Uma questão de regime. Não há «fogo interior», não há «chama» sem a supressão quase total do alimento. Contrariemos os nossos apetites: os nossos órgãos começarão a arder, a nossa matéria incendiar-se-á. Quem come o que tem na vontade está espiritualmente condenado.
Mas, por meio de impulsos selvagens, os santos conseguiram dominar esses apetites e. portanto, conservaram-nos em segredo. Não ignoravam que a caridade extrai a sua força dos nossos dramas fisiológicos e que tinham, para se ligarem aos seres, que declarar guerra ao corpo, que o perverter, martirizar e dominar. Cada um deles evoca um agres-sor que, subitamente convertido ao amor, se aplicasse a partir de então a odiar-se. E souberam, todos eles, odiar-se até ao fim; mas, esgotado este ódio por si próprios, viam-se livres, desprendidos de tudo o que os pudesse tolher: a ascese revelara-lhes o sentido e a utilidade da destruição, prelúdio da pureza e da libertação. Em seguida, revelar–nos-ão por que horrores teremos de passar se quisermos, também nós, ser livres.
Seja qual for o nível em que se desenrola a nossa vida, só será verdadeiramente nossa na proporção dos nossos esforços para quebrar as suas formas aparentes. O tédio, o desespero, a própria abulia, poderão ajudar-nos, contanto que a experiência seja completa, que os vivamos até ao momento em que, arriscando-nos a sucumbir-lhes, nos levantamos de novo e os transformamos em auxiliares da nossa vitalidade. Haverá coisa mais fecunda do que o pior para quem saiba desejá-lo? Porque não é o sofrimento que liberta, mas o desejo de sofrer.

Como poderíamos rir-nos da histeria da Idade Média? Suspirávamos ou uivávamos na nossa cela: os outros veneravam-nos… As nossas perturbações não nos levavam ao psiquiatra. Com medo de as vermos curadas, exasperávamo-las. enquanto, por outro lado, escondíamos a saúde como uma vergonha, como um vício. A doença era um recurso ao alcance de todos, o grande remédio. Depois, caída no descrédito, boicotada, continuou ainda a reinar, mas sem que ninguém a ame ou procure. Doentes, já não sabemos que fazer dos nossos males. São diversas as nossas loucuras condenadas à inutilidade.
Há outras histerias não menos admiráveis, essas de onde emanaram os hinos ao Sol, ao Ser, ao Desconhecido. Aurora do Egipto, da Grécia, frenesim das mitologias, transportes nascidos do primeiro contacto com os elementos! Nos antípodas de tudo isso, somos incapazes de vibrar diante do espectáculo das origens: as nossas interrogações. em lugar de se transporem vivamente em ritmos. arrastam-se nas baixezas do conceito ou surgem desfiguradas sob o riso trocista dos sistemas. Onde está a nossa sensibilidade hímnica, a embriaguez dos nossos começos, a aurora dos nossos espantos? Lancemo-nos aos pés da Pítia, regressemos aos nossos antigos transes: filosofia dos momentos únicos, única filosofia.

Quando deixarmos de referir a Deus a nossa vida secreta, poderemos atingir êxtases tão eficazes como os dos místicos e vencer esta terra cá em baixo sem recorrer ao Além. E se, apesar de tudo, a obsessão de um outro mundo nos perseguisse, ser-no-ia fácil construí-lo, projectar um mundo de circunstância, destinado, que mais não fosse, a satisfazer a nossa necessidade de invisível. O que conta são as nossas sensações, a sua intensidade e as suas virtudes, bem como a nossa capacidade de nos precipitarmos numa loucura não sagrada. No desconhecido, poderemos ir tão longe como os santos, sem nos servirmos dos seus meios. Bastar-nos-á forçar a razão a um longo mutismo. Entregues a nós próprios, já nada nos impedirá de aceder à suspensão deliciosa de todas as nossas faculdades. Quem entreviu tais estados sabe que neles os nossos movimentos perdem o seu sentido habitual: subimos ao abismo, descemos ao Céu. Onde estamos? Pergunta sem objecto: já não temos lugar

CIORAN, E.M., “O comércio dos místicos”, in A tentação de existir. Trad. de Miguel Serras Pereira e Ana Luisa Faria. Lisboa: Relógio D’Água, 1988, p. 119-131.