“O Homem-Massa e o Homem-Fragmento. Cioran em diálogo com Ortega y Gasset” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

O experimento homem fracassou. Encontra-se em um beco sem saída, enquanto que um não‑homem é mais: uma possibilidade.
Olha fixamente nos olhos de um «semelhante»: que te leva a crer que não podes esperar mais nada? Todo homem é muito pouco…

– CIORAN, Amurgul gândurilor

Il faut se tenir à l’écart.

– BECKETT

As contingências da história levaram Cioran a expatriar-se na França e a consagrar-se como um dos maiores estilistas na língua de Racine. Não fosse a guerra civil espanhola (1936-1939), talvez não tivéssemos E. M. Cioran. Os planos iniciais do jovem insone nascido em Rășinari não tinham a França como destino, mas a Espanha. Um país com o qual se identificava e que considerava o modelo de país ocidental a ser seguido pela Romênia caso pretendesse saltar na História e sincronizar-se com seus vizinhos ocidentais. Segundo Verena von Heyden-Rynsch, que editou o Cahier de Talamanca, Cioran tinha três pátrias: a de nascimento (Romênia), a da sua língua de adoção (França), e a espiritual (Espanha).

A guerra civil espanhola frustrou os planos de Cioran de tornar-se discípulo de José Ortega y Gasset. A biógrafa Ilinca Zarifopol-Johnston observa, em Searching for Cioran, que o interesse do jovem intelectual era aprofundar-se nos estudos de filosofia da cultura, história e antropologia filosófica — o que acabou fazendo não na Espanha, mas na Alemanha, graças a uma bolsa de estudos concedida pelo Instituto Humboldt. Alguns textos jornalísticos publicados em periódicos romenos na década de 1930, como “Individ şi cultură” [Indivíduo e cultura], em Florea de foc (1932), sugerem uma profunda afinidade à distância com o filósofo espanhol. Se não pôde estudar com ele, Cioran ao menos teria a oportunidade de conhecer, já em Paris, uma notável discípula de Ortega y Gasset, María Zambrano, que lhe inspiraria a escrever História e utopia. No primeiro capítulo, originalmente uma carta destinada ao amigo Constantin Noica em prisão domiciliar sob a ditadura comunista romena, uma divisa existencial que não poderia ser mais gassetiana:

Não ter nunca a oportunidade de tomar partido, de decidir-me ou de definir-me: não há desejo que tenha com mais frequência. Mas nem sempre dominamos nossos humores, essas atitudes em germe, esses esboços de teoria. Visceralmente inclinados à estruturação de sistemas, nós os construímos sem descanso, sobretudo em política, domínio de pseudoproblemas, onde se dilata o mau filósofo que reside em cada um de nós, domínio do qual gostaria de afastar-me por uma razão banal, uma evidência que aparece a meus olhos como uma revelação: a política gira unicamente em torno do homem.

É a problemática abordada em A rebelião das massas (1930): a despersonalização e a dessubjetivação do “homem-massa”, a hiperpolitização sistemática de todas as esferas e de todos os aspectos da vida, de onde (sic) o “corpo político”, o “sexo político”, o “ventre político”, tudo político. Escreve Ortega y Gasset no prólogo para franceses:

O politicismo integral, a aborção de todas as coisas e de todo o homem pela política, é uma e a mesma coisa que o fenômeno da rebelião das massas que aqui se descreve. A massa rebelde perdeu toda capacidade de religião e de conhecimento. Não pode abarcar mais que a política, uma política exorbitante, frenética, fora de si, posto que pretende suplantar o conhecimento, a religião, a sagesse — enfim, as únicas coisas que são aptas a ocupar o centro da mente humana por sua própria substância. A política esvazia o homem de solidão e de intimidade, e por isso uma das técnicas utilizadas para socializá-lo é a pregação do politicismo integral.

Quando o cultural se reduz ao político, o ser humano se achata, se planifica, se esvazia de substância espiritual. De onde (segundo Cioran e Ortega) a mediocridade, a miséria espiritual do homo politicus moderno, cujas alternativas de autoafirmação se reduzem à gritaria e à violência “revolucionária”. “Reacionários”? Não mais do que um Camus, ele também crítico da mentalidade revolucionária (para o descontentamento de Sartre). A sua crítica é que “nas revoluções, a abstração se sobrepõe ao concreto”, e o homem futuro, “ideal”, é celebrado em detrimento do homem presente, de carne e osso (Unamuno). Aristocratas? Desde que não se politize esta categoria (aliás, Nietzsche é um belo exemplo de “aristocracia” apolítica, eminentemente espiritual). Humanistas sem ilusões, de certo, amiúde confundidos com “misantropos”, fazendo suas as palavras do adágio latino: Homo sunt, nihil humani a me alienum puto.

Ortega anuncia um fenômeno tipicamente moderno (séc. XX): o protagonismo do homem-massa, da multidão anônima e impessoal como sujeito histórico, ético, político. Elias Canetti retomará a questão trinta anos mais tarde, em Massa e poder. Segundo Sloterdijk, “esta é uma obra que, desde a sua publicação em 1960, desperta desconfiança, desprezo e silêncio na maior parte dos sociólogos e filósofos sociais, porque se baseia na recusa de fazer o que sociólogos ex officio e quase sem exceção fazem, a saber, adular, sob formas da crítica, a sociedade atual, o seu objeto, que é ao mesmo tempo sua cliente.” (SLOTERDIJK, O desprezo das massas, p. 13). As consequências desta nova configuração social são a tendência à homogeneidade, a moral do rebanho e do senso-comum, a demagogia e o vitimismo. Nada mais deslocado do que aspirar à distinção, afirmar a própria singularidade. O “homem-massa” só fala o que agrada os outros, assim como faz questão de ser bajulado; ele se sente “como todos”:

Diante de uma só pessoa podemos saber se é massa ou não. Massa é todo aquele que não se dá valor — bom ou mau — por motivos especiais, que se sente ‘como todo mundo’, e no entanto não se angustia, e gosta de se sentir idêntico aos demais. Imaginem um homem humilde que, ao tentar se valorar por razões especiais — ao se perguntar se tem talento para isto ou aquilo, se sobressai em alguma coisa — , nota não possuir nenhuma qualidade excepcional. Esse homem se sentirá medíocre e vulgar, mal dotado; mas não se sentirá “massa”. (A rebelião das massas)

A antítese cioraniana do “homem-massa” é o “homem-fragmento”, existência lúcida e solitária, à l’écart, o “homem-fora-de-tudo” (Le mauvais démiurge). Não sem relação com o heroísmo poético de um Baudelaire, artista moderno par excellence. Espíritos tão mais modernos quanto anti-modernos. Contra a demagogia hiperpolitizante, o discurso parresiasta, o “princípio de crueldade” (Clément Rosset), a “aristocracia da dúvida“, o estilo como heresia. O fragmento não como derivado, mas como princípio (cri)ativo e, ademais, dispositivo de salvaguarda contra as forças totalizantes e totalitárias. “Cada fragmento”, diz Cioran a Savater, “surge de uma experiência diferente e essas experiências sim é que são verdadeiras. Dir-se-á que isso é irresponsável, mas só se for no mesmo sentido que a vida é irresponsável.” Enquanto o pensamento fragmentário é capaz de refletir todos os aspectos da experiência individual, o pensamento sistemático reflete apenas um: “o caráter controlado, portanto empobrecido. Em Nietzsche, em Dostoiévski, falam todos os tipos de humanidade possíveis, todas as experiências. No sistema só fala o controlador, o chefe. O sistema é sempre a voz do chefe: por isso todo sistema é totalitário, enquanto que o pensamento fragmentário permanece livre.” (Entretiens)

Referências:

CANETTI, Elias, Massa e poder. Trad. de Sergio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

CIORAN, E. M., Cahier de Talamanca. Paris: Mercure de France, 2000.

___________, Entretiens. Paris: Gallimard, 1995.

___________, História e utopia. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

___________, Solitude et destin. Paris: Gallimard, 2004.

ORTEGA Y GASSET, José. A rebelião das massas. Trad. de Felipe Denardi. Campinas: Vide, 2016.

SLOTERDIJK, Peter, O desprezo das massas. Ensaio sobre lutas culturais na sociedade moderna. Trad. de Claudia Cavalcanti. São Paulo: Estação Liberdade, 2016.

UNAMUNO, Miguel de, Do sentimento trágico da vida. Trad. de John O’Kuinghttons. São Paulo: Hedra, 2013.

ZARIFOPOL-JOHNSTON, Ilinca, Searching for Cioran. Bloomington: Indiana University Press, 2009.