“Mecanismos da utopia [2]” (E.M. Cioran)

Depois de haver denunciado os ridículos da utopia, falemos de seus méritos; e já que os homens se acomodam tão bem ao estado social, e mal distinguem seu mal iminente, façamos como eles, associemo-nos a sua inconsciência.

O mais louvável nas utopias é haver denunciado os danos que causa a propriedade, o horror que representa, as calamidades que provoca. Pequeno ou grande, o proprietário está contaminado, corrompido em sua essência: sua corrupção recai sobre o menor objeto que toca ou de que se apropria. Se ameaçam sua fortuna, se o despojam dela, será obrigado a uma tomada de consciência da qual normalmente é incapaz. Para readquirir uma aparência humana, para recuperar sua “alma”, é preciso que o proprietário se veja arruinado e que consinta em sua ruína. A revolução o ajudará. Devolvendo-o à sua nudez primitiva, ela o aniquila no imediato e o salva no absoluto, pois liberta – interiormente, bem entendido – aqueles mesmos que atinge em primeiro lugar: os que possuem bens e riquezas; ela os reclassifica, lhes devolve sua antiga dimensão e os traz de volta para os valores que traíram. Mas antes mesmo de ter o meio ou a ocasião de atingi-los, a revolução mantém neles um medo salutar: perturba seu sono, alimenta seus pesadelos, e o pesadelo é o começo do despertar metafísico. É, portanto, enquanto agente de destruição que se revela útil; ainda que fosse nefasta, uma coisa a redimiria sempre: só ela sabe que tipo de terror usar para sacudir esse mundo de proprietários, o mais atroz dos mundos possíveis. Toda forma de posse, não tenhamos medo de insistir nisso, degrada, avilta, lisonjeia o monstro adormecido no fundo de cada um de nós. Possuir, nem que seja uma vassoura, considerar qualquer coisa como seu bem, é participar da indignidade geral. Que orgulho descobrir que nada nos pertence, que revelação! Você se considerava o último dos homens, e eis que, de súbito, surpreendido e como que iluminado por sua penúria, você não sofre mais por causa dela; ao contrário, ela se transforma em motivo de orgulho. E tudo o que você deseja é ser tão despojado quanto um santo ou um alienado.

Quando estamos cansados dos valores tradicionais, nos orientamos necessariamente para a ideologia que os nega. E é por sua força de negação que ela seduz, bem mais que por suas fórmulas positivas. Desejar a transformação da ordem social é atravessar uma crise marcada mais ou menos por temas comunistas. Isto é tão verdadeiro hoje, como o foi ontem e o será amanhã. Tudo se passa como se, depois do Renascimento, os espíritos tivessem sido atraídos, na superfície, pelo liberalismo, e, em profundidade, pelo comunismo, que, longe de ser um produto circunstancial, um acidente histórico, é o herdeiro dos sistemas utópicos e o beneficiário de um longo trabalho subterrâneo; de início capricho ou cisma, adquiriria mais tarde o caráter de um destino e de uma ortodoxia. Hoje em dia, as consciências só podem exercitar-se em duas formas de revolta: comunista e anticomunista. No entanto, como não perceber que o anticomunismo equivale a uma fé raivosa, horrorizada ante o futuro do comunismo?

Quando chega a hora de uma ideologia, tudo contribui para seu êxito, até seus próprios inimigos; nem a polêmica nem a polícia poderão deter sua expansão ou retardar seu triunfo; a ideologia quer, e pode, realizar-se, encarnar-se, mas quanto melhor o consiga, mais corre o risco de esgotar-se; uma vez instaurada, perderá seu conteúdo ideal, extenuará seus recursos para, finalmente, comprometendo as promessas de salvação de que dispunha, degenerar em tagarelice ou em espantalho.

A carreira reservada ao comunismo depende da rapidez com que gaste suas reservas de utopia. Enquanto possuí-las, atrairá inevitavelmente todas as sociedades que ainda não o tenham experimentado; recuando aqui, avançando lá, investido de virtudes que nenhuma outra ideologia detém, o comunismo dará a volta ao mundo, substituindo as religiões defuntas ou cambaleantes, e propondo em toda parte às massas modernas um absoluto digno de seu nada.

Considerado em si mesmo, o comunismo aparece como a única realidade à qual ainda se pode aderir, por menor que seja a ilusão que se tenha sobre o futuro: eis por que, em diversos graus, somos todos comunistas… Mas não é uma especulação estéril julgar uma doutrina fora das anomalias inerentes a sua realização prática? O homem esperará sempre o advento da justiça; para que triunfe, ele renunciará à liberdade, da qual terá saudades depois. O que quer que faça, o impasse espreita seus atos e seus pensamentos, como se fosse não seu termo, mas o ponto de partida, a condição e a chave. Não há forma social nova que seja capaz de salvaguardar as vantagens da antiga: uma soma mais ou menos igual de inconvenientes se encontra em todos os tipos de sociedade. Equilíbrio maldito, estagnação sem remédio, de que sofrem igualmente os indivíduos e as coletividades. As teorias não podem fazer nada, já que o fundo da história é impermeável às doutrinas que marcam sua aparência. A era cristã foi algo muito diferente do cristianismo; a era comunista, por sua vez, não saberia evocar o comunismo enquanto tal. Não existe acontecimento naturalmente cristão, nem naturalmente comunista.

CIORAN, E.M., “Mecanismos da utopia”, História e utopia. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.