“Antologia do retrato: de Saint-Simon a Tocqueville” (E.M. Cioran)

PREFÁCIO

Máxima e retrato

Os místicos, em especial Mestre Eckhart, ao fazer a distinção entre o homem interior e o homem exterior, optavam necessariamente pelo primeiro; o segundo, o ser no tempo, mais precisamente na sociedade, pertencia de direito aos moralistas; é a ele que examinam, perscrutam e denunciam, sem se preocuparem se possui alguma dimensão intemporal. As constantes que nele descobrem são aquelas que decorrem de sua decadência, e não aquelas que poderiam ajudá-lo a vencê-la. Desse homem, todo em superfície, sondaram as “profundezas”, os pontos mais baixos de sua frivolidade e os refolhos de suas aparências, o mecanismo e o segredo de seus interesses e de seus entusiasmos. Na crueza com que o desmascararam não se há de negar que entra uma certa elegância; mas a elegância reside na expressão e no giro da frase, não na visada e na análise. Se a indiscrição deles não poupa o mistério de ninguém, é que para eles justamente ninguém está investido de mistério, quero dizer, desse mistério essencial que nos liga ao absoluto e que faz de nós alguma coisa mais do que fantoches fúnebres ou risíveis. A seus olhos explicar um ser é aboli-lo, é reduzi-lo a nada. Quando nos limitamos ao homem exterior como tal, somos obrigados a reconhecer que as reflexões devastadoras que ele inspirou a um La Rochefoucauld parecem de um rigor abusivo. Todos os “retratistas” se impregnaram desse rigor, inconscientemente na maior parte dos casos; o que é certo é que seus esboços nos parecem tanto mais verídicos quanto maior é o número de traços que pediram emprestados à soberba acrimônia do autor das Máximas.

Entre os moralistas somente Pascal se debruçou sobre a dimensão metafísica da existência humana (também não consta que ele tenha reparado em algum autor de retratos). Ao lado dele, todos os outros, sem exceção, parecem fúteis porque não perceberam nossa miséria, e sim nossas misérias, esta soma de insuficiências, de enfermidades inevitáveis e insignificantes, que exprimem apenas um aspecto de nossa natureza. Mas se não perceberam o mal capital, intrínseco, que lhe é inerente, não devia escapar-lhes, em compensação, esse mal medíocre e geral, em luta com um bem do mesmo quilate. Maniqueístas de salão, seduzidos por um dualismo anedótico, hostis ou inaptos a essa solidão em que se debate o homem interior, frente à frente consigo ou com Deus. Não será significativo que quando por acaso se voltam para Pascal é para secularizar sua visão da concupiscência adaptando-a ao estudo dos costumes e rebaixando-a ao nível de uma “psicologia” sem trevas?

Concebidos nas noites de vigília, sem nada de incomodamente luminoso, os Pensamentos, ruminações de um insone contumaz, de um espírito que se revolve e se crispa no obscuro, não serão nunca, não digo compreendidos, mas sentidos, por aqueles que não vêem claro senão em pleno dia. Exprime-se aí uma desolação que não cede à amargura, a essa tristeza diurna, degradada e emporcalhada, incapaz de se elevar à pureza da noite. O solitário quase nunca tem uma visão amarga da natureza humana; superior a suas aversões, ele pensa no homem de um ponto alto demais, longínquo demais, para descer a odiá-lo. Bem diferente é o caso do indivíduo sociável ou atarefado. Já na Idade Média, como observa Huizinga, não é nos claustros que se deplora a perfídia dos homens; é na roda dos príncipes, sobretudo entre os poetas que estavam condenados a viver na corte. Mais tarde os salões iriam instituir a tirania da onipresença humana, o odioso de uma existência de onde a solidão é banida. Quem vive para a sociedade vive contra ela. Em grande parte, o retrato enquanto gênero é oriundo da vingança e do pesadelo do homem de boa educação que praticou demais seus semelhantes para não os execrar. Por mais extenuantes que sejam, as experiências da civilidade não poderiam comparar-se às do solitário, únicas e inimitáveis sob todos os aspectos.

Quando Mâra, o deus da morte, busca por meio tanto de tentações quanto de ameaças arrancar do Buda o império do mundo, este, para confundi-lo e desviá-lo de suas pretensões, lhe diz entre outras coisas: “Terás sofrido pelo conhecimento?” Esta interrogação a que Mâra não podia responder deveria ser sempre utilizada quando se quisesse medir o valor exato de um espírito. É evidente que um Montaigne não sofreu pelo conhecimento: um sábio, e nada mais, um Pascal, pelo contrário, pagou pela menor afirmação ou negação que se permitiu; vem daí que tudo o que ele diz tem um peso que dificilmente se acharia nas palavras dos outros moralistas, todos mais ou menos instalados nas cômodas certezas do azedume, todos resignados com nossa corrupção radical, que não parecem de modo algum corrigir nem sequer abalar. Mais um passo e eles resvalariam para o cinismo, para um desengano sem escrúpulos. Este passo seria dado por um Talleyrand que, pela disposição de seu espírito, se aparentava a La Rochefoucauld ou Chamfort, mas com a notável diferença de que, não contente de refletir sobre os defeitos de seus semelhantes, dedicou-se ainda a explorá-los, a tirar proveito deles. Sua ausência de ilusões, seus sarcasmos insolentes e sua clarividência lucrativa fazem dele um moralista demoníaco, um rufião do espírito e um parasita de sua época, cujos vícios encarnava. O verdadeiro moralista, ao contrário, é sempre desinteressado e, como denuncia males imanentes a todo e qualquer tipo de sociedade, exprime e ataca seu tempo enquanto o ultrapassa; vale dizer que seu fel não é datado. Assume a tarefa do conhecer os outros e de se definira si mesmo, empresa ingrata como poucas, já que repugna à nossa natureza tomar consciência de si mesma porque só chega a isso em detrimento dos atos e porque há incompatibilidade entre conhecer e agir. Obsedados pelo fazer, pela coincidência do eu e das coisas, somos compelidos a nos manifestarmos, a nos identificarmos com o que nos escapa e com o que nos oferece resistência; mas quando nos conhecemos, somos igualmente exteriores a nós mesmos e ao mundo. Eis por que o moralista, entregue ao mesmo tempo à introspecção e à observação, espectador de si mesmo e de outrem, vive sempre à margem da existência. Está apto a julgar os homens porque tem a rara infelicidade de se conhecer; a essa infelicidade acrescenta-se outra: a de aumentar desmesuradamente seus próprios defeitos e os de seus semelhantes, pelo efeito conjugado da minúcia e da imaginação. Afeito a perceber o monstro que esconde em si mesmo, é natural que veja tudo em grande escala e que construa a figura do homem cedendo à tentação do monumental. Que ele reforça os traços, todos concordam sem titubear. Mas cumpre não esquecer que ele observa exemplares não indiferentes mas apaixonados de humanidade nos quais o menor defeito assume relevo especial. La Rochefoucauld meteu-se na Fronda, Chamfort na Revolução. Os tempos conturbados, pondo a nu as paixões, facilitam o conhecimento deles; são a providência do observador, porque a meditação sobre o homem exige, para nascer e se aprofundar, condições capazes de provocar o assombro ou o estupor. Sêneca foi o perfeito contemporâneo de Nero; por sua vez, Marco Aurélio não viveu precisamente em plena época de ouro, e tampouco Montaigne. Para que o homem se ponha no centro de nossas interrogações, não basta só que nos irrite; é preciso também que se comprometa, que enfraqueça a imagem que fizemos dele nas épocas de paz. Reconheçamos: ele se empenha nisso com todas as suas forças. Que zelo não põe ele em arruinar a idéia que os filósofos formaram a seu respeito. Ele lhes desafia os sistemas, para a amarga alegria dos moralistas que têm por oficio perscrutá-lo e julgá-lo a partir do momento em que a filosofia por ele se desinteressa e dele se esquiva por medo de enfrentá-lo. Mais corajosos, eles o aceitam, eles mesmos, em desespero, é verdade, porque o sabem imutável, condenado à sua perda, incuravelmente fiel ao que ele é.

Como nunca eleva a voz nem força o tom, o moralista é o tipo mesmo do homem bem-educado, e prova-o escrevendo pouco. Haverá melhor sinal de respeito pelo leitor que o laconismo? Assumir um ar grave, explicar-se, demonstrar — tantas marcas de vulgaridade. Quem aspira à elegância não deve temer a esterilidade; deve antes empenhar-se nesse sentido, sabotar as palavras em nome da Palavra, causar o mínimo de prejuízo ao silêncio, não se afastar dele senão por instantes para melhor reimergir nele. A máxima, que pertence a um gênero discutível sem dúvida, nem por isso deixa de constituir um exercício de pudor, visto que permite subtrair-se à pletora verbal e aperceber-se da inconveniência e da inanidade. Menos exigente porque menos condensado, o retrato é quase sempre uma máxima, diluída em alguns autores, encorpada em outros; entretanto, pode, em casos excepcionais, tomar o aspecto de uma máxima explosiva, elevar-se à altura da verve e da vertigem, evocar o infinito por meio da acumulação dos traços e da vontade de ser exaustivo: assistimos então a um fenômeno que no interior de uma literatura só se produz uma vez, a um caso maravilhosamente aberrante, o de um escritor que, à força de se sentir demasiadamente confinado numa língua, a ultrapassa e dela se evade — com todas as palavras que ela contém… Ele as violenta, as desenraíza, se apropria delas para com elas fazer o que bem lhe agrada, sem nenhuma consideração por elas nem pelo leitor, ao qual inflige um inesquecível, um magnífico martírio. Como Saint-Simon é mal-educado!

… Não mais, porém, do que a vida, da qual ele é, se se ousa dizer, a réplica literária. Nele não há nenhuma abstração, nenhum estigma clássico; em pé de igualdade com o imediato, diverte-se com suas opiniões e, se às vezes é injusto, nunca é falso. Todos os outros retratos, ao lado dos seus, parecem esquemas, composições estilizadas que carecem de energia e veracidade. Seu grande trunfo: ignorava que tinha gênio, não se linha na conta de escritor. Nada o embaraça, nada o intimida; atira-se, deixa-se arrebatar por seu frenesi, sem inventar para si escrúpulos e constrangimentos. Uma alma equatorial, dilatada em sua exuberância, devastada em seus transbordamentos, incapaz de se impor esses entraves resultantes da deliberação ou do ensimesmamento. O retrato à maneira de La Bruyère é o homem que encarna um vício ou uma virtude, um ou a outra de contorno bom definido, é o retrato congelado, de uma exatidão ideal, complemento literário da pintura italiana; em Saint-Simon nenhum desenho rigoroso, nenhum acabamento. Quando cremos ler um elogio logo nos desiludimos; de repente surge um traço imprevisto, um adjetivo fulgurante que é próprio do panfleto; na verdade não é nem uma apologia nem uma execução; é o indivíduo tal qual, complexo, contraditório e desconcertante, irredutível a uma fórmula. Pensa-se num Rembrandt furioso.

Mme du Deffand, que leu as Memórias em manuscrito, achava-lhes o estilo “abominável”. Tal devia ser também a opinião de Duclos que por sua vez as havia compulsado em busca de detalhes sobre a Regência, cuja história escreveu numa linguagem de insipidez exemplar: é Saint-Simon edulcorado, é a graça que esmaga o vigor! Por sua clareza dessecante, por sua recusa do insólito e da incorreção, do prolixo e do arbitrário, o estilo do século 18 faz pensar numa queda na perfeição, na não-vida. Um produto de estufa, artificial, exangue, que, repelindo todo desenfreamento, não podia de maneira alguma produzir uma obra de originalidade total, com tudo que isso implica de impuro, de perturbador e de irresistível. Em vez disso, uma grande quantidade de obras em que se exibe um verbo transparente, sem prolongamentos nem mistério, um verbo controlado e censurado por não se sabe que Inquisição da limpidez.

A tirania do gosto

“Não tenho ócio suficiente para ter gosto.” Esta frase de autor desconhecido ultrapassa o alcance de um chiste. O gosto é de fato o apanágio dos ociosos e dos diletantes, daqueles que dispõem de tempo: a sociedade setecentista, que tinha tempo de sobra, empregava-o em ninharias sutis e futilidades delicadas; empregava-o sobretudo contra si mesma.

“Certa manhã (era um domingo) esperávamos para a missa o Sr Príncipe de Conti; estávamos no salão, sentadas em torno de uma mesa sobre a qual havíamos depositado nossos livros de horas, que a marechala [a Marechala de Luxemburgo] se divertia a folhear. De súbito ela se deteve sobre duas ou três preces determinadas que lhe pareceram do maior mau gosto e cujas expressões eram de fato bizarras” (Mme de Genlis, Mémoires, t. I, p. 95).

Nada mais insensato que exigir que uma prece esteja redigida na linguagem dos bem-nascidos, que tenha elegância e graça. O que importa é que seja verdadeira; isso basta. Mas esta qualidade não era especialmente estimada por espíritos afeitos às piruetas e que iam à missa nas mesmas disposições com que iam às ceias ou à caça. A gravidade indispensável à piedade, o século não a possuía; ele amava e cultivava apenas o requintado. O comentário da marechala nos faz lembrar aquele cardeal da Renascença que se dizia enamorado demais do latim da época clássica para suportar o latim grosseiro dos Evangelhos. Certas delicadezas são incompatíveis com a fé; o gosto e o absoluto se excluem… Nenhum deus sobrevive ao sorriso do espírito, à dúvida frívola; em compensação, a dúvida vertiginosa só espera negar a si mesma para dar o salto no fervor. Em vão procuraríamos este gênero de vertigem no ambiente de uma sociedade onde o refinamento participava da frivolidade e da acrobacia. É curioso observar que um mesmo país tenha podido produzir um Pascal e um Voltaire, que tenha esbanjado seu gênio de maneira tio desconcertante, em caminhos irreconciliáveis, sem nenhuma preocupação de convergência nem de unidade. Que utilidade têm os Pensamentos para se chegar ao Dicionário filosófico?

Por sua própria estrutura, cada língua contém virtualidades metafísicas; o francês, o do século 18 sobretudo, comporta pouquíssimas: sua clareza inumana, sua ausência de prolongamentos, sua recusa do indeterminado fazem dele um idioma Iminentemente gramático (isto é, a-metafísico), que pode com esforço atingir o mistério, mas que não chega a ele naturalmente. É característico que um Mallarmé postulasse o obscuro, que não fosse levado a isso pela simples espontaneidade do verbo. O ininteligível, em francês, se não é intencional, resulta de um vício do espírito ou de algum lapso gramatical.

Uma língua morta, observa um lingüista, é reconhecida pelo fato de que nela não se temo direito de cometer erros. Vale dizer que não se tem o direito de lhe embutir a menor inovação. Na época das Luzes o francês havia chegado a esse limite extremo de rigidez e de acabamento. Depois da Revolução tomou-se menos rigoroso e menos puro; mas ganhou em naturalidade o que perdeu em perfeição. Para sobreviver, para se perpetuar, tinha necessidade de se desenfrear e corromper, de se enriquecer de muita incorreção e impropriedade nova, de passar enfim do salão para a rua. De súbito sua esfera de influência e de irradiação diminuiu; só pôde ser a língua da Europa culta numa época em que, singularmente empobrecido, atingira seu mais alto ponto de transparência e debilidade. Um idioma só se aproxima da universalidade quando se emancipa de suas origens, delas se afasta e as renega; chegado lá, se quer se renovar, evitar a irrealidade ou a esclerose, tem de renunciar a suas exigências, quebrar suas molduras e seus modelos; tem que condescender com o mau gosto.

Autópsia de uma sociedade

Em todo o transcurso do século 18 se desdobra o espetáculo de uma sociedade carcomida, que poderia servir de protótipo a quem estivesse tentado a traçar o retrato de uma humanidade chegada ao termo de sua evolução. Pode-se de fato imaginar essa etapa em que o homem exaurido, sem recursos nem desejos, se voltasse para si mesmo e desabasse em seu próprio vazio. A ausência de futuro, deixando de ser a característica de uma classe, se estenderia a todas, numa soberba democratização da vacuidade. Mas não é sequer necessário fazer um esforço de imaginação para conceber esse estádio último: mais de um fato dá a idéia dele. À medida que o homem avança, se vê se alargarem suas possibilidades materiais, não deixa de discernir que suas oportunidades espirituais se comprimem em igual proporção. O desastre espreita-o, e ele manifestamente o corteja. No fim do século, erguia-se o cadafalso; no fim da história, o cadafalso que será erigido terá uma outra amplitude, visto que nele subirá o rei da criação.

Uma sociedade que goza sem medida nem vergonha do bem-estar sucumbe aos primeiros golpes que lhe são desferidos: desprovida de todo princípio de vida, sem nada que lhe permita resistir às forças que a assaltam, sofre o fascínio da morte. Se a Revolução triunfou foi porque o poder era uma ficção e o “tirano” um fantasma. Ela se bateu literalmente contra espectros. De resto, uma revolução, seja ela qual for, só alcança êxito quando está em luta com uma ordem irreal. Diga-se o mesmo de todo advento, de toda grande virada da história. Alarico não conquista Roma, e sim um cadáver. O único mérito do Bárbaro foi ter tido faro. Os jacobinos também tiveram. Godos pelas origens, eles inauguraram um novo tipo de humanidade: o retórico sanguinário, refinado e sutil, o bárbaro camuflado de ideólogo.

A alta corrupção amável no início do século teve no Regente uni símbolo. O que nele impressiona antes de mais nada é sua falta total de “caráter”. Ele tratava os negócios de Estado com a mesma desenvoltura que usava nos negócios particulares; uns e outros só lhe interessavam em função das frases de espírito a que davam motivo, porque tudo era para ele pretexto para o chiste ou n fórmula. Tão inconstante em suas paixões como em seus vícios, entregava-se a eles por indolência e como que por incuriosidade. Amantes em grande número, mas nenhuma que lenha marcado sua vida. Incapaz de amar e odiar, viveu aquém de seus dons que eram múltiplos, mas que ele desdenhava cultivar; a pintura, em que poderia ter se distinguido, abandonou-a como abandonava tudo. “Uma das infelicidades deste príncipe”, diz Saint-Simon, “era ser incapaz de perceber o desdobramento do que quer que fosse, incapaz até de compreender que se pudesse ficar zangado. Uma outra, de que já falei, era uma espécie de insensibilidade que o lançava sem rancor nas ofensas mais mortais e mais perigosas; e como o nervo e o princípio do ódio e da amizade, do reconhecimento e da vingança é o mesmo, e como lhe faltasse essa mola, as conseqüências eram infinitas e perniciosas.” Ao ler esses traços pensa-se no que diz Retz de Mazarino: “Ele não foi nem bondoso nem cruel, porque não se lembrava nem dos favores nem das injúrias.”

Modelo de ineficácia, o Regente levou à genialidade a arte de malbaratar seus talentos. Pode-se mesmo a seu respeito falar de um paroxismo da frivolidade. Disso iria resultar uma grande desordem nos negócios. Seus contemporâneos não se contentaram em responsabilizá-lo por isso e ousaram ainda compará-lo a Nero; entretanto, deveriam ter-lhe testemunhado mais indulgência e considerar-se felizes por sofrerem um absolutismo atenuado pela anarquia e a farsa. Que ele foi dominado por escroque, à frente o Abade Dubois, é inegável; mas não será melhor viver sob um regime em que uma certa liberdade é garantida por crápulas do que sufocar sob a autoridade dos puros e fanáticos? Faltava-lhe “nervo”, sem dúvida; por outro lado, essa carência é uma virtude, de vez que torna possível o exercício da tolerância.

O Abade Galiani é um dos raros a ter percebido que numa época em que se clamava contra a opressão, a leniência dos costumes era, ainda assim, uma realidade. O que escreveu sobre Luís XV poderia ter escrito, invocando outros elementos, sobre a própria Regência: “O reinado de Luís XV será o mais memorável para a posteridade, que não mencionará o século de Luís XIV senão para dizer que no reinado de Luís XV Voltaire falava dele. De resto foi este último que produziu Montesquieu, Voltaire, Diderot, d’ Alembert, Boulanger, Rouelle, Le Chalotais e a expulsão dos jesuítas. Quando se compara a crueza da perseguição dos jesuítas contra Port-Royal à brandura da perseguição dos enciclopedistas vê-se a diferença dos reinados, dos costumes e do coração dos dois reis. Aquele era um caçador de notoriedade e tomava o ruído pela glória; este era um homem de bem que exercia o mais perverso dos ofícios (o de rei) o mais a contragosto que podia. Não se encontrará durante muito tempo um reinado igual em parte alguma.”

Mas o que o abade parece não ter percebido é que, se a tolerância é desejável e se justifica por si só o trabalho que dá viver, ela se revela, em compensação, como um sistema de fraqueza e dissolução. Esta evidência trágica não podia se impor a um espírito que convivia com esses amadores de ilusões que foram os enciclopedistas; iria tornar-se vívida em épocas mais desiludidas, notadamente na nossa. A sociedade do século 18, sabemos agora, era tolerante porque lhe faltavam o vigor e o entusiasmo necessários para perseguir, e portanto para se conservar. De Luís XV Michelet dizia que “em sua alma havia o nada”. Com mais razão ainda poderia ter dito o mesmo de Luís XVI. Eis a explicação de uma época maravilhosa, e condenada. O segredo da doçura dos costumes é um segredo funesto e mortal.

A Revolução foi provocada pelos abusos de um reinado em que os privilégios pertenciam a uma classe que não acreditava mais em nada, nem mesmo em seus privilégios, ou melhor, que a eles se aferrava por automatismo, sem paixão nem afinco, porque tinha um fraco ostensivo pelas idéias daqueles que iam destruí-la. A complacência com o adversário é o sinal distintivo da debilidade, isto é, da tolerância, que não é, em última análise, senão um coquetismo de agonizantes.

Madame du Deffand ou o drama da lucidez

“Tendes muita experiência”, escreveu a Marquesa du Deffand à Duquesa de Choiseul, “mas falta-vos uma que espero não a tenhais nunca: é a privação do sentimento, com a dor de não se poder pastar sem isso.” O século tinha a nostalgia da candura, do estado que mais falta lhe fazia. Das Cartas galantes de Fontenelle às Ligações perigosas de Lados se desenrola a comédia de uma sensibilidade que se esgota no artifício e no falso. A inteligência outrora soberana, a ingenuidade 1- isto é, os sentimentos verdadeiros —, parecia reservada ao selvagem ou ao tolo. Ora, todos esses belos espíritos tinham um medo doentio da tolice; quanto ao estado selvagem, idealizavam-no sem amá-lo de verdade, a “natureza” não sendo acessível senão àqueles que de tempos em tempos condescendem com a “besteira”: eles a repeliam do fundo da alma. A inteligência, convertida em superstição, se levanta contra todos os valores exteriores a seu exercício e não oferece nenhuma aparência de realidade a que nos possamos agarrar: ela é vazia. Quem se apega a ela por culto ou mania chega forçosamente à “privação do sentimento” e ao remorso de ter sacrificado a um ídolo que só distribui tédio e desolação, como o atesta, documento capital, a carta que Mme du Deffand escreveu a Walpole a 12 de abril de 1769:

“Dizei-me por que, detestando a vida, eu receio a morte? Nada me indica que tudo não se acabará comigo; ao contrário, me dou conta do desmoronamento de meu espírito, bem como do de meu corpo. Tudo o que se diz pró ou contra não me causa impressão alguma. Só escuto a mim mesma, e só encontro dúvida e escuridão. Crer, dizem, é ‘o mais seguro; mas como crer no que não se compreende? O que não se compreende pode existir, sem dúvida; também não o nego; sou como um surdo e cego de nascença; há sons, cores, isso ele admite, mas sabe ele o que é que está admitindo? Se basta não negar, ainda bem; mas isso não basta. Como se pode decidir entre um começo e uma eternidade, entre o cheio e o vazio? Nenhum dos meus sentidos me pode ensiná-lo; que se pode aprender sem eles? Entretanto, se não creio no que é preciso crer, sou ameaçada de ser mil vezes mais infeliz depois de minha morte do que o sou durante a minha vida. A que se determinar, se é possível se determinar? Peço-vos, a vós que tendes um caráter tão verdadeiro, assumir o compromisso de, por simpatia, encontrar a verdade, se ela é encontrável. É das coisas do outro mundo que é preciso me informar, e me dizer se estamos destinados a desempenhar nele um papel. A mim me cabe falar-vos deste mundo de cá. Em primeiro lugar digo-vos que ele é detestável, abominável etc. Há pessoas virtuosas, ao menos que podem parecê-lo, enquanto não atacamos sua paixão dominante, que é de ordinário, naquelas pessoas, o amor da glória e da reputação. Embriagadas com elogios, muitas vezes parecem modestas; mas os cuidados que tomam para consegui-los denunciam o motivo e deixam entrever a vaidade e o orgulho. Eis o retrato da maioria das pessoas de bem. Nas outras são o interesse, a inveja, o ciúme, a crueldade, a maldade, a perfídia. Não há uma só pessoa a quem se possa confiar as aflições sem lhe proporcionar uma alegria maligna e sem se aviltar a seus olhos. Falar de prazeres e êxitos? Isso faz nascer o ódio. Praticais o bem? O reconhecimento pesa, e encontram-se razões para se eximir dele. Cometeis algumas faltas? Elas jamais se apagam; nada pode repará-las. Vedes pessoas inteligentes? Só estão ocupadas com elas mesmas; desejam ofuscar-vos e não se darão ao trabalho de vos instruir. Tendes negócio com espíritos mesquinhos? Eles estão atrapalhados com o próprio papel, manifestarão descontentamento com sua esterilidade e sua pouca inteligência. Na falta de espírito encontram-se sentimentos? Alguns, nem sinceros, nem constantes. A amizade é uma quimera; só reconhecem o amor; e que amor! Mas basta, não quero levar mais longe minhas reflexões: elas são o produto da insônia; reconheço que um sonho seria preferível.”

Dificilmente se encontraria um texto em que se exprime com mais energia o drama da lucidez, desse estado extremo a que chega a intemperança da inteligência, e em que se é cortado de tudo, em que se deixa de ser natureza. A infelicidade quer que, uma vez lúcida, a pessoa fique assim cada vez mais; nenhum melo de trapacear ou recuar. E esse progresso se realiza em detrimento da vitalidade, do instinto. “Nem romance, nem temperamento”, dizia de si mesma a marquesa. Compreende-se por que sua ligação com o Regente não foi além de duas semanas. Eles se pareciam perigosamente, tinham-se distanciado demais suas próprias sensações. O tédio, tormento comum a ambos, se regozija no intervalo que se abre entre o espírito e os lidos? Quanto mais movimento espontâneo, mais sinal de consciência. O “amor” é o primeiro a se ressentir. A definição que disso deu Chamfort convinha perfeitamente a uma época de “fantasia” e de “epiderme”. Rivarol se gabava de poder, no auge de uma certa atividade, resolver um problema de geometria. Tudo era cerebral entre esses espíritos, até o espasmo. Fenômeno ainda mais grave, tal alteração dos sentidos, em lugar de abalar somente alguns isolados, torna-se a deficiência, a maldição de uma classe, extenuada e esvaziada pela prática constante da ironia.

Quem quer se instalar numa realidade ou optar por um credo, mas não consegue, entrega-se por vingança a ridicularizar aqueles que conseguem isso naturalmente. A ironia deriva de um apetite de ingenuidade, decepcionado; insatisfeito, e que, à força de malogros, se exaspera e se envenena. Adquire inevitavelmente uma extensão universal; e se ataca de preferência a religião e procura miná-la com fúria, é porque sente em segredo a amargura de não poder crer. Ainda mais perniciosa é a zombaria acerba, raivosa., degenerada em sistema e confinando com a autodestruição. Em 1726, estando a Marquesa de Prie exilada na Normandia, para lá seguiu Mme du Deffand para lhe fazer companhia. Em sua Histoire dela Régence, Lemontey conta que “estas duas amigas se enviavam mutuamente cada manhã as copias satíricas que compunham uma contra a outra”.

Numa sociedade em que a maledicência era obrigatória e em que se ficava acordado por medo da solidão (“Não havia nada que ela não preferisse ao desgosto de se deitar”, dizia Duelos de uma das elegantes da época), só podia haver de sagrado a conversação, os comentários corrosivos, as frases de construção brilhante e de intenção mortífera. Ninguém sendo poupado, Montesquieu tinha razão de assinalar, como um aspecto característico da época, a “decadência da admiração”. Tudo se liga: sem candura, sem piedade, nenhuma capacidade de admirar, de considerar os seres neles mesmos, em sua realidade original e única, fora de seus acidentes temporais; eufórica, estimulante, a admiração, genuflexão intelectual que não implica nem humilhação nem sentimento de impotência, é a prerrogativa, a convicção e a segurança das almas puras, precisamente daquelas almas que não freqüentam os salões.

Despotismo da literatura

Só os povos brigões, indiscretos, ciumentos, renitentes têm uma história interessante; a da França é assim no mais alto grau. Fértil em acontecimentos e, mais ainda, em escritores para comentá-los, é ela a providência do memorialista. Nenhum outro país produziu tantos Souvenirs.

Em política o francês é caprichoso ou fanático, julga por mania ou por sistema; no entanto o próprio sistema assume nele as aparências de mania. A característica que o singulariza é a versatilidade, causa dessa instabilidade, desse desfile desconcertante de regimes a que ele assiste como espectador divertido ou frenético, cuidadoso sobretudo de mostrar que, mesmo em seus furores, nunca é otário. Sempre contra, deleitando-se na oposição, menos para defender a coisa pública do que para se valorizar, é vítima desse “espírito literário” admiravelmente de tinido por Tocqueville: “O que eu chamo espírito literário em política consiste em procurar mais o que é engenhoso e novo do que o que é verdadeiro, em gostar mais do que causa admiração do que daquilo que tem serventia, em se mostrar muito sensível A boa representação e à boa elocução dos atores, independentemente das conseqüências da peça, e em se decidir enfim com base mais em impressões do que em razões” (Souvenirs, Paris, Calmann-Lévy, 1893, p. 97). E Tocqueville acrescenta: “… o povo francês, considerado em massa, julga quase sempre em política como um homem de letras.”

O literato está menos apto que qualquer outra pessoa a compreender o funcionamento do Estado; nisso ele só mostra legítima competência durante as revoluções, porque é justamente então que a autoridade é abolida e porque, na vacância do poder, tem ele a faculdade de imaginar que é possível resolver os problemas pela atitude ou pela fraseologia. Não é revelador que os homens de 89 se tenham inspirado em Rousseau, literato orno quem mais o foi, e não em Montesquieu, espírito sólido e profundo que jamais sucumbe às facilidades do talento? Em seus Cahiers lemos sobre seu século e sobre a influência que nele exerceram as mulheres uma observação que teria sido mais exata se tivesse sido feita a propósito de letrados: “Não se pode mais suportar nenhuma das coisas que têm um objeto determinado: os militares não podem suportara guerra; os membros do gabinete, o gabinete; e assim por diante. As pessoas só conhecem os objetos gerais, e, na prática, isso se reduz a nada. O trato com as mulheres é que nos levou a isso; porque é do caráter delas não se ligarem a nada de fixo.”

A refletir bem isso, a instabilidade política da Europa é devida, em parte ao menos, ao fato de que foram tomados como modelo os costumes políticos franceses, tais como os conhecemos desde a Revolução. Se o exemplo da Inglaterra foi praticamente nulo, é porque em geral não são imitadas as instituições livres, e sim as contrafações e a simulação da liberdade. Aqui um paralelo acode naturalmente ao espírito. Nos países anglo-saxões as seitas protestantes permitem ao cidadão dar livre curso à sua loucura, à sua necessidade de controvérsia e de escândalo; daí a diversidade religiosa e a uniformidade política. Ao contrário, nos países católicos, em particular na França, os recursos em delírio do indivíduo só podem se fazer valer na anarquia dos partidos e das facções; é aí que ele satisfaz seu apetite de heresia, é aí que ele tira sua desforrada Igreja. Nenhuma nação encontrou até agora o segredo de ser sábia ao mesmo tempo em política e em religião. Se esse segredo fosse afinal encontrado, a França seria o último país a querer aproveitá-lo, ela que carreia para os conflitos ideológicos todos os vícios dos meios literários. O prestígio da literatura nunca foi tão considerável como no século 18. As convulsões da Revolução e mesmo as do Império não decorrem disso de algum modo? A supremacia do homem de letras é sempre abusiva, usurpada, provocante. No dizer do Abade Maury, eram considerados, no círculo da verdadeira Academia, como criados os membros da das Ciências, a qual contava, porém, com um Lagrange, um Lavoisier, um Laplace! Sempre o brilho posto acima da competência…

Os franceses, a crer em Talleyrand, fizeram a Revolução por vaidade. Outro tanto se poderia dizer dos outros acontecimentos da história da França. Que todos os povos sejam vaidosos, ninguém discordará; os franceses o são entretanto mais que o resto; e esse defeito está tão arraigado neles que se torna, se não uma qualidade, em todo o caso um recurso que os incita a produzir e agir, a brilhar sobretudo; daí o espírito, exibição da inteligência, ansioso por prevalecer sobre outrem custe o que custar, em ter infalivelmente a última palavra. Mas se a vaidade aguça as faculdades, se desvia do lugar-comum e combate a Indolência, em compensação faz de qualquer indivíduo um ferido, um ofendido; também pelos sofrimentos que ela lhes inflige, os franceses pagaram por todas as oportunidades de que gozaram abundantemente. Durante mil anos a história girou em torno deles; tamanha sorte pede expiação; seu castigo foi e ainda a irritação de um amor-próprio sempre descontente, sempre inapaziguado. Quando eram poderosos queixavam-se de não o ser bastante; queixam-se agora de não mais o ser. Tal é o drama do uma nação mimada, ulcerada na prosperidade não menos do que no infortúnio, ávida e mutável, favorecida demais pela sorte poro conhecer a modéstia ou a resignação, inapta a manter o comedimento diante não só do inevitável como do inesperado.

Precisamente do amor-próprio os autores de retratos, e mais linda os moralistas, descreverão os refolhos e os tormentos. E serão amargos como o sentimento sobre o qual se debruçarão, sentimento impuro que denunciarão até em nossos pavores mais abstratos e mais desinteressados porque, segundo eles, sofremos para revelar nossos sofrimentos da mesma forma que nos rejubilamos unicamente para humilhar os outros com o espetáculo da nossa alegria; até nosso “foro íntimo” não seria, sempre segundo eles, senão uma cena invisível onde representamos a comédia diante de nós mesmos. A maldição do moralista é não poder crer em nenhuma espécie de “nobreza d’alma”, porque crer nisso e admiti-lo equivaleria para ele a um renegamento, a uma distorção imposta a seu “sistema” e também à sua amargura. Um sentimento isento de falsidade, uma generosidade a toda prova, ele não está disposto a concebê-los; respeita demais a evidência, uma evidência só sua, para subscrever o inverificável, esse fundamento da pureza. Que haja um lugar onde o horrível não reina soberano — tal idéia não lhe ocorre de forma alguma, pela simples razão de que meditou demais sobre o homem. Que é ele em suma senão o antípoda do libertado?

Para escapar ao anátema que pronunciou contra seus semelhantes, contra nós todos, não há outro recurso senão o distanciar-se das realidades humanas, a recusa a encará-las e insistir nelas. A meditação sobre o ser torna menos amargo. Desde que examinamos os atos, perscrutando-os sem piedade, pomo-nos fora do absoluto e da salvação; nenhuma saída, nenhuma esperança nem equilíbrio. Os moralistas (à exceção de Vauvenargues, o mais doce e o mais insípido de todos) são quase sempre virulentos, se bem que de uma virulência contida; tal é o caso também dos memorialistas: dir-se-ia que nos retratos que eles traçam de seus contemporâneos dedicam-se a nos mostrar a maneira como se encarna, se prolonga e se individualiza o pecado original. E se recorreram à idéia de nossa queda, o mais das vezes inconscientemente, é verdade, é porque percebiam sem dúvida que ela lhes oferecia como que a chave dos seres, da qual não poderiam ter-se privado sem cair no vago ou no incompreensível.

CIORAN, E.M. (ed.), “Prefácio”, in Antologia do retrato. Trad. de José Laurenio de Melo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.