“Antologia do retrato: de Saint-Simon a Tocqueville” (E.M. Cioran)

PREF√ĀCIO

M√°xima e retrato

Os m√≠sticos, em especial Mestre Eckhart, ao fazer a distin√ß√£o entre o homem interior e o homem exterior, optavam necessariamente pelo primeiro; o segundo, o ser no tempo, mais precisamente na sociedade, pertencia de direito aos moralistas; √© a ele que examinam, perscrutam e denunciam, sem se preocuparem se possui alguma dimens√£o intemporal. As constantes que nele descobrem s√£o aquelas que decorrem de sua decad√™ncia, e n√£o aquelas que poderiam ajud√°-lo a venc√™-la. Desse homem, todo em superf√≠cie, sondaram as ‚Äúprofundezas‚ÄĚ, os pontos mais baixos de sua frivolidade e os refolhos de suas apar√™ncias, o mecanismo e o segredo de seus interesses e de seus entusiasmos. Na crueza com que o desmascararam n√£o se h√° de negar que entra uma certa eleg√Ęncia; mas a eleg√Ęncia reside na express√£o e no giro da frase, n√£o na visada e na an√°lise. Se a indiscri√ß√£o deles n√£o poupa o mist√©rio de ningu√©m, √© que para eles justamente ningu√©m est√° investido de mist√©rio, quero dizer, desse mist√©rio essencial que nos liga ao absoluto e que faz de n√≥s alguma coisa mais do que fantoches f√ļnebres ou ris√≠veis. A seus olhos explicar um ser √© aboli-lo, √© reduzi-lo a nada. Quando nos limitamos ao homem exterior como tal, somos obrigados a reconhecer que as reflex√Ķes devastadoras que ele inspirou a um La Rochefoucauld parecem de um rigor abusivo. Todos os ‚Äúretratistas‚ÄĚ se impregnaram desse rigor, inconscientemente na maior parte dos casos; o que √© certo √© que seus esbo√ßos nos parecem tanto mais ver√≠dicos quanto maior √© o n√ļmero de tra√ßos que pediram emprestados √† soberba acrim√īnia do autor das M√°ximas.

Entre os moralistas somente Pascal se debru√ßou sobre a dimens√£o metaf√≠sica da exist√™ncia humana (tamb√©m n√£o consta que ele tenha reparado em algum autor de retratos). Ao lado dele, todos os outros, sem exce√ß√£o, parecem f√ļteis porque n√£o perceberam nossa mis√©ria, e sim nossas mis√©rias, esta soma de insufici√™ncias, de enfermidades inevit√°veis e insignificantes, que exprimem apenas um aspecto de nossa natureza. Mas se n√£o perceberam o mal capital, intr√≠nseco, que lhe √© inerente, n√£o devia escapar-lhes, em compensa√ß√£o, esse mal med√≠ocre e geral, em luta com um bem do mesmo quilate. Manique√≠stas de sal√£o, seduzidos por um dualismo aned√≥tico, hostis ou inaptos a essa solid√£o em que se debate o homem interior, frente √† frente consigo ou com Deus. N√£o ser√° significativo que quando por acaso se voltam para Pascal √© para secularizar sua vis√£o da concupisc√™ncia adaptando-a ao estudo dos costumes e rebaixando-a ao n√≠vel de uma ‚Äúpsicologia‚ÄĚ sem trevas?

Concebidos nas noites de vig√≠lia, sem nada de incomodamente luminoso, os Pensamentos, rumina√ß√Ķes de um insone contumaz, de um esp√≠rito que se revolve e se crispa no obscuro, n√£o ser√£o nunca, n√£o digo compreendidos, mas sentidos, por aqueles que n√£o v√™em claro sen√£o em pleno dia. Exprime-se a√≠ uma desola√ß√£o que n√£o cede √† amargura, a essa tristeza diurna, degradada e emporcalhada, incapaz de se elevar √† pureza da noite. O solit√°rio quase nunca tem uma vis√£o amarga da natureza humana; superior a suas avers√Ķes, ele pensa no homem de um ponto alto demais, long√≠nquo demais, para descer a odi√°-lo. Bem diferente √© o caso do indiv√≠duo soci√°vel ou atarefado. J√° na Idade M√©dia, como observa Huizinga, n√£o √© nos claustros que se deplora a perf√≠dia dos homens; √© na roda dos pr√≠ncipes, sobretudo entre os poetas que estavam condenados a viver na corte. Mais tarde os sal√Ķes iriam instituir a tirania da onipresen√ßa humana, o odioso de uma exist√™ncia de onde a solid√£o √© banida. Quem vive para a sociedade vive contra ela. Em grande parte, o retrato enquanto g√™nero √© oriundo da vingan√ßa e do pesadelo do homem de boa educa√ß√£o que praticou demais seus semelhantes para n√£o os execrar. Por mais extenuantes que sejam, as experi√™ncias da civilidade n√£o poderiam comparar-se √†s do solit√°rio, √ļnicas e inimit√°veis sob todos os aspectos.

Quando M√Ęra, o deus da morte, busca por meio tanto de tenta√ß√Ķes quanto de amea√ßas arrancar do Buda o imp√©rio do mundo, este, para confundi-lo e desvi√°-lo de suas pretens√Ķes, lhe diz entre outras coisas: ‚ÄúTer√°s sofrido pelo conhecimento?‚ÄĚ Esta interroga√ß√£o a que M√Ęra n√£o podia responder deveria ser sempre utilizada quando se quisesse medir o valor exato de um esp√≠rito. √Č evidente que um Montaigne n√£o sofreu pelo conhecimento: um s√°bio, e nada mais, um Pascal, pelo contr√°rio, pagou pela menor afirma√ß√£o ou nega√ß√£o que se permitiu; vem da√≠ que tudo o que ele diz tem um peso que dificilmente se acharia nas palavras dos outros moralistas, todos mais ou menos instalados nas c√īmodas certezas do azedume, todos resignados com nossa corrup√ß√£o radical, que n√£o parecem de modo algum corrigir nem sequer abalar. Mais um passo e eles resvalariam para o cinismo, para um desengano sem escr√ļpulos. Este passo seria dado por um Talleyrand que, pela disposi√ß√£o de seu esp√≠rito, se aparentava a La Rochefoucauld ou Chamfort, mas com a not√°vel diferen√ßa de que, n√£o contente de refletir sobre os defeitos de seus semelhantes, dedicou-se ainda a explor√°-los, a tirar proveito deles. Sua aus√™ncia de ilus√Ķes, seus sarcasmos insolentes e sua clarivid√™ncia lucrativa fazem dele um moralista demon√≠aco, um rufi√£o do esp√≠rito e um parasita de sua √©poca, cujos v√≠cios encarnava. O verdadeiro moralista, ao contr√°rio, √© sempre desinteressado e, como denuncia males imanentes a todo e qualquer tipo de sociedade, exprime e ataca seu tempo enquanto o ultrapassa; vale dizer que seu fel n√£o √© datado. Assume a tarefa do conhecer os outros e de se definira si mesmo, empresa ingrata como poucas, j√° que repugna √† nossa natureza tomar consci√™ncia de si mesma porque s√≥ chega a isso em detrimento dos atos e porque h√° incompatibilidade entre conhecer e agir. Obsedados pelo fazer, pela coincid√™ncia do eu e das coisas, somos compelidos a nos manifestarmos, a nos identificarmos com o que nos escapa e com o que nos oferece resist√™ncia; mas quando nos conhecemos, somos igualmente exteriores a n√≥s mesmos e ao mundo. Eis por que o moralista, entregue ao mesmo tempo √† introspec√ß√£o e √† observa√ß√£o, espectador de si mesmo e de outrem, vive sempre √† margem da exist√™ncia. Est√° apto a julgar os homens porque tem a rara infelicidade de se conhecer; a essa infelicidade acrescenta-se outra: a de aumentar desmesuradamente seus pr√≥prios defeitos e os de seus semelhantes, pelo efeito conjugado da min√ļcia e da imagina√ß√£o. Afeito a perceber o monstro que esconde em si mesmo, √© natural que veja tudo em grande escala e que construa a figura do homem cedendo √† tenta√ß√£o do monumental. Que ele refor√ßa os tra√ßos, todos concordam sem titubear. Mas cumpre n√£o esquecer que ele observa exemplares n√£o indiferentes mas apaixonados de humanidade nos quais o menor defeito assume relevo especial. La Rochefoucauld meteu-se na Fronda, Chamfort na Revolu√ß√£o. Os tempos conturbados, pondo a nu as paix√Ķes, facilitam o conhecimento deles; s√£o a provid√™ncia do observador, porque a medita√ß√£o sobre o homem exige, para nascer e se aprofundar, condi√ß√Ķes capazes de provocar o assombro ou o estupor. S√™neca foi o perfeito contempor√Ęneo de Nero; por sua vez, Marco Aur√©lio n√£o viveu precisamente em plena √©poca de ouro, e tampouco Montaigne. Para que o homem se ponha no centro de nossas interroga√ß√Ķes, n√£o basta s√≥ que nos irrite; √© preciso tamb√©m que se comprometa, que enfraque√ßa a imagem que fizemos dele nas √©pocas de paz. Reconhe√ßamos: ele se empenha nisso com todas as suas for√ßas. Que zelo n√£o p√Ķe ele em arruinar a id√©ia que os fil√≥sofos formaram a seu respeito. Ele lhes desafia os sistemas, para a amarga alegria dos moralistas que t√™m por oficio perscrut√°-lo e julg√°-lo a partir do momento em que a filosofia por ele se desinteressa e dele se esquiva por medo de enfrent√°-lo. Mais corajosos, eles o aceitam, eles mesmos, em desespero, √© verdade, porque o sabem imut√°vel, condenado √† sua perda, incuravelmente fiel ao que ele √©.

Como nunca eleva a voz nem for√ßa o tom, o moralista √© o tipo mesmo do homem bem-educado, e prova-o escrevendo pouco. Haver√° melhor sinal de respeito pelo leitor que o laconismo? Assumir um ar grave, explicar-se, demonstrar ‚ÄĒ tantas marcas de vulgaridade. Quem aspira √† eleg√Ęncia n√£o deve temer a esterilidade; deve antes empenhar-se nesse sentido, sabotar as palavras em nome da Palavra, causar o m√≠nimo de preju√≠zo ao sil√™ncio, n√£o se afastar dele sen√£o por instantes para melhor reimergir nele. A m√°xima, que pertence a um g√™nero discut√≠vel sem d√ļvida, nem por isso deixa de constituir um exerc√≠cio de pudor, visto que permite subtrair-se √† pletora verbal e aperceber-se da inconveni√™ncia e da inanidade. Menos exigente porque menos condensado, o retrato √© quase sempre uma m√°xima, dilu√≠da em alguns autores, encorpada em outros; entretanto, pode, em casos excepcionais, tomar o aspecto de uma m√°xima explosiva, elevar-se √† altura da verve e da vertigem, evocar o infinito por meio da acumula√ß√£o dos tra√ßos e da vontade de ser exaustivo: assistimos ent√£o a um fen√īmeno que no interior de uma literatura s√≥ se produz uma vez, a um caso maravilhosamente aberrante, o de um escritor que, √† for√ßa de se sentir demasiadamente confinado numa l√≠ngua, a ultrapassa e dela se evade ‚ÄĒ com todas as palavras que ela cont√©m… Ele as violenta, as desenra√≠za, se apropria delas para com elas fazer o que bem lhe agrada, sem nenhuma considera√ß√£o por elas nem pelo leitor, ao qual inflige um inesquec√≠vel, um magn√≠fico mart√≠rio. Como Saint-Simon √© mal-educado!

… N√£o mais, por√©m, do que a vida, da qual ele √©, se se ousa dizer, a r√©plica liter√°ria. Nele n√£o h√° nenhuma abstra√ß√£o, nenhum estigma cl√°ssico; em p√© de igualdade com o imediato, diverte-se com suas opini√Ķes e, se √†s vezes √© injusto, nunca √© falso. Todos os outros retratos, ao lado dos seus, parecem esquemas, composi√ß√Ķes estilizadas que carecem de energia e veracidade. Seu grande trunfo: ignorava que tinha g√™nio, n√£o se linha na conta de escritor. Nada o embara√ßa, nada o intimida; atira-se, deixa-se arrebatar por seu frenesi, sem inventar para si escr√ļpulos e constrangimentos. Uma alma equatorial, dilatada em sua exuber√Ęncia, devastada em seus transbordamentos, incapaz de se impor esses entraves resultantes da delibera√ß√£o ou do ensimesmamento. O retrato √† maneira de La Bruy√®re √© o homem que encarna um v√≠cio ou uma virtude, um ou a outra de contorno bom definido, √© o retrato congelado, de uma exatid√£o ideal, complemento liter√°rio da pintura italiana; em Saint-Simon nenhum desenho rigoroso, nenhum acabamento. Quando cremos ler um elogio logo nos desiludimos; de repente surge um tra√ßo imprevisto, um adjetivo fulgurante que √© pr√≥prio do panfleto; na verdade n√£o √© nem uma apologia nem uma execu√ß√£o; √© o indiv√≠duo tal qual, complexo, contradit√≥rio e desconcertante, irredut√≠vel a uma f√≥rmula. Pensa-se num Rembrandt furioso.

Mme du Deffand, que leu as Mem√≥rias em manuscrito, achava-lhes o estilo ‚Äúabomin√°vel‚ÄĚ. Tal devia ser tamb√©m a opini√£o de Duclos que por sua vez as havia compulsado em busca de detalhes sobre a Reg√™ncia, cuja hist√≥ria escreveu numa linguagem de insipidez exemplar: √© Saint-Simon edulcorado, √© a gra√ßa que esmaga o vigor! Por sua clareza dessecante, por sua recusa do ins√≥lito e da incorre√ß√£o, do prolixo e do arbitr√°rio, o estilo do s√©culo 18 faz pensar numa queda na perfei√ß√£o, na n√£o-vida. Um produto de estufa, artificial, exangue, que, repelindo todo desenfreamento, n√£o podia de maneira alguma produzir uma obra de originalidade total, com tudo que isso implica de impuro, de perturbador e de irresist√≠vel. Em vez disso, uma grande quantidade de obras em que se exibe um verbo transparente, sem prolongamentos nem mist√©rio, um verbo controlado e censurado por n√£o se sabe que Inquisi√ß√£o da limpidez.

A tirania do gosto

‚ÄúN√£o tenho √≥cio suficiente para ter gosto.‚ÄĚ Esta frase de autor desconhecido ultrapassa o alcance de um chiste. O gosto √© de fato o apan√°gio dos ociosos e dos diletantes, daqueles que disp√Ķem de tempo: a sociedade setecentista, que tinha tempo de sobra, empregava-o em ninharias sutis e futilidades delicadas; empregava-o sobretudo contra si mesma.

‚ÄúCerta manh√£ (era um domingo) esper√°vamos para a missa o Sr Pr√≠ncipe de Conti; est√°vamos no sal√£o, sentadas em torno de uma mesa sobre a qual hav√≠amos depositado nossos livros de horas, que a marechala [a Marechala de Luxemburgo] se divertia a folhear. De s√ļbito ela se deteve sobre duas ou tr√™s preces determinadas que lhe pareceram do maior mau gosto e cujas express√Ķes eram de fato bizarras‚ÄĚ (Mme de Genlis, M√©moires, t. I, p. 95).

Nada mais insensato que exigir que uma prece esteja redigida na linguagem dos bem-nascidos, que tenha eleg√Ęncia e gra√ßa. O que importa √© que seja verdadeira; isso basta. Mas esta qualidade n√£o era especialmente estimada por esp√≠ritos afeitos √†s piruetas e que iam √† missa nas mesmas disposi√ß√Ķes com que iam √†s ceias ou √† ca√ßa. A gravidade indispens√°vel √† piedade, o s√©culo n√£o a possu√≠a; ele amava e cultivava apenas o requintado. O coment√°rio da marechala nos faz lembrar aquele cardeal da Renascen√ßa que se dizia enamorado demais do latim da √©poca cl√°ssica para suportar o latim grosseiro dos Evangelhos. Certas delicadezas s√£o incompat√≠veis com a f√©; o gosto e o absoluto se excluem… Nenhum deus sobrevive ao sorriso do esp√≠rito, √† d√ļvida fr√≠vola; em compensa√ß√£o, a d√ļvida vertiginosa s√≥ espera negar a si mesma para dar o salto no fervor. Em v√£o procurar√≠amos este g√™nero de vertigem no ambiente de uma sociedade onde o refinamento participava da frivolidade e da acrobacia. √Č curioso observar que um mesmo pa√≠s tenha podido produzir um Pascal e um Voltaire, que tenha esbanjado seu g√™nio de maneira tio desconcertante, em caminhos irreconcili√°veis, sem nenhuma preocupa√ß√£o de converg√™ncia nem de unidade. Que utilidade t√™m os Pensamentos para se chegar ao Dicion√°rio filos√≥fico?

Por sua pr√≥pria estrutura, cada l√≠ngua cont√©m virtualidades metaf√≠sicas; o franc√™s, o do s√©culo 18 sobretudo, comporta pouqu√≠ssimas: sua clareza inumana, sua aus√™ncia de prolongamentos, sua recusa do indeterminado fazem dele um idioma Iminentemente gram√°tico (isto √©, a-metaf√≠sico), que pode com esfor√ßo atingir o mist√©rio, mas que n√£o chega a ele naturalmente. √Č caracter√≠stico que um Mallarm√© postulasse o obscuro, que n√£o fosse levado a isso pela simples espontaneidade do verbo. O inintelig√≠vel, em franc√™s, se n√£o √© intencional, resulta de um v√≠cio do esp√≠rito ou de algum lapso gramatical.

Uma l√≠ngua morta, observa um ling√ľista, √© reconhecida pelo fato de que nela n√£o se temo direito de cometer erros. Vale dizer que n√£o se tem o direito de lhe embutir a menor inova√ß√£o. Na √©poca das Luzes o franc√™s havia chegado a esse limite extremo de rigidez e de acabamento. Depois da Revolu√ß√£o tomou-se menos rigoroso e menos puro; mas ganhou em naturalidade o que perdeu em perfei√ß√£o. Para sobreviver, para se perpetuar, tinha necessidade de se desenfrear e corromper, de se enriquecer de muita incorre√ß√£o e impropriedade nova, de passar enfim do sal√£o para a rua. De s√ļbito sua esfera de influ√™ncia e de irradia√ß√£o diminuiu; s√≥ p√īde ser a l√≠ngua da Europa culta numa √©poca em que, singularmente empobrecido, atingira seu mais alto ponto de transpar√™ncia e debilidade. Um idioma s√≥ se aproxima da universalidade quando se emancipa de suas origens, delas se afasta e as renega; chegado l√°, se quer se renovar, evitar a irrealidade ou a esclerose, tem de renunciar a suas exig√™ncias, quebrar suas molduras e seus modelos; tem que condescender com o mau gosto.

Autópsia de uma sociedade

Em todo o transcurso do s√©culo 18 se desdobra o espet√°culo de uma sociedade carcomida, que poderia servir de prot√≥tipo a quem estivesse tentado a tra√ßar o retrato de uma humanidade chegada ao termo de sua evolu√ß√£o. Pode-se de fato imaginar essa etapa em que o homem exaurido, sem recursos nem desejos, se voltasse para si mesmo e desabasse em seu pr√≥prio vazio. A aus√™ncia de futuro, deixando de ser a caracter√≠stica de uma classe, se estenderia a todas, numa soberba democratiza√ß√£o da vacuidade. Mas n√£o √© sequer necess√°rio fazer um esfor√ßo de imagina√ß√£o para conceber esse est√°dio √ļltimo: mais de um fato d√° a id√©ia dele. √Ä medida que o homem avan√ßa, se v√™ se alargarem suas possibilidades materiais, n√£o deixa de discernir que suas oportunidades espirituais se comprimem em igual propor√ß√£o. O desastre espreita-o, e ele manifestamente o corteja. No fim do s√©culo, erguia-se o cadafalso; no fim da hist√≥ria, o cadafalso que ser√° erigido ter√° uma outra amplitude, visto que nele subir√° o rei da cria√ß√£o.

Uma sociedade que goza sem medida nem vergonha do bem-estar sucumbe aos primeiros golpes que lhe s√£o desferidos: desprovida de todo princ√≠pio de vida, sem nada que lhe permita resistir √†s for√ßas que a assaltam, sofre o fasc√≠nio da morte. Se a Revolu√ß√£o triunfou foi porque o poder era uma fic√ß√£o e o ‚Äútirano‚ÄĚ um fantasma. Ela se bateu literalmente contra espectros. De resto, uma revolu√ß√£o, seja ela qual for, s√≥ alcan√ßa √™xito quando est√° em luta com uma ordem irreal. Diga-se o mesmo de todo advento, de toda grande virada da hist√≥ria. Alarico n√£o conquista Roma, e sim um cad√°ver. O √ļnico m√©rito do B√°rbaro foi ter tido faro. Os jacobinos tamb√©m tiveram. Godos pelas origens, eles inauguraram um novo tipo de humanidade: o ret√≥rico sanguin√°rio, refinado e sutil, o b√°rbaro camuflado de ide√≥logo.

A alta corrup√ß√£o am√°vel no in√≠cio do s√©culo teve no Regente uni s√≠mbolo. O que nele impressiona antes de mais nada √© sua falta total de ‚Äúcar√°ter‚ÄĚ. Ele tratava os neg√≥cios de Estado com a mesma desenvoltura que usava nos neg√≥cios particulares; uns e outros s√≥ lhe interessavam em fun√ß√£o das frases de esp√≠rito a que davam motivo, porque tudo era para ele pretexto para o chiste ou n f√≥rmula. T√£o inconstante em suas paix√Ķes como em seus v√≠cios, entregava-se a eles por indol√™ncia e como que por incuriosidade. Amantes em grande n√ļmero, mas nenhuma que lenha marcado sua vida. Incapaz de amar e odiar, viveu aqu√©m de seus dons que eram m√ļltiplos, mas que ele desdenhava cultivar; a pintura, em que poderia ter se distinguido, abandonou-a como abandonava tudo. ‚ÄúUma das infelicidades deste pr√≠ncipe‚ÄĚ, diz Saint-Simon, ‚Äúera ser incapaz de perceber o desdobramento do que quer que fosse, incapaz at√© de compreender que se pudesse ficar zangado. Uma outra, de que j√° falei, era uma esp√©cie de insensibilidade que o lan√ßava sem rancor nas ofensas mais mortais e mais perigosas; e como o nervo e o princ√≠pio do √≥dio e da amizade, do reconhecimento e da vingan√ßa √© o mesmo, e como lhe faltasse essa mola, as conseq√ľ√™ncias eram infinitas e perniciosas.‚ÄĚ Ao ler esses tra√ßos pensa-se no que diz Retz de Mazarino: ‚ÄúEle n√£o foi nem bondoso nem cruel, porque n√£o se lembrava nem dos favores nem das inj√ļrias.‚ÄĚ

Modelo de inefic√°cia, o Regente levou √† genialidade a arte de malbaratar seus talentos. Pode-se mesmo a seu respeito falar de um paroxismo da frivolidade. Disso iria resultar uma grande desordem nos neg√≥cios. Seus contempor√Ęneos n√£o se contentaram em responsabiliz√°-lo por isso e ousaram ainda compar√°-lo a Nero; entretanto, deveriam ter-lhe testemunhado mais indulg√™ncia e considerar-se felizes por sofrerem um absolutismo atenuado pela anarquia e a farsa. Que ele foi dominado por escroque, √† frente o Abade Dubois, √© ineg√°vel; mas n√£o ser√° melhor viver sob um regime em que uma certa liberdade √© garantida por cr√°pulas do que sufocar sob a autoridade dos puros e fan√°ticos? Faltava-lhe “nervo”, sem d√ļvida; por outro lado, essa car√™ncia √© uma virtude, de vez que torna poss√≠vel o exerc√≠cio da toler√Ęncia.

O Abade Galiani √© um dos raros a ter percebido que numa √©poca em que se clamava contra a opress√£o, a leni√™ncia dos costumes era, ainda assim, uma realidade. O que escreveu sobre Lu√≠s XV poderia ter escrito, invocando outros elementos, sobre a pr√≥pria Reg√™ncia: ‚ÄúO reinado de Lu√≠s XV ser√° o mais memor√°vel para a posteridade, que n√£o mencionar√° o s√©culo de Lu√≠s XIV sen√£o para dizer que no reinado de Lu√≠s XV Voltaire falava dele. De resto foi este √ļltimo que produziu Montesquieu, Voltaire, Diderot, d’ Alembert, Boulanger, Rouelle, Le Chalotais e a expuls√£o dos jesu√≠tas. Quando se compara a crueza da persegui√ß√£o dos jesu√≠tas contra Port-Royal √† brandura da persegui√ß√£o dos enciclopedistas v√™-se a diferen√ßa dos reinados, dos costumes e do cora√ß√£o dos dois reis. Aquele era um ca√ßador de notoriedade e tomava o ru√≠do pela gl√≥ria; este era um homem de bem que exercia o mais perverso dos of√≠cios (o de rei) o mais a contragosto que podia. N√£o se encontrar√° durante muito tempo um reinado igual em parte alguma.‚ÄĚ

Mas o que o abade parece n√£o ter percebido √© que, se a toler√Ęncia √© desej√°vel e se justifica por si s√≥ o trabalho que d√° viver, ela se revela, em compensa√ß√£o, como um sistema de fraqueza e dissolu√ß√£o. Esta evid√™ncia tr√°gica n√£o podia se impor a um esp√≠rito que convivia com esses amadores de ilus√Ķes que foram os enciclopedistas; iria tornar-se v√≠vida em √©pocas mais desiludidas, notadamente na nossa. A sociedade do s√©culo 18, sabemos agora, era tolerante porque lhe faltavam o vigor e o entusiasmo necess√°rios para perseguir, e portanto para se conservar. De Lu√≠s XV Michelet dizia que ‚Äúem sua alma havia o nada‚ÄĚ. Com mais raz√£o ainda poderia ter dito o mesmo de Lu√≠s XVI. Eis a explica√ß√£o de uma √©poca maravilhosa, e condenada. O segredo da do√ßura dos costumes √© um segredo funesto e mortal.

A Revolu√ß√£o foi provocada pelos abusos de um reinado em que os privil√©gios pertenciam a uma classe que n√£o acreditava mais em nada, nem mesmo em seus privil√©gios, ou melhor, que a eles se aferrava por automatismo, sem paix√£o nem afinco, porque tinha um fraco ostensivo pelas id√©ias daqueles que iam destru√≠-la. A complac√™ncia com o advers√°rio √© o sinal distintivo da debilidade, isto √©, da toler√Ęncia, que n√£o √©, em √ļltima an√°lise, sen√£o um coquetismo de agonizantes.

Madame du Deffand ou o drama da lucidez

“Tendes muita experi√™ncia”, escreveu a Marquesa du Deffand √† Duquesa de Choiseul, “mas falta-vos uma que espero n√£o a tenhais nunca: √© a priva√ß√£o do sentimento, com a dor de n√£o se poder pastar sem isso.” O s√©culo tinha a nostalgia da candura, do estado que mais falta lhe fazia. Das Cartas galantes de Fontenelle √†s Liga√ß√Ķes perigosas de Lados se desenrola a com√©dia de uma sensibilidade que se esgota no artif√≠cio e no falso. A intelig√™ncia outrora soberana, a ingenuidade 1- isto √©, os sentimentos verdadeiros ‚ÄĒ, parecia reservada ao selvagem ou ao tolo. Ora, todos esses belos esp√≠ritos tinham um medo doentio da tolice; quanto ao estado selvagem, idealizavam-no sem am√°-lo de verdade, a “natureza” n√£o sendo acess√≠vel sen√£o √†queles que de tempos em tempos condescendem com a “besteira”: eles a repeliam do fundo da alma. A intelig√™ncia, convertida em supersti√ß√£o, se levanta contra todos os valores exteriores a seu exerc√≠cio e n√£o oferece nenhuma apar√™ncia de realidade a que nos possamos agarrar: ela √© vazia. Quem se apega a ela por culto ou mania chega for√ßosamente √† “priva√ß√£o do sentimento” e ao remorso de ter sacrificado a um √≠dolo que s√≥ distribui t√©dio e desola√ß√£o, como o atesta, documento capital, a carta que Mme du Deffand escreveu a Walpole a 12 de abril de 1769:

‚ÄúDizei-me por que, detestando a vida, eu receio a morte? Nada me indica que tudo n√£o se acabar√° comigo; ao contr√°rio, me dou conta do desmoronamento de meu esp√≠rito, bem como do de meu corpo. Tudo o que se diz pr√≥ ou contra n√£o me causa impress√£o alguma. S√≥ escuto a mim mesma, e s√≥ encontro d√ļvida e escurid√£o. Crer, dizem, √© ‘o mais seguro; mas como crer no que n√£o se compreende? O que n√£o se compreende pode existir, sem d√ļvida; tamb√©m n√£o o nego; sou como um surdo e cego de nascen√ßa; h√° sons, cores, isso ele admite, mas sabe ele o que √© que est√° admitindo? Se basta n√£o negar, ainda bem; mas isso n√£o basta. Como se pode decidir entre um come√ßo e uma eternidade, entre o cheio e o vazio? Nenhum dos meus sentidos me pode ensin√°-lo; que se pode aprender sem eles? Entretanto, se n√£o creio no que √© preciso crer, sou amea√ßada de ser mil vezes mais infeliz depois de minha morte do que o sou durante a minha vida. A que se determinar, se √© poss√≠vel se determinar? Pe√ßo-vos, a v√≥s que tendes um car√°ter t√£o verdadeiro, assumir o compromisso de, por simpatia, encontrar a verdade, se ela √© encontr√°vel. √Č das coisas do outro mundo que √© preciso me informar, e me dizer se estamos destinados a desempenhar nele um papel. A mim me cabe falar-vos deste mundo de c√°. Em primeiro lugar digo-vos que ele √© detest√°vel, abomin√°vel etc. H√° pessoas virtuosas, ao menos que podem parec√™-lo, enquanto n√£o atacamos sua paix√£o dominante, que √© de ordin√°rio, naquelas pessoas, o amor da gl√≥ria e da reputa√ß√£o. Embriagadas com elogios, muitas vezes parecem modestas; mas os cuidados que tomam para consegui-los denunciam o motivo e deixam entrever a vaidade e o orgulho. Eis o retrato da maioria das pessoas de bem. Nas outras s√£o o interesse, a inveja, o ci√ļme, a crueldade, a maldade, a perf√≠dia. N√£o h√° uma s√≥ pessoa a quem se possa confiar as afli√ß√Ķes sem lhe proporcionar uma alegria maligna e sem se aviltar a seus olhos. Falar de prazeres e √™xitos? Isso faz nascer o √≥dio. Praticais o bem? O reconhecimento pesa, e encontram-se raz√Ķes para se eximir dele. Cometeis algumas faltas? Elas jamais se apagam; nada pode repar√°-las. Vedes pessoas inteligentes? S√≥ est√£o ocupadas com elas mesmas; desejam ofuscar-vos e n√£o se dar√£o ao trabalho de vos instruir. Tendes neg√≥cio com esp√≠ritos mesquinhos? Eles est√£o atrapalhados com o pr√≥prio papel, manifestar√£o descontentamento com sua esterilidade e sua pouca intelig√™ncia. Na falta de esp√≠rito encontram-se sentimentos? Alguns, nem sinceros, nem constantes. A amizade √© uma quimera; s√≥ reconhecem o amor; e que amor! Mas basta, n√£o quero levar mais longe minhas reflex√Ķes: elas s√£o o produto da ins√īnia; reconhe√ßo que um sonho seria prefer√≠vel.‚ÄĚ

Dificilmente se encontraria um texto em que se exprime com mais energia o drama da lucidez, desse estado extremo a que chega a intemperan√ßa da intelig√™ncia, e em que se √© cortado de tudo, em que se deixa de ser natureza. A infelicidade quer que, uma vez l√ļcida, a pessoa fique assim cada vez mais; nenhum melo de trapacear ou recuar. E esse progresso se realiza em detrimento da vitalidade, do instinto. ‚ÄúNem romance, nem temperamento‚ÄĚ, dizia de si mesma a marquesa. Compreende-se por que sua liga√ß√£o com o Regente n√£o foi al√©m de duas semanas. Eles se pareciam perigosamente, tinham-se distanciado demais suas pr√≥prias sensa√ß√Ķes. O t√©dio, tormento comum a ambos, se regozija no intervalo que se abre entre o esp√≠rito e os lidos? Quanto mais movimento espont√Ęneo, mais sinal de consci√™ncia. O ‚Äúamor‚ÄĚ √© o primeiro a se ressentir. A defini√ß√£o que disso deu Chamfort convinha perfeitamente a uma √©poca de ‚Äúfantasia‚ÄĚ e de ‚Äúepiderme‚ÄĚ. Rivarol se gabava de poder, no auge de uma certa atividade, resolver um problema de geometria. Tudo era cerebral entre esses esp√≠ritos, at√© o espasmo. Fen√īmeno ainda mais grave, tal altera√ß√£o dos sentidos, em lugar de abalar somente alguns isolados, torna-se a defici√™ncia, a maldi√ß√£o de uma classe, extenuada e esvaziada pela pr√°tica constante da ironia.

Quem quer se instalar numa realidade ou optar por um credo, mas n√£o consegue, entrega-se por vingan√ßa a ridicularizar aqueles que conseguem isso naturalmente. A ironia deriva de um apetite de ingenuidade, decepcionado; insatisfeito, e que, √† for√ßa de malogros, se exaspera e se envenena. Adquire inevitavelmente uma extens√£o universal; e se ataca de prefer√™ncia a religi√£o e procura min√°-la com f√ļria, √© porque sente em segredo a amargura de n√£o poder crer. Ainda mais perniciosa √© a zombaria acerba, raivosa., degenerada em sistema e confinando com a autodestrui√ß√£o. Em 1726, estando a Marquesa de Prie exilada na Normandia, para l√° seguiu Mme du Deffand para lhe fazer companhia. Em sua Histoire dela R√©gence, Lemontey conta que ‚Äúestas duas amigas se enviavam mutuamente cada manh√£ as copias sat√≠ricas que compunham uma contra a outra‚ÄĚ.

Numa sociedade em que a maledic√™ncia era obrigat√≥ria e em que se ficava acordado por medo da solid√£o (“N√£o havia nada que ela n√£o preferisse ao desgosto de se deitar”, dizia Duelos de uma das elegantes da √©poca), s√≥ podia haver de sagrado a conversa√ß√£o, os coment√°rios corrosivos, as frases de constru√ß√£o brilhante e de inten√ß√£o mort√≠fera. Ningu√©m sendo poupado, Montesquieu tinha raz√£o de assinalar, como um aspecto caracter√≠stico da √©poca, a “decad√™ncia da admira√ß√£o”. Tudo se liga: sem candura, sem piedade, nenhuma capacidade de admirar, de considerar os seres neles mesmos, em sua realidade original e √ļnica, fora de seus acidentes temporais; euf√≥rica, estimulante, a admira√ß√£o, genuflex√£o intelectual que n√£o implica nem humilha√ß√£o nem sentimento de impot√™ncia, √© a prerrogativa, a convic√ß√£o e a seguran√ßa das almas puras, precisamente daquelas almas que n√£o freq√ľentam os sal√Ķes.

Despotismo da literatura

S√≥ os povos brig√Ķes, indiscretos, ciumentos, renitentes t√™m uma hist√≥ria interessante; a da Fran√ßa √© assim no mais alto grau. F√©rtil em acontecimentos e, mais ainda, em escritores para coment√°-los, √© ela a provid√™ncia do memorialista. Nenhum outro pa√≠s produziu tantos Souvenirs.

Em pol√≠tica o franc√™s √© caprichoso ou fan√°tico, julga por mania ou por sistema; no entanto o pr√≥prio sistema assume nele as apar√™ncias de mania. A caracter√≠stica que o singulariza √© a versatilidade, causa dessa instabilidade, desse desfile desconcertante de regimes a que ele assiste como espectador divertido ou fren√©tico, cuidadoso sobretudo de mostrar que, mesmo em seus furores, nunca √© ot√°rio. Sempre contra, deleitando-se na oposi√ß√£o, menos para defender a coisa p√ļblica do que para se valorizar, √© v√≠tima desse ‚Äúesp√≠rito liter√°rio‚ÄĚ admiravelmente de tinido por Tocqueville: ‚ÄúO que eu chamo esp√≠rito liter√°rio em pol√≠tica consiste em procurar mais o que √© engenhoso e novo do que o que √© verdadeiro, em gostar mais do que causa admira√ß√£o do que daquilo que tem serventia, em se mostrar muito sens√≠vel A boa representa√ß√£o e √† boa elocu√ß√£o dos atores, independentemente das conseq√ľ√™ncias da pe√ßa, e em se decidir enfim com base mais em impress√Ķes do que em raz√Ķes‚ÄĚ (Souvenirs, Paris, Calmann-L√©vy, 1893, p. 97). E Tocqueville acrescenta: ‚Äú… o povo franc√™s, considerado em massa, julga quase sempre em pol√≠tica como um homem de letras.‚ÄĚ

O literato est√° menos apto que qualquer outra pessoa a compreender o funcionamento do Estado; nisso ele s√≥ mostra leg√≠tima compet√™ncia durante as revolu√ß√Ķes, porque √© justamente ent√£o que a autoridade √© abolida e porque, na vac√Ęncia do poder, tem ele a faculdade de imaginar que √© poss√≠vel resolver os problemas pela atitude ou pela fraseologia. N√£o √© revelador que os homens de 89 se tenham inspirado em Rousseau, literato orno quem mais o foi, e n√£o em Montesquieu, esp√≠rito s√≥lido e profundo que jamais sucumbe √†s facilidades do talento? Em seus Cahiers lemos sobre seu s√©culo e sobre a influ√™ncia que nele exerceram as mulheres uma observa√ß√£o que teria sido mais exata se tivesse sido feita a prop√≥sito de letrados: ‚ÄúN√£o se pode mais suportar nenhuma das coisas que t√™m um objeto determinado: os militares n√£o podem suportara guerra; os membros do gabinete, o gabinete; e assim por diante. As pessoas s√≥ conhecem os objetos gerais, e, na pr√°tica, isso se reduz a nada. O trato com as mulheres √© que nos levou a isso; porque √© do car√°ter delas n√£o se ligarem a nada de fixo.‚ÄĚ

A refletir bem isso, a instabilidade pol√≠tica da Europa √© devida, em parte ao menos, ao fato de que foram tomados como modelo os costumes pol√≠ticos franceses, tais como os conhecemos desde a Revolu√ß√£o. Se o exemplo da Inglaterra foi praticamente nulo, √© porque em geral n√£o s√£o imitadas as institui√ß√Ķes livres, e sim as contrafa√ß√Ķes e a simula√ß√£o da liberdade. Aqui um paralelo acode naturalmente ao esp√≠rito. Nos pa√≠ses anglo-sax√Ķes as seitas protestantes permitem ao cidad√£o dar livre curso √† sua loucura, √† sua necessidade de controv√©rsia e de esc√Ęndalo; da√≠ a diversidade religiosa e a uniformidade pol√≠tica. Ao contr√°rio, nos pa√≠ses cat√≥licos, em particular na Fran√ßa, os recursos em del√≠rio do indiv√≠duo s√≥ podem se fazer valer na anarquia dos partidos e das fac√ß√Ķes; √© a√≠ que ele satisfaz seu apetite de heresia, √© a√≠ que ele tira sua desforrada Igreja. Nenhuma na√ß√£o encontrou at√© agora o segredo de ser s√°bia ao mesmo tempo em pol√≠tica e em religi√£o. Se esse segredo fosse afinal encontrado, a Fran√ßa seria o √ļltimo pa√≠s a querer aproveit√°-lo, ela que carreia para os conflitos ideol√≥gicos todos os v√≠cios dos meios liter√°rios. O prest√≠gio da literatura nunca foi t√£o consider√°vel como no s√©culo 18. As convuls√Ķes da Revolu√ß√£o e mesmo as do Imp√©rio n√£o decorrem disso de algum modo? A supremacia do homem de letras √© sempre abusiva, usurpada, provocante. No dizer do Abade Maury, eram considerados, no c√≠rculo da verdadeira Academia, como criados os membros da das Ci√™ncias, a qual contava, por√©m, com um Lagrange, um Lavoisier, um Laplace! Sempre o brilho posto acima da compet√™ncia…

Os franceses, a crer em Talleyrand, fizeram a Revolu√ß√£o por vaidade. Outro tanto se poderia dizer dos outros acontecimentos da hist√≥ria da Fran√ßa. Que todos os povos sejam vaidosos, ningu√©m discordar√°; os franceses o s√£o entretanto mais que o resto; e esse defeito est√° t√£o arraigado neles que se torna, se n√£o uma qualidade, em todo o caso um recurso que os incita a produzir e agir, a brilhar sobretudo; da√≠ o esp√≠rito, exibi√ß√£o da intelig√™ncia, ansioso por prevalecer sobre outrem custe o que custar, em ter infalivelmente a √ļltima palavra. Mas se a vaidade agu√ßa as faculdades, se desvia do lugar-comum e combate a Indol√™ncia, em compensa√ß√£o faz de qualquer indiv√≠duo um ferido, um ofendido; tamb√©m pelos sofrimentos que ela lhes inflige, os franceses pagaram por todas as oportunidades de que gozaram abundantemente. Durante mil anos a hist√≥ria girou em torno deles; tamanha sorte pede expia√ß√£o; seu castigo foi e ainda a irrita√ß√£o de um amor-pr√≥prio sempre descontente, sempre inapaziguado. Quando eram poderosos queixavam-se de n√£o o ser bastante; queixam-se agora de n√£o mais o ser. Tal √© o drama do uma na√ß√£o mimada, ulcerada na prosperidade n√£o menos do que no infort√ļnio, √°vida e mut√°vel, favorecida demais pela sorte poro conhecer a mod√©stia ou a resigna√ß√£o, inapta a manter o comedimento diante n√£o s√≥ do inevit√°vel como do inesperado.

Precisamente do amor-pr√≥prio os autores de retratos, e mais linda os moralistas, descrever√£o os refolhos e os tormentos. E ser√£o amargos como o sentimento sobre o qual se debru√ßar√£o, sentimento impuro que denunciar√£o at√© em nossos pavores mais abstratos e mais desinteressados porque, segundo eles, sofremos para revelar nossos sofrimentos da mesma forma que nos rejubilamos unicamente para humilhar os outros com o espet√°culo da nossa alegria; at√© nosso ‚Äúforo √≠ntimo‚ÄĚ n√£o seria, sempre segundo eles, sen√£o uma cena invis√≠vel onde representamos a com√©dia diante de n√≥s mesmos. A maldi√ß√£o do moralista √© n√£o poder crer em nenhuma esp√©cie de ‚Äúnobreza d’alma‚ÄĚ, porque crer nisso e admiti-lo equivaleria para ele a um renegamento, a uma distor√ß√£o imposta a seu ‚Äúsistema‚ÄĚ e tamb√©m √† sua amargura. Um sentimento isento de falsidade, uma generosidade a toda prova, ele n√£o est√° disposto a conceb√™-los; respeita demais a evid√™ncia, uma evid√™ncia s√≥ sua, para subscrever o inverific√°vel, esse fundamento da pureza. Que haja um lugar onde o horr√≠vel n√£o reina soberano ‚ÄĒ tal id√©ia n√£o lhe ocorre de forma alguma, pela simples raz√£o de que meditou demais sobre o homem. Que √© ele em suma sen√£o o ant√≠poda do libertado?

Para escapar ao an√°tema que pronunciou contra seus semelhantes, contra n√≥s todos, n√£o h√° outro recurso sen√£o o distanciar-se das realidades humanas, a recusa a encar√°-las e insistir nelas. A medita√ß√£o sobre o ser torna menos amargo. Desde que examinamos os atos, perscrutando-os sem piedade, pomo-nos fora do absoluto e da salva√ß√£o; nenhuma sa√≠da, nenhuma esperan√ßa nem equil√≠brio. Os moralistas (√† exce√ß√£o de Vauvenargues, o mais doce e o mais ins√≠pido de todos) s√£o quase sempre virulentos, se bem que de uma virul√™ncia contida; tal √© o caso tamb√©m dos memorialistas: dir-se-ia que nos retratos que eles tra√ßam de seus contempor√Ęneos dedicam-se a nos mostrar a maneira como se encarna, se prolonga e se individualiza o pecado original. E se recorreram √† id√©ia de nossa queda, o mais das vezes inconscientemente, √© verdade, √© porque percebiam sem d√ļvida que ela lhes oferecia como que a chave dos seres, da qual n√£o poderiam ter-se privado sem cair no vago ou no incompreens√≠vel.

CIORAN, E.M. (ed.), “Pref√°cio”, in Antologia do retrato. Trad. de Jos√© Laurenio de Melo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.