Folha de S. Paulo, Caderno Mais!, 3 de abril de 1994

O escritor, morto no dia 28, lega absurdo ao cotidiano

NELSON ASCHER
ESPECIAL PARA A FOLHA

Uma aluna chega à casa do professor para sua primeira aula e é recebida pela criada. Ela se comporta como uma jovem normal e o professor, como um velho tímido e excessivamente obsequioso. Fala-se do doutoramento que ela está prestes a fazer e ele começa a instruí-la em aritmética. Durante as somas –1+1, 1+2 etc.– tudo vai bem. A aluna revela-se logo incapaz de realizar a mais simples subtração.
O professor tenta –com palitos de fósforo, um quadro negro e giz (todos imaginários)– mostrar-lhe como se faz, mas sem sucesso. Diz-lhe que se nem isso ela consegue, como fará a astronômica multiplicação que lhe apresenta. Ela responde com o resultado correto desta e observa que, incapaz de multiplicar, decorara os resultados de todas as possíveis (e infinitas) multiplicações.
Passa-se em seguida à filologia, onde se comprova que todas as palavras em todas as línguas –existentes ou não– são idênticas, apesar de diferentes, ou vice-versa. Para exemplificar, o professor recorre a uma faca (também imaginária) e a chama várias vezes de “faca” nas distintas línguas idênticas, existentes ou não, terminando por matar com ela sua aluna.
A criada, que já tentara antes interromper a aula, volta para recriminar o professor, lembra-lhe que “aritmética leva à filologia e esta ao crime”, dispõe-se a enterrar mais esta vítima (precedida, só no dia em questão, por outras 49), consola-o dando-lhe uma braçadeira (talvez com uma suástica) e abre a porta para a aluna seguinte.
Eis, em resumo, a ação de “A Lição”, encenada pela primeira vez em 1951, em Paris e escrita pelo dramaturgo francês Eugene Ionesco, nascido em 1912 na Romênia e morto esta semana. Evidencia-se aqui uma subcorrente de humor negro típica tanto de seu país –Tristan Tzara, o dadaísta, e Cioran, o mórbido, nasceram também romenos– quanto da Europa do Leste em geral.
Seria difícil, contudo, encontrar exemplo mais clássico do que já passou para a história com o nome de “teatro do absurdo”. Inúmeros livros e artigos foram dedicados a esta vertente, ou escola ou, melhor, a este estilo. Muitos chegaram a traçar paralelos entre esta aparente simplificação geométrica da ação dramática e o que os pintores, desde o fim do século passado, vinham fazendo com o aspecto figurativo das artes visuais. O “teatro do absurdo”, assim, passou a ser considerado habitualmente a contrapartida no palco da pintura abstrata.
Agrupar autores tão radicalmente distintos como o próprio Ionesco, Samuel Beckett, Jean Genet e Harold Pinter sob uma mesma rubrica era, sem dúvida, uma simplificação brutal, embora de início bem intencionada. Identificá-los com desenvolvimentos complexos em outros campos esclarecia menos ainda e, em pouco tempo, passou a ser feito apenas pelos adversários menos desses artistas do que de toda a modernidade. Ou seja, tornou-se apanágio quase exclusivo dos marxistas falar disso tudo em conjunto para desqualificar seus resultados criativos como mais um capítulo da inevitávl degenerescência da arte burguesa, manifestação decadente dos últimos estertores do imperialismo e do capitalismo internacional.
O epílogo mais cômico dessa controvérsia antiga é que um dramaturgo arrolado no clássico “O Teatro do Absurdo” de Martin Esslin tenha se tornado o primeiro presidente da (ex) Tcheco-Eslováquia pós-comunista: Vaclav Havel.
Como no resto da arte moderna, Ionesco procede –em “A Lição”, “As Cadeiras” (1952), “A Cantora Careca” (1958), “O Rinoceronte” (1960) etc.– a uma estilização explícita do teatro, propondo convenções alternativas aos pressupostos implícitos, mas nem assim menos convencionais, do realismo, cujos defensores querem que seja reconhecido como a realidade pura e simples, sem aspas. Sua obra, naturalmente, presta-se a várias interpretações simbólicas, políticas…
“A Lição” pode ser uma peça sobre a alienação, a incomunicabilidade, a relatividade do conhecimento, o totalitarismo (veja-se a menção à suástica) a banalidade do mal e tantas outras coisas. Mas a variedade de suas possíveis interpretações não equivale à infinitude –e seu tom, entre cínico e pessimista, bem como seu caráter incisivo são inconfundíveis.
Se há elementos em comum entre suas peças e a dos outros mencionados, eles convergem numa oposição de fato aos auto denominados realismos, principalmente aqueles apoiados pelo oficialismo de algum partido ou estado. A bifurcação está talvez entre todo um leque de possibilidades dramáticas de um lado e o dogmatismo brechtiano do outro. De um ou de outro lado dessa bifurcação encontra-se quase todo o drama da segunda metade do século 20.
Apesar de sua embalagem modernosa e internacionalista, o teatro brechtiano só fez escola mesmo onde contasse com verbas públicas e ideologicamente direcionadas, em países que o apoiassem ou em determinadas universidades. As encenações de textos do próprio Brecht parecem ser cada vez mais raras.
O que se colocou, porém, sob o inconveniente rótulo do “absurdo” penetrou profundamente a consciência e a vida cotidiana do Ocidente, a ponto de se apresentar não só no cinema e na propaganda, nos filmes do grupo “Monthy Python” ou nos programas da “Casseta & Planelta”, mas também no humor das piadas corriqueiras, nas charges jornalísticas e nos comentários mais triviais.