“Cinismo vivido e cinismo abstrato” (E.M. Cioran)

Só nos suavizamos, só nos tornamos bons destruindo o melhor de nossa natureza, submetendo o corpo à disciplina da anemia, e o espírito à do esquecimento. Enquanto guardamos nem que seja uma sombra de memória, o perdão se reduz a uma luta com os instintos, a uma agressão contra o próprio eu. São nossas vilanias que nos põem de acordo com nós mesmos, asseguram nossa continuidade, nos ligam a nosso passado e excitam nossos poderes de evocação; da mesma maneira, só temos imaginação quando estamos à espera da desgraça dos outros, nos arrebatamentos do fastio, nessa disposição que nos impele se não a cometer infâmias ao menos a sonhá-las. Como poderia ser diferente em um planeta onde a carne se propaga com o despudor de uma calamidade? Para onde quer que olhemos, tropeçamos no humano, repulsiva ubiquidade ante a qual caímos no estupor e na revolta, em uma estupidez fogosa. Antigamente, quando o espaço se encontrava menos abarrotado, menos infestado de homens, umas seitas, indubitavelmente inspiradas por uma força benéfica, preconizavam e praticavam a castração; por um paradoxo infernal, elas desapareceram no momento preciso em que sua doutrina teria sido mais oportuna e mais salutar do que nunca. Maníacos da procriação, bípedes de rostos desvalorizados, perdemos todo atrativo uns para os outros, e somente sobre uma terra semi-deserta, povoada no máximo de alguns milhares de habitantes, nossas fisionomias poderiam reencontrar seu antigo prestígio. A multiplicação de nossos semelhantes beira a imundície; o dever de amá-los beira o absurdo. Isto não impede que todos os nossos pensamentos estejam contaminados pela presença do humano, que exalem o cheiro do humano e que não consigam desembaraçar-se dele. Que verdade podem atingir, a qual revelação podem elevar-se, se esta pestilência asfixia o espírito e o torna impróprio para pensar em outra coisa que não seja esse animal pernicioso e fétido de cujas emanações está contaminado? Aquele que é fraco demais para declarar guerra ao homem nunca deveria esquecer, em seus momentos de fervor, de rezar pela vinda de um segundo dilúvio, mais radical que o primeiro.

O conhecimento arruína o amor: à medida que desvendamos nossos próprios segredos, detestamos nossos semelhantes precisamente porque se assemelham a nós. Quando já não se tem ilusões sobre si mesmo, também não se tem sobre os outros; o inominável, que se descobre por introspecção, estende-se, por uma generalização legítima, ao resto dos mortais; depravados em sua essência, não nos equivocamos ao atribuir-lhes todos os vícios. Curiosamente, a maioria dos mortais se revelam inaptos ou renitentes a detectar os vícios, a constatá-los em si mesmos ou nos outros. É fácil fazer o mal: todo mundo o consegue; assumi-lo explicitamente, reconhecer sua inexorável realidade é, por outro lado, uma proeza insólita. Na prática, qualquer um pode rivalizar com o diabo; na teoria não ocorre o mesmo. Cometer horrores e conceber o horror são dois atos irredutíveis um ao outro: não há nada em comum entre o cinismo vivido e o cinismo abstrato. Desconfiemos dos que aderem a uma filosofia tranquilizadora, dos que creem no Bem e o erigem em ídolo; não teriam chegado a isso se, debruçados honestamente sobre si mesmos, tivessem sondado suas profundezas ou seus miasmas; mas aqueles poucos que tiveram a indiscrição ou a infelicidade de mergulhar até as profundidades de seu ser, conhecem bem o que é o homem: não poderão mais amá-lo, pois não amam mais a si próprios, embora continuem – e esse é seu castigo – mais apegados a seu eu do que antes…

CIORAN, E.M., “Odisseia do rancor”, História e Utopia. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.