“O traidor modelo” (E.M. Cioran)

Já que a vida só pode realizar-se na individuação – fundamento último da solidão –, cada ser está necessariamente só pelo fato de que é indivíduo. No entanto, todos os indivíduos não estão sós da mesma maneira nem com a mesma intensidade: cada um se coloca em um grau diferente na hierarquia da solidão; no extremo, situa-se o traidor: leva sua qualidade de indivíduo até a exasperação. Neste sentido, Judas é o ser mais solitário da história do cristianismo, mas não na da solidão. Só traiu um deus; soube quem traía; entregou alguém, como outros entregam algo: uma pátria ou outros pretextos mais ou menos coletivos. A traição que visa a um objetivo preciso, ainda que traga a desonra ou a morte, não é misteriosa: tem-se sempre a imagem do que se quis destruir; a culpabilidade está clara, seja admitida ou negada. Os outros te repudiam, e te resignas ao presídio ou à guilhotina…

Mas existe uma modalidade muito mais complexa de trair, sem referência imediata, sem relação a um objeto ou a uma pessoa. Assim: abandonar tudo sem saber o que representa esse tudo; isolar-se de seu meio; repelir – por um divórcio metafísico – a substância que te modelou, que te cerca e que te sustenta.

Quem, e por que desafio, poderia desafiar a existência impunemente? Quem, e com que esforços, poderia atingir uma liquidação do princípio mesmo de sua própria respiração? Entretanto, a vontade de minar o fundamento de tudo o que existe produz um desejo de eficácia negativa, poderoso e inapreensível como uma gota de remorso corrompendo a jovem vitalidade de uma esperança…

Quando se traiu o ser, leva-se consigo apenas um mal-estar indefinido, nenhuma imagem vem apoiar com sua precisão o objeto que suscita a sensação de infâmia. Ninguém te atira a primeira pedra; és um cidadão respeitável como antes, gozas das honras da cidade, da consideração dos semelhantes; as leis te protegem; és tão estimável como qualquer outro – e entretanto ninguém vê que vives antecipadamente teus funerais e que tua morte não saberia acrescentar nada à tua condição irremediavelmente estabelecida. É que o traidor da existência só tem que prestar contas a si mesmo. Que outro poderia exigi-las? Se não difamas nem um homem nem uma instituição, não corres nenhum risco; nenhuma lei defende o Real, mas todas castigam o menor prejuízo causado a suas aparências. Tens direito a minar o ser mesmo, mas nenhum ser concreto; podes licitamente demolir as bases de tudo o que é, mas a prisão ou a morte te esperam ao menor atentado às forças individuais. Nada garante a Existência: não há processo contra os traidores metafísicos, contra os Budas que recusam a salvação, pois estes só são considerados traidores de sua própria vida. No entanto, entre todos os malfeitores, estes são os mais nocivos: não atacam os frutos, mas a seiva, a própria seiva do universo. Seu castigo, só eles o conhecem…

Pode ser que em todo traidor haja uma sede de opróbrio, e que a escolha que faz de um modo de traição dependa do grau de solidão ao qual aspira. Quem não sentiu o desejo de perpetrar um crime incomparável que o excluísse do número dos humanos? Quem não cobiçou a ignomínia, para cortar para sempre os laços que o atavam aos outros, para sofrer uma condenação inapelável e chegar assim à quietude do abismo? E quando se rompe com o universo não é para encontrar a paz de uma falta irremissível? Um Judas com a alma de Buda: que modelo para uma humanidade futura e agonizante!

CIORAN, E.M., “O traidor modelo”, Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.