“Platão era de esquerda ou de direita?” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Um dia, num café, estava eu lendo Schopenhauer (na verdade, o livro de Clément Rosset, Schopenhauer, philosophe de l’absurde), quando passa por mim uma moça, por volta dos seus vinte anos, fitando a capa do livro com ar de interesse, e mesmo de familiaridade. Na fila do caixa, na minha frente, ela comenta que viu o nome de Schopenhauer no título, que cursou uma disciplina sobre ele no curso de Filosofia recém-iniciado, e que gostou dele. E acrescenta que o seu interesse é Michel Foucault (que também me interessa), e que pretende desenvolver alguma pesquisa sobre o filósofo francês. Pergunto a ela sobre o recorte, o tema, a ideia que pretende desenvolver. A resposta não deixou de me causar espécie: era algo do tipo “a morte como instrumento de controle e opressão”, etc. Pensei eu: mas a que ponto chegou a negação da morte por conta da politização total da vida, a ponto de ter se tornado um “instrumento” com fins políticos, ou biopolíticos? Ela não quis dizer o discurso sobre a morte, ou a sua representação no imaginário coletivo, ou sua instrumentalização simbólica como meio de controle dos comportamentos e dos afetos: referia-se ao fato da morte, à morte mesma. Na mesma idade, mais ou menos, Cioran escreveria: “Escrito hoje, 8 de abril de 1933, dia em que completo 22 anos. Sou invadido por uma estranha sensação ao imaginar que me tornei, nessa idade, especialista na questão da morte.” (Nos cumes do desespero) É como se a morte só existisse porque existe desigualdade social, opressores e oprimidos. E nos vitimizamos, indignados, diante do Inelutável. Se pelo menos Deus contasse como “ator social”…

Não que Foucault deva ser culpabilizado. A raiz da questão é histórica e cultural, coincidindo com a aurora da nossa modernidade. Tem a ver com o fenômeno que Ortega y Gasset denomina “politicismo integral, a absorção de todas as coisas e de todo o homem pela política”, inseparável de um outro, o fenômeno igualmente moderno das massas e da massificação. O politicismo integral da vida é inseparável da massificação de todas as coisas, a começar pela pessoa individual:

Porque é pura inércia mental do “progressismo” supor que, conforme avança a história, cresce a margem que se concede ao homem para poder ser um indivíduo pessoal, como acreditava o honrado engenheiro, mas nulo historiador, Herbert Spencer. Não; a história está cheias de retrocesso nessa ordem, e a estrutura da vida em nossa época impede ao máximo que o homem possa viver como pessoa. (A rebelião das massas)

A nossa é uma época em que não tem lugar, em que permanecerá sempre deslocado, à margem, todo traço de singularidade, idiossincrasia, a mínima diferença autêntica e irredutível inerente ao indivíduo; época que glorifica o trabalho e o sucesso, mas engendra a preguiça mental, comodismo, depressão e fracasso; que exalta a originalidade e a diferença, mas não institui senão a repetição (mais do mesmo) e a uniformidade (sejamos diferentes, mas todos iguais); que advoga em nome da liberdade e dos direitos humanos, mas não deixa de esvaziar o homem e a mulher de tudo o que os torna homem e mulher: sua interioridade, sua intimidade, sua solidão, numa palavra: sua humanidade. Compreende-se a melancolia vinculada à experiência da modernidade de um Baudelaire, o seu spleen de Paris… Tristes animais políticos somos nós, celebrando o nosso hedonismo libertário, a nossa resistência festiva, o nosso carnaval militante. A propósito, Roland Jaccard (que era amigo de Cioran e também apreciava Foucault) cita o psiquiatra  “anti-psiquiátrico” Thomas Szasz:

Se, na Idade Teológica, ser humano significava adorar a Deus (Jesus), se ser virtuoso significava ser um cristão de fidelidade a toda prova (um santo) e ser mau significa ser herege (uma feiticeira), na Idade da Razão ser verdadeiramente humano significa adorar a Ciência (a Tecnologia, o Progresso), ser virtuoso significa gozar boa saúde (ser feliz), e ser mau significa estar mentalmente doente (ser infeliz).

Atualizada para os nossos dias, a observação de Szasz poderia incluir: ser mau significa ser de esquerda, se você é de direita, ou de direita, se você é de esquerda. E se calhar de ser infeliz, o primeiro passo para solucionar isto é renegar a sua ideologia e abandoná-la, seja ela à direita ou à esquerda. Você está doente porque crê em tais ideias e defende tais princípios. O grau de nossa humanidade (e de nossa saúde) é proporcional ao de nossa “politização”. A obsessão da autenticidade e da pureza, em si e outrem, é a regra numa cultura da impostura e da promiscuidade. O crítico literário Harold Bloom observa, nos Estados Unidos, um vício que envolve “a busca de um eu autêntico, em nós mesmos e em outra pessoa. Nossa obsessiva fome de ‘informação’ é o lado de sombra dessa busca. A pergunta reducionista: ‘Como é ele ou ela na verdade?’ move hoje o nosso jornalismo.”

Wittgenstein diria, hoje, que a pergunta “Como é ele ou ela de verdade?” no fundo significa: “É de esquerda ou de direita?” Só isto importa, ou importa mais do que todo o resto. A este respeito, nenhuma atitude mais socrática do que a de Ortega y Gasset (lembremos que Sócrates era mal visto e malquisto por muitos atenienses por importuná-los com questões filosóficas quando eles estavam mais preocupados com questões pragmáticas na ordem do dia):  “Quando alguém nos pergunta o que somos em política ou, antecipando-se com a insolência própria do nosso tempo, já nos classifica numa posição, em vez de responder, devemos perguntar ao impertinente o que pensa ele ser o homem e a natureza da história, o que é a sociedade e o indivíduo, a coletividade, o Estado, o uso, o direito. A política se apressa em apagar as luzes para que todos esses gatos fiquem pardos.” (A Rebelião das Massas)

Uma vez, conversava eu com um amigo, no caso de esquerda, e lhe perguntei se já havia lido John Gray, um filósofo contemporâneo que tenho na mais alta estima. Não me recordo exatamente se ele já tinha ouvido falar e formado um pré-conceito a respeito do autor (“de direita”), ou se ficou curioso. Em todo caso, a sua resposta (uma pergunta) foi: “Ouvi falar, é de direita, né?”, ou “Não conheço; é de direita ou de esquerda?” Para ser de direita (e portanto malvado, “opressor”, “fascista”, etc.), basta não ser de esquerda, e se for crítico das ideologias, à esquerda e à direita, crítico também das revoluções e das utopias, e para completar crítico do homem, da “natureza” humana, então não resta dúvidas de que só pode ser um reacionário. Gray é um intelectual conservador, e um liberal, tudo o que alguém de esquerda não espera que um intelectual seja; em todo caso, um cético e um ateu com faro aguçado para dogmatismos, fundamentalismos e superstições, sejam eles religiosos ou seculares. Se a dificuldade — resposta psicológica à complexidade constitutiva do real — já é considerável no caso de um autor como John Gray, o que dirá de um Cioran!

Ortega y Gasset, John Gray e E. M. Cioran têm muitas coisas em comum, e “ser de direita” não é, definitivamente, uma delas. Não apenas porque categorias políticas como “direita” e “esquerda” são irrisórias e inessenciais do ponto de vista deles, mas também porque, no caso de ao menos um (penso em Cioran), é praticamente impossível enquadrá-lo nesta ou naquela definição (Cioran não é mais conservador que niilista, mais anti-moderno, ou reacionário, que moderno, mais misantropo que humanista, ao modo de um Montaigne). Ao ser questionado se suas ideias “não conduzem diretamente a posições reacionárias”,  Cioran responde ao entrevistador, Fritz J. Raddatz: “Reacionário? Talvez. Mas seria mais justo, creio, se você encontrasse uma explicação filosófica e não política para a minha posição.” (Entretiens) É verdade que, em sua juventude, ele experimentaria com o fascismo e o ultranacionalismo da Guarda de Ferro; é verdade também que se desiludiu e renegou as antigas convicções, as esperanças de outrora — no caso, de uma “transfiguração” da Romênia e sua promoção ao estatuto de uma nação protagonista no processo histórico. Desilusão não apenas em relação ao destino do seu país e à ideologia específica que abraçou: desilusão em relação à res politica, à política enquanto instância privilegiada de solução dos grandes problemas essenciais da humanidade, individual e coletivamente; logo, insubordinação e revolta contra a politização total da vida (fenômeno que tende a abranger esquerdas e direitas indistintamente), contra a massificação, a uniformização e a homogeneização de todas as coisas e de os todos seres mediante o filtro político-ideológico. Outro ponto em comum entre os três autores é que todos eles concordam na seguinte declaração de Ortega y Gasset, tão atual:

Nem este livro nem eu somos políticos. O assunto tratado aqui é prévio à política e pertence ao seu subsolo. Meu trabalho é o obscuro labor subterrâneo do mineiro. A missão do chamado “intelectual” é, em certo sentido, oposta à do político. A obra intelectual visa, muitas vezes em vão, esclarecer um pouco as coisas, ao passo que a do político normalmente consiste, ao contrário, em confundi-las mais do que já estavam. Ser de esquerda, como ser de direita, é uma das infinitas maneiras que o homem pode eleger para ser um imbecil: ambas são, de fato, formas da hemiplegia moral. Ademais, a persistência desses qualificativos contribui muito par falsificar ainda mais a “realidade” do presente, que já é falsa por si, porque as experiências políticas correspondentes se complicaram ao extremo, como demonstra o fato de que hoje as direitas prometem revoluções e as esquerdas propõe tiranias. (A rebelião das massas)

O livro mais “orteguiano” de Cioran é História e utopia:

Não ter nunca a oportunidade de tomar partido, de decidir-me ou de definir-me: não há desejo que tenha com mais frequência. Mas nem sempre dominamos nossos humores, essas atitudes em germe, esses esboços de teoria. Visceralmente inclinados à estruturação de sistemas, nós os construímos sem descanso, sobretudo em política, domínio de pseudoproblemas, onde se dilata o mau filósofo que reside em cada um de nós, domínio do qual gostaria de afastar-me por uma razão banal, uma evidência que aparece a meus olhos como uma revelação: a política gira unicamente em torno do homem. […] O homem desocupado que ama a violência salvaguarda seu savoir-vivre confinando-se em um inferno abstrato. Deixando de lado o indivíduo, ele se liberta dos nomes e dos rostos, responsabiliza o impreciso, o geral, e, orientando para o impalpável sua sede de extermínio, concebe um gênero novo: o panfleto sem objetivo.

E Cioran, ao ser indagado sobre “o papel do pensador nestes tempos de extravio”, responde: “Apenas de dar o testemunho. Não pode exercer a menor influência sobre o curso das coisas. O pensador oferece um testemunho. É como um guarda que acaba de testemunhar um acidente. Esse foi o caso de Montaigne, mas a sua mensagem não surte efeito nos pensadores.” (Entretiens) Percebe-se a distância em relação a um Sartre: o protótipo do intelectual de esquerda, filósofo engagé, marxista, comunista… Distância que se acentuará no caso de Cioran, e não porque seja mais “de direita”, em oposição à esquerda representada por Sartre, mas porque é radical no seu “inexistencialismo dácio-bogomilo” (Sloterdijk), no pessimismo metafísico à la Schopenhauer e no niilismo à la Nietzsche. Cioran já foi dito o “filósofo da inação“, o que só pode produzir uma grave incompreensão: não se trata necessariamente de passividade, apatia, imobilismo, mas do desafio trágico de assumir a própria existência sem o pretexto de um projeto, que é sempre suspeito e nunca fiel à ideia original. “Tudo o que o homem empreende volta-se contra ele. Toda ação é fonte de infelicidade, pois agir contraria o equilíbrio do mundo; é estabelecer um objetivo e projetar-se no devir. O menor movimento é nefasto. Detonam-se forças que podem ser esmagadoras. Viver realmente é viver sem objetivo. É o que preconiza a sabedoria oriental.” (Entrevistas com Sylvie Jaudeau) Trata-se do princípio taoísta, também valorizado pelo budismo, de wu-wei: ação espontânea, quase que “automática”, sem projeção nem expectativa, e sobretudo sem esforço; um modus operandi muito recorrente nas artes, sobretudo na música (o baterista que enche a cabeça com pensamentos enquanto executa o seu instrumento facilmente errará por distração, ou antes por estar concentrado nas ideias que transitam na sua cabeça).

Antes de ir à Alemanha estudar, graças a uma bolsa de estudos, onde conheceria de perto o fenômeno ascendente do nazismo e seria por ele seduzido, Cioran cogitou ir à Espanha, país que considerava uma de suas pátrias espirituais, onde tinha o desejo de estudar sob os auspícios de José Ortega y Gasset. A Guerra Civil frustrou os seus planos. A Alemanha acabou sendo o seu destino. As afinidades de pensamento entre Cioran e o autor de A Rebelião das Massas é notável, muito embora os seus estilos, os seus respectivos tons de prosa sejam distintos (Cioran é lírico, subjetivo, performativo; Ortega é comedido, objetivo, formativo). Ambos se insurgem contra a uniformidade monolítica do homem-massa, tipo social já descrito por Kierkegaard em uma de suas personificações do desespero humano, o desespero pela recusa de tornar-se si mesmo, desespero-fraqueza próprio de uma existência burguesa confortável e respaldada pelas convenções sociais, em que o eu renuncia a encarar-se enquanto desafio existencial para pensar, agir e viver pautado pelos padrões de um determinado grupo. Aproximando-se do Artista da Fome kafkiano e do Homem do Subsolo de Dostoiévski, Cioran representa a dimensão de sombra, a potência negativa da modernidade, a sua função de autocrítica, de criação pela destruição. Muito da sua atitude estética já se faz presente em Baudelaire, o Artista Moderno par excellence: a singularidade poética, a experiência da vida urbana, o sentimento de inutilidade do artista e o luto pela morte da poesia na modernidade, em que a vida passa a ser vista melancolicamente em termos de mecanização, reificação, uniformização, décadence. Figuras cioranianas na antípoda do homem-massa: “Pensador privado”, “discípulo de Jó”, “Traidor Modelo”, o “Homem-fora-de-tudo”, o “Exilado metafísico”; “Quem és? — Sou um estrangeiro para Deus, para a polícia, para mim mesmo”, escreve ele em Le mauvais démiurge. E se Baudelaire pôde escrever: “Ser um homem útil sempre me pareceu algo de bastante hediondo”, Cioran por sua vez aspirará a ser “mais inutilizável do que um santo” (Silogismos da amargura)

Nunca será demasiado criticar a irritante lei da eficácia que rege todos os aspectos da vida moderna, dos negócios ao casamento, da economia ao sexo. O sucesso é a expressão humanizada, antropocêntrica, da eficácia. Numa cultura marcada pelo angelismo, leia-se, pela obsessão da pureza e da saúde e da virtude (todo mundo é “super do bem”), não deixo de compreender Cioran quando confessa desejar “ter inventado todos os vícios“, quando se erige poeticamente como Corruptor:

– “Queria semear a Dúvida até nas entranhas do globo, impregnar com ela a matéria, fazê-la reinar onde o espírito jamais penetrou e, antes de alcançar a medula dos seres vivos, sacudir a quietude das pedras, introduzir nelas a insegurança e os defeitos do coração. Arquiteto, teria construído um templo à Ruína; predicador, revelado a farsa da oração; rei, hasteado a bandeira da rebelião. Como os homens nutrem um desejo secreto de repudiar-se, teria estimulado em toda parte a infidelidade a si mesmo, mergulhado a inocência no estupor, multiplicado os traidores de si mesmos, impedido multidões de corromperem-se no podredouro das certezas.” (Breviário de decomposição)

Numa Idade da Razão que promove a felicidade e a saúde como absolutos, com sua cultura da autoajuda, do coaching e do crossfit, Cioran teve a temeridade, a ousadia tragicômica de “estar triste com método” (O Livro das Ilusões). “Creio que em todo escritor se reconhece se os pensamentos que o ocupam são diurnos ou noturnos. Eu necessito desse desalento e até hoje, […] Não se trata de estar mais ou menos abatido, é preciso estar melancólico até o excesso, extraordinariamente triste. É então que se opera uma reação biológica saudável. Entre o horror e o êxtase, eu pratico uma tristeza ativa.” (Entretiens) Trata-se de uma tristeza ativa, e altiva, a tristeza como forma de entusiasmo. Um apetite: “A tristeza: um apetite que nenhuma desgraça satisfaz.” (Silogismos da amargura) Cioran não podia prescindir de estar doente (entediado, melancólico), pois não há conhecimento sem doença: a saúde perfeita ignora-se a si mesma, representando a perfeita irreflexão, o mais definitivo anonimato, a mais salutar inconsciência. Assim como o personagem de uma peça latina (citada por Clément Rosset),  um amante em êxtase, exclama: Omnibus laetitiis laetum (“alegre com todas as alegrias”), Cioran poderia dizer: “Alegre com todas as alegrias e todas as tristezas.” É o Spleen baudelairiano, essa melancolia ruminativa e criativa, esse doce nada que nos invade desde dentro, surgido de só Deus sabe que abismo. O Breviário de decomposição é um livro apaixonado e tempestuoso que repercute em muitos momentos o deslocamento e a inadequação do indivíduo em meio à turba contemporânea. Nele, à demagogia do homem-massa é contraposta a franqueza de um Diógenes, “caso-limite de sinceridade e lucidez”. Na verdade, este sentimento de não-pertença e solidão metafísica remontam à insônia de juventude e ao seu primeiro livro escrito, Nos cumes do desespero.

O verdadeiro saber reduz-se às vigílias nas trevas: só o conjunto de nossas insônias nos distingue dos animais e de nossos semelhantes. Que ideia rica e estranha foi alguma vez fruto de um adormecido? Seu sono é bom? Seus sonhos, tranquilos? Engrossará a turba anônima. O dia é hostil aos pensamentos, o sol os obscurece; só florescem em plena noite… Conclusão do saber noturno: quem chega a uma conclusão tranquilizadora sobre o que quer que seja dá provas de imbecilidade ou de falsa caridade. Quem achou algum dia uma só verdade alegre que fosse válida? Quem salvou a honra do intelecto com propósitos diurnos? Feliz daquele que pode dizer: “Tenho o saber triste.” (Breviário de decomposição)

E quanto Ortega y Gasset afirma que “a primeira condição para uma melhora da situação presente é tomar consciência de sua enorme dificuldade”, não posso deixar de pensar nesse aforismo, “Obsessão do Essencial”, no qual se lê que “aquele que é difícil no que faz – em sua tarefa ou em sua aventura – só tem que transplantar sua exigência do acabado ao plano universal para não poder acabar sua obra nem sua vida”, pois “a angústia metafísica provém da condição de um artesão sumamente escrupuloso, cujo objeto não seria outro senão o ser. De tanto analisar, chega à impossibilidade de compor, de terminar uma miniatura do universo.” (Breviário de decomposição) De onde a exigência fragmentária da obra de Cioran, a ontologia do fragmento que está no princípio da sua criação literária. O fragmento não como subproduto, resultado de uma perda e de uma deficiência, mas o fragmento em si, concebido e produzido enquanto tal, fragmento por excesso de lucidez e não por carência de substância. O homem-fragmento, antípoda do homem-massa, é apenas ironicamente um “fracassado” (raté), pois na raiz do seu fracasso se encontra uma experiência de plenitude, libertadora. “O fracasso é um paroxismo da lucidez. O mundo se torna transparente para o olho implacável daquele que, estéril e clarividente, já não se apega a nada. Mesmo inculto, o fracassado sabe tudo, vê através das coisas, desmascara e anula toda a criação.” (Lacrimi și Sfinți) Para Cioran, como para Ortega y Gasset, “a única experiência profunda é a que se realiza na solidão. Aquela que resulta de um contágio permanece superficial — a experiência do nada não é uma experiência de grupo.” O homem-massa é aquele cuja pobreza de experiências solitárias é inversamente proporcional à sua riqueza de “experiências coletivas”, logo superficiais. O medo da solidão é equivalente ao medo do fracasso (e, em nossas camadas profundas, não podemos deixar de pressenti-lo); “o bem-sucedido em tudo é necessariamente superficial. O fracasso é a versão moderna do nada. Ao longo da minha vida estive fascinado pelo fracasso. Ao ser perfeitamente sadio física e psiquicamente falta um saber essencial. Uma saúde perfeita é a-espiritual.” (Entrevistas com Sylvie Jaudeau)

“É, de fato, muito difícil salvar uma civilização quando chega a hora de cair no poder dos demagogos”, escreve Ortega y Gasset. Cioran é a perfeita antípoda do demagogo: um psicólogo impiedoso, anatomista da natureza humana, um moralista no sentido filosófico, não no de “fazedor de moral”, crítico e acusador do homem, do seu “dogmas inconscientes”, do seu titanismo, da sua vocação à Queda, mas em hipótese alguma um reformador, um educador:

Desde Adão, todo o esforço dos homens tem sido por modificar o homem. As pretensões de reforma e de pedagogia, exercidas à custa dos dados irredutíveis, desnaturam o pensamento e falseiam seu devir. O conhecimento não tem inimigo mais encarniçado do que o instinto educador, otimista e virulento, ao qual os filósofos não saberiam escapar: como permaneceriam imunes os seus sistemas? Salvo o Irremediável, tudo é falso; falsa esta civilização que quer combatê-lo, falsas as verdades com as quais se arma.
À exceção dos céticos antigos e dos moralistas franceses, seria difícil citar um só espírito cujas teorias, secreta ou implicitamente, não tendam a moldar o homem. Mas este subsiste inalterado, embora tenha seguido o desfile de nobres preceitos, propostos à sua curiosidade, oferecidos ao seu ardor e ao seu deslumbramento. (Breviário de decomposição)

Ortega y Gasset é demasiado educador, edificante. Cioran sequer cogita salvar a civilização, a sua obra não “edifica” nada, apenas relata os seus estremecimentos e as suas perplexidades. O destino da humanidade? Não está em suas mãos mudá-lo, ainda que o desejasse. Uma revolução? Ele é “anti-revolucionário por niilismo”, como se lê nos Cahiers. E como disse alguém, um autor cuja obra se dirige a consciência, em sua solidão, não às massas. No Livro das Ilusões, esta observação: “há pensadores que não se pode ler em voz alta. Pascal é um deles. Suas verdades deveriam ser murmuradas; murmuradas deveriam ser todas as contraverdades da vida.” Não é de outra coisa que se trata a obra de Cioran: dessas contraverdades da vida…

Seria inútil, quando se tem por inquestionável que tudo é político, até o amor e a morte, insistir no fato de que Cioran não é um pensador político, mas antes um filósofo existencial e um metafísico de ocasião, um “pensador privado” interessado em pensar e compreender o que é o homem, a natureza da história, a vida e a morte, a alma e o espírito conforme distintos do corpo, entre tantas outras questões perenes. Para ele, como para Ortega y Gasset, o pensador não é mais do que uma testemunha dos fenômenos e dos acontecimentos, sem nenhuma pretensão de intervir neles. Como o espanhol de quem quis ser o discípulo, nem Cioran nem a sua obra (à exceção do seu libelo Schimbarea la față a României, “Transfiguração da Romênia”) são políticos, mas metafísicos, e toda metafísica “implica uma reflexão trans-histórica. Ocupa-se da essência, do imutável. Transcende o temporal, não avança.” (Entrevistas com Sylvie Jaudeau). As questões essenciais tratadas por Cioran são prévias à política e pertencem, como a obra de Ortega y Rosset, ao seu subsolo. Compreender o mundo e transformá-lo são objetivos que no limite se excluem, cada um deles exigindo mais do que o tempo de toda uma vida. Outros, como Sartre e Camus, pensam diferente: é dever do intelectual fazer política, engajar-se, enquanto figura pública, na luta pelo melhoramento do mundo e do ser humano. Enfim, Cioran e Ortega y Gasset coincidem que “a missão do chamado ‘intelectual’ é, em certo sentido, oposta à do político. A obra intelectual visa, muitas vezes em vão, esclarecer um pouco as coisas, ao passo que a do político normalmente consiste, ao contrário, em confundi-las mais do que já estavam. Ser de esquerda, como ser de direita, é uma das infinitas maneiras que o homem pode eleger para ser um imbecil: ambas são, de fato, formas da hemiplegia moral.” (A rebelião das massas)

Se me perguntassem: “Então, como é Cioran realmente?” — eu escolheria o aforismo com maior probabilidade de fugir a toda expectativa. Algum dos Silogismos da Amargura: “Busquei em mim mesmo meu próprio modelo. Para imitá-lo, dediquei-me à dialética da indolência. É tão mais agradável fracassar na vida…”; “Ter dedicado à ideia da morte todas as horas que uma profissão teria exigido… Os extravasamentos metafísicos são próprios dos monges, dos libertinos e dos mendigos. Um emprego teria feito do próprio Buda um simples descontente“; “Por necessidade de recolhimento, livrei-me de Deus, desembaracei-me do último chato.” E se me perguntassem: “Mas Cioran é de esquerda ou de direita?” — eu responderia: do subsolo. Para Cioran, e não posso discordar, tomar como essencial a posição política em termos de direita e esquerda equivale a tratar o outro, e a si mesmo, como um objeto, um instrumento, um meio com vista a um fim qualquer. Na melhor das hipóteses, uma abstração que fala. Qualquer um que se defina antes de tudo, como o mais importante em si, em termos de esquerda ou de direita não é uma pessoa, é uma ideologia ambulante, e um desesperado que se ignora. O seu rosto é um cartaz. A sua fala é composta de palavras de ordem. Alguns detestam Cioran por causa do seu passado legionário, ou simplesmente porque ele não serve à causa. A mesma acusação foi feita a Kafka, de onde o inquérito lançado por uma publicação  comunista: Faut-il brûler Kafka? (“Devemos queimar Kafka?”) Outros ainda o detestam porque é demasiado cínico, niilista, adolescente, um “pseudopensador” cheio de uma “ladainha fácil” (Steiner). Enfim, nada mais antifilosófico, nada mais estéril do que a politização total da vida. Supor que ser “de esquerda” ou “de direita” equivale a uma declaração de malvadeza ou de mau-caratismo a priori, isto sim é a malvadeza e o mau-caratismo. E a definição mesma do fanatismo (sendo todo fanatismo, no fundo, um angelismo, uma pretensão de pureza). Como escreveu Cioran em um de seus livros mais orteguianos:  “Hoje em dia, as consciências só podem exercitar-se em duas formas de revolta: comunista e anticomunista. No entanto, como não perceber que o anticomunismo equivale a uma fé raivosa, horrorizada ante o futuro do comunismo?” (História e utopia) Pior do que um comunista, só um anticomunista.

Não costumo me interessar por livros porque seus autores são ditos de esquerda ou de direita, não costumo pensar nisso de antemão. Tampouco pauto minhas amizades deste modo. Gosto de Cioran porque é Cioran. Porque não é Pascal, Montaigne, Schopenhauer, Nietzsche, Kierkegaard, Dostoiévski ou Camus, assim como gosto de cada um destes porque são eles e não os outros. Ser ou não ser de esquerda não é para mim nenhum critério seletivo em se tratando da leitura e do aprendizado, de “cultura”.