“Escola dos tiranos [2]” (E.M. Cioran)

Os chefes de uma seita não recuam diante de nada, pois mesmo seus escrúpulos fazem parte de sua tática. Mas mesmo sem mencionar as seitas – caso-limite –, querer simplesmente instituir uma ordem religiosa vale mais, no nível da ambição, do que governar uma cidade ou assegurar conquistas por meio das armas. Insinuar-se nos espíritos, tornar-se dono de seus segredos, despojá-los de algum modo de si mesmos, de sua unidade, roubar-lhes até o privilégio, dito inviolável, do “foro íntimo”, que tirano, que conquistador aspirou a tanto? A estratégia religiosa sempre será mais sutil, e mais suspeita, do que a estratégia política. Que se comparem os Exercícios espirituais, tão astuciosos sob seu aspecto desinteressado, com a franqueza nua de O príncipe, e se medirá a distância que separa as astúcias do confessionário das astúcias de uma chancelaria ou de um trono.

Quanto mais se exaspera o apetite de poder nos chefes espirituais, mais eles se preocupam, não sem razão, em refreá-lo nos outros. Qualquer de nós, entregue a si mesmo, ocuparia o espaço, o próprio ar e se consideraria seu proprietário. Uma sociedade que se quisesse perfeita deveria colocar na moda, ou tornar obrigatória, a camisa de força, pois o homem só se move para fazer o mal. As religiões, empenhando-se em curá-lo da obsessão do poder e em dar uma direção não política a suas aspirações, igualam-se aos regimes de autoridade, já que querem, como eles, embora com outros métodos, domá-lo, subjugar sua natureza, sua megalomania inata. O que consolidou as religiões, o que até agora as fez triunfar sobre nossas inclinações, isto é, o elemento ascético, é precisamente o que deixou de ter poder sobre nós. Uma libertação perigosa deveria resultar disso; ingovernáveis sob todos os aspectos, plenamente emancipados, livres de nossas correntes e de nossas superstições, estamos maduros para os remédios do terror. Quem aspira à liberdade completa, só a consegue para retornar ao ponto de partida, à sua servidão inicial. Daí a vulnerabilidade das sociedades evoluídas, massas amorfas, sem ídolos nem ideais, perigosamente desprovidas de fanatismo, de laços orgânicos, e tão desamparadas no meio de seus caprichos ou de suas convulsões que esperam – e é o único sonho de que são capazes – a segurança e os dogmas do jugo. Incapazes de assumir por mais tempo a responsabilidade de seus destinos, conspiram, muito mais que as sociedades rústicas, para o advento do despotismo, a fim de que este as liberte dos últimos restos de um apetite de poder extenuado, vazio e inutilmente obsessivo.

Um mundo sem tiranos seria tão enfadonho quanto um jardim zoológico sem hienas. O amo que aguardamos apavorados será justamente um amante da podridão, em presença do qual todos nós pareceremos carcaças. Que venha nos farejar, que chafurde em nossas exalações! Um novo odor já paira sobre o universo.

Para não ceder à tentação política, é preciso vigiar-se a cada momento. Mas, como consegui-lo em um regime democrático, cujo vício essencial é permitir a qualquer um aspirar ao poder e dar livre curso a suas ambições? Disso resulta uma grande quantidade de fanfarrões, de agitadores sem destino, de loucos sem importância que a fatalidade recusou-se a marcar, incapazes de verdadeiro frenesi, tão inadequados para o triunfo quanto para o desmoronamento. No entanto, é sua nulidade que permite e assegura nossas liberdades ameaçadas pelas personalidades excepcionais. Uma república que se respeita deveria enlouquecer ante a aparição de um grande homem, bani-lo de seu seio, ou pelo menos impedir que se crie uma lenda em torno dele. Ela repugna isso? É porque, deslumbrada pela sua calamidade, não acredita mais nem em suas instituições nem em suas razões de ser. Enreda-se em suas leis, e essas leis, que protegem seu inimigo, a dispõem e a incitam à demissão.

Sucumbindo sob os excessos de sua tolerância, poupa o adversário que não a poupará, autoriza os mitos que a minam e a destroem, deixa-se prender nas suavidades de seu carrasco. Merece subsistir quando seus próprios princípios a estimulam a desaparecer? Paradoxo trágico da liberdade: os medíocres, que são os únicos que tornam possível seu exercício, não saberiam garantir sua duração. Devemos tudo à sua insignificância e perdemos tudo por causa dela. Assim encontram-se sempre aquém de sua missão. É esta mediocridade que eu odiava na época em que amava sem reserva os tiranos, dos quais nunca é demais dizer – ao contrário de sua caricatura (todo democrata é um tirano de opereta) – que têm um destino, até demasiado destino. E se eu lhes devotava um culto é porque, tendo o instinto do mando, não se rebaixam nem ao diálogo nem aos argumentos: ordenam, decretam, sem dignar-se a justificar seus atos; daí seu cinismo, que eu colocava acima de todas as virtudes e de todos os vícios, marca de superioridade, até de nobreza, que, a meus olhos, os isolava do resto dos mortais. Não podendo tornar-me digno deles pela ação, esperava alcançá-los através da palavra, pela prática do sofisma e da enormidade: ser tão odioso com os meios do espírito como eles eram com os do poder, devastar por meio da palavra, fazer explodir o verbo e com ele o mundo, arrebentar com os dois, e desmoronar finalmente sob seus escombros! Agora, desiludido dessas extravagâncias, de tudo o que dava realce a meus dias, ponho-me a sonhar com uma cidade, maravilha de moderação, dirigida por uma equipe de octogenários um pouco caducos, de uma amenidade maquinal, ainda bastante lúcidos para fazer bom uso de suas decrepitudes, isentos de desejos, de remorsos, de dúvidas, e tão preocupados com o equilíbrio geral e com o bem público que consideravam o próprio sorriso um sinal de desregramento ou de subversão. E agora tal é minha decadência que até os democratas me parecem demasiado ambiciosos e demasiado delirantes. Eu seria, entretanto, cúmplice deles se seu ódio à tirania fosse puro; mas eles só a abominam porque ela os relega a sua vida privada e os encurrala em seu vazio. O único grau de grandeza que podem atingir é o do fracasso. Liquidar lhes cai bem, eles se comprazem nisso, e quando se destacam na matéria, merecem nosso respeito. Em termos gerais, para levar um Estado à ruína, é preciso uma certa prática, disposições especiais, e mesmo talentos. Mas pode acontecer que as circunstâncias se prestem a isso; a tarefa então é mais fácil, como prova o exemplo dos países em declínio, desprovidos de recursos interiores, vítimas do insolúvel, dos dilaceramentos, do jogo de opiniões e de tendências contraditórias.

CIORAN, E.M., “Escola dos tiranos”, História e utopia. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.