“Chestov e a exceção monoteísta, ou peixes morrem afogados” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Satã, anjo decaído transformado em demiurgo, encarregado da Criação, insurge-se contra Deus e revela-se, neste mundo, mais à vontade e até mais poderoso do que Ele; longe de ser um usurpador, é nosso mestre, soberano legítimo que sobrepujaria o Altíssimo se o universo estivesse reduzido ao homem. Tenhamos, pois, a coragem de reconhecer de quem dependemos. (CIORAN, História e utopia)

Gostaria que um demônio planejasse uma conspiração contra o homem: me aliaria a ele. (CIORAN, Breviário de decomposição)

Tout finit bien, parce que tout finit. (inconnu)

No prefácio ao seu Kierkegaard et la philosophie existentielle (1936), Chestov exalta a narrativa bíblica por ser a única, em todo o mundo, na história universal das religiões, a afirmar a preconizar o ato de fé como resposta ao problema — mistério — do mal na existência. A fé em detrimento do conhecimento. O mal existe, o sofrimento existe, o mundo é injusto, a vida é precária, todos devemos morrer, e a causa disso não é o modo natural e necessário das coisas como as coisas são, mas o pecado original do primeiro casal edênico. Neste sentido, sempre segundo Chestov, nenhuma diferença entre a filosofia grega, de Anaximandro a Platão, e a espiritualidade oriental, hinduísta ou budista: “Em todas as épocas e em todos os povos”, escreve ele, “o pensamento natural do homem se detinha, impotente, como que enfeitiçado, diante da fatal necessidade que havia introduzido no mundo a terrível lei da morte, inelutavelmente vinculada ao nascimento do homem, a lei da destruição que espreita tudo que apareceu e aparecerá. […] A lei da inelutável destruição de tudo quanto tenha sido criado, lei descoberta pela visão intelectual, surge diante de nós como algo pertencente ao ser mesmo. […] E nós mesmos, a milhares de anos de distância dos gregos e dos hindus, nos sentimos tão pouco capazes de livrar-nos do poder dessa verdade evidente como os primeiros que a descobriram e no-la mostraram.”

Sem dúvida, uma evidência amarga, dolorosa, inaceitável do ponto de vista da razão mesma que a declara evidente. Em todo caso, ocidentais ou orientais, gregos, hindus, budistas ou xamanistas, enfim, todos — seres de “natureza”, demasiado naturais, todos apegados às evidências — encontram-se não apenas em engano, como em pecado. Não deixa de ser admirável, ou no mínimo curioso, a luta antinatural de judeus, cristãos e muçulmanos contra as evidências. “O mal não existia no universo criado por Deus; tampouco existia o pecado do qual procede o mal”, afirma o filósofo “tertuliano” — mais “tertuliano” do que o próprio Kierkegaard! O homem pecou: logo, todos os seres são mortais, e a natureza é um estado de decomposição e morte. Simples assim. Segundo Chestov (e Kierkegaard), toda a sabedoria e toda a espiritualidade universal estão equivocadas, e, pelo desígnio de uma divindade “humana, demasiado humana”, a verdade sobre todas as coisas calhou de aparecer unicamente numa tradição particular que contraria todo o resto do que a humanidade intuiu desde sempre, desde muito antes do surgimento do primeiro epiléptico no deserto do Oriente Médio.

Segundo Kierkegaard, no seu primoroso ensaio sobre O desespero humano, o cristão é o único tipo humano que vê na morte uma ninharia, um acidente evitável, desde que se tenha fé no poder misericordioso e miraculoso de um Deus capaz de nos garantir a imortalidade absoluta, não apenas espiritual, mas material. O “homem natural”, segundo Kierkegaard, é como uma criança assustada e amedrontada diante de falsos perigos, que, se quiser, ou seja, caso assim decida acreditar, não possuem nenhuma realidade. Para o cristão (homem “sobrenatural”), por sua vez, a morte não é um fato, um dado, uma necessidade natural, mas uma “doença” perfeitamente evitável pela fé no impossível; “tal é a maneira magnânima como o cristianismo ensina ao cristão a pensar sobre todas as coisas deste mundo a morte incluída […] O defeito da infância está, em primeiro lugar, em não conhecer o horrível, e em seguida, devido à sua ignorância, em tremer pelo que não é para fazer tremer. Assim o homem natural; […] assim o pagão na sua relação com a divindade; não só ele ignora o verdadeiro Deus, mas adora, para mais, um ídolo como se fosse um deus.” O que o cristão “descobriu” é a superioridade de um medo sobrenatural (leia-se, medo do “fogo eterno”) em detrimento de um medo natural e universal, de um medo democrático. Morreu, c’est fini. Qual é mesmo a figura infantil da História?

O cúmulo do infantilismo cristão, contudo, não se encontra nem em Kierkegaard nem em Chestov, mas em Unamuno. O que ele afirma descaradamente (o antropocentrismo fanático-birrento judaico-cristão) estava apenas tímida e implicitamente colocado em seus antecessores: segundo o filósofo católico espanhol, a Igreja “defende a vida. Atacou Galileu, e fez bem, porque sua descoberta, no princípio, e até acomodá-la à economia do conhecimentos humanos, tendia a corromper a crença antropocêntrica de que o universo foi criado para o homem; atacou Darwin, e fez bem, porque o darwinismo tende a corromper nossa crença de que o homem é um animal de exceção, criado expressamente para ser eternizado.” (Do sentimento trágico da vida) Pasme. Ao ler estas linhas, não posso senão sorrir diante deste aforismo de Cioran: “O catolicismo só criou a Espanha para melhor sufocá-la. É um país onde se viaja para admirar a Igreja e para adivinhar o prazer que pode existir em assassinar um pároco.” (Silogismos da amargura) Em todo caso, suponhamos que sim, e acolhamos o postulado de Unamuno, com uma ressalva: o universo foi criado para o homem como palco de uma tragicomédia sem sentido nem finalidade, “uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria.” E então poderíamos dizer, como a androide Dolores, personagem da gnóstica serie Westworld (em que os androides habitantes do parque somos nós, e os humanos que o administram, os arcontes do gnosticismo): “Deve haver algo de errado com este mundo… algo escondido.” O mundo é um abatedouro, e o homem… (não surpreende que a nossa espécie já tenha começado a cogitar a colonização de outros planetas).

Se caminhamos para um apocalipse, não no sentido teológico, mas ecológico, não hesitemos em culpar o judeo-cristianismo com o seu especismo abominável. Após ler os existencialistas cristãos, abraçar a heresia gnóstica se torna um imperativo categórico.

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