Dos males, o pior: a filosofia trágica de Clément Rosset

Nonfilozofie: ideile se sufocă de sentiment. [Não-filosofia: as ideias sufocam de sentimento.] (CIORAN, Amurgul gândurilor)

Conseguir pensar o pior – tal é pois o alvo mais geral da filosofia terrorista, o cuidado comum a pensadores tão diferentes quanto os filósofos citados mais acima. A tais pensadores, esta infecta tarefa apareceu não somente como tarefa única, mas ainda tarefa necessária da filosofia. O que há de comum aos Sofistas, a Lucrécio, a Pascal e a Nietzsche, é que o discurso segundo o pior é reconhecido de saída como o discurso necessário – necessário, e por conseguinte também o único possível, sendo que a hipótese do pior exclui qualquer outra. O discurso da convenção nos Sofistas, da natureza em Lucrécio, do homem sem Deus em Pascal e do homem dionisíaco em Nietzsche é ordenado segundo uma problemática do pior, considerada como necessário ponto de partida. À origem do discurso, uma mesma intenção geral, um mesmo pressuposto metodológico: o que deve ser buscado e dito antes de tudo é o trágico. E é precisamente a este título que a filosofia trágica constitui uma “lógica do pior”: se há uma “lógica” na empresa de destruição que ela tem em vista, é que ela considera – previamente a destruição – como uma necessidade – ou melhor, como a única e especifica necessidade daquilo que ela admite a título de filosofia.

O objeto da presente Lógica do pior é de interrogar-se sobre a natureza desta “necessidade”. Não para pô-la em questão; antes para pô-la em cena: fazê-la aparecer, precisando as circunstâncias que contribuem, no espírito do filósofo trágico, para torna~ esta necessidade “necessária”. Empresa que pode, é verdade, parecer ambígua. Nenhum pensamento, nenhuma filosofia é, evidentemente, necessária nela mesma: e, a esse respeito, a reflexão pela qual Bergson termina a Introdução do Pensamento e o movente não é sem gravidade (“jamais se é obrigado a fazer um livro”). A necessidade do expediente trágico não tem sentido, para o lógico do pior, senão uma vez admitida a existência de um pensamento: o postulado sendo que – se há pensamento – este é necessariamente de ordem desastrosa. Esta necessidade reveste, além disso, um caráter evidentemente subjetivo: tratar-se-á sempre das razões que se dá o filósofo para dar conta de sua própria iniciativa. Mas talvez essas razões tenham interesse em ser conhecidas. Tratar-se-á sempre, com efeito, de uma necessidade lógica, apoiada sobre uma seqüência ordenada de considerações, e constituindo assim uma filosofia: liberta, conseqüentemente, das considerações de ordem emotiva ou sentimental que puderam, em tal ou qual pensador reputado angustiado, ocupar lugar de fundamentos da meditação trágica. Se há uma lógica do -pior, ·ou seja, uma certa necessidade inerente à filosofia trágica, esta não deve evidentemente ser buscada nem na angústia vinculada a incertezas de ordem moral ou religiosa (trágico segundo Kierkegaard), nem na perturbação perante a morte (trágico segundo Chestov ou Max Schéler), nem na experiência da solidão e da agonia espiritual (trágico segundo Unamuno). E provavelmente a esse tipo de pensamento trágico que se refere Jacques Maritain quando declara em Louvain que “nada é mais fácil para uma filosofia do que ser trágica, ela não tem senão que abandonar-se a seu peso humano”.

O exame desses ensaios sobre o trágico, tais como se os encontra sob a pena de autores como Chestov ou Unamuno, conduz a uma dupla consideração. Uma, acessória, é que o pensamento trágico quase não encontrou, desde Nietzsche, intérprete filósofo. A outra, que a existência de tais ensaios contribui para confirmar os filósofos em sua resistência em admitir que o pensamento trágico possa algum dia constituir-se em filosofia. Nada é mais fácil do que escrever sobre o trágico: nenhuma coisa no mundo sendo tal que aí não se possa achar facilmente matéria para qualquer encadeamento de considerações melancólicas. A filosofia admitirá então de ordinário que há “trágico” na existência, na literatura e na arte. Mas que uma filosofia possa ser ela mesma trágica é o que ela recusará geralmente admitir. Razão confessa: o pensamento trágico é incapaz de se erigir em filosofia (vide Chestov e Unamuno). Razão inconfessa: uma “filosofia trágica” seria inadmissível porque significaria a negação prévia de toda outra filosofia. Assim, é preferível abandonar o trágico à arte e à literatura. Donde um contraste freqüente, bem pouco, notado ao que parece, entre as produções literária e filosófica de uma mesma civilização e de uma mesma época: aquela brilhando mais freqüentemente por seu clarão trágico, esta por sua aptidão em pôr o trágico fora de circuito. Assim o século XVII francês legou à posteridade, de uma parte, um conjunto de escritores que caracteriza toda uma visão do mundo pessimista e desesperada, de outra, um certo número de filósofos unânimes em louvar a razão e a ordem do mundo – exceto Pascal; mas, precisamente, “Pascal não é um filósofo” (Bréhier); um mesmo contraste seria fácil de pôr em evidência na França contemporânea. Contraste que recobre um paralelismo: a tarefa da filosofia sendo freqüentemente refazer aquilo que a literatura desfez, restaurar cada grande tema uma vez posto fora de uso. Mas, se a maior parte dos filósofos se fizeram assim lógicos da ordem, da sabedoria, da razão, da contradição, da síntese ou do progresso – lógicos da restauração -, alguns outros foram lógicos do pior, cuja tarefa era sistematizar o trágico presente em tal ou qual literatura, estudar-lhe a lógica. Tais como os filósofos já citados, que trouxeram, cada um a sua maneira, a peste no discurso filosófico, e nos quais é notável que seu ofício de carrascos .da filosofia lhes valeu ocupar um lugar à parte, eminente por vezes, mas cuja eminência não era reconhecida senão em favor de uma exclusão para fora do campo -propriamente filosófico. Assim Lucrécio,’ por exemplo, foi abandonado aos latinistas e a um certo materialismo superficial que, ainda que acolhendo-o, e- por este acolhimento mesmo, desnaturava seu pensamento; ou Pascal, aos teólogos e moralistas que puderam, e isto até quase hoje em dia, dissimular a presença de uma filosofia pascaliana sob intermináveis controvérsias incidindo sobre a aposta, a graça e os milagres. Enfim, nem Lucrécio nem Pascal são verdadeiramente filósofos. O que o decreto de expulsão não precisa é sua principal censura: não a de não serem filósofos, mas a de serem filósofos trágicos.

E com efeito a noção de “filosofia trágica” que se encontra no centro do debate. Noção contestada por uma recíproca exclusiva: o trágico não sendo admitido senão a título de não filosófico e o filosófico a título de não trágico, Se há, em Montaigne e Pascal, lugar para um certo pensamento trágico, precisar-se-á que não está aí exatamente a filosofia; inversamente, se.se admite que há, nesses autores, “filosofia”, esta será buscada em certas regiões que não têm precisamente, a considerá-las isoladamente, nenhuma ressonância trágica: propostas sobre a educação ou a arte de bem viver, fragmentos sobre o espírito de geometria e o espírito de finura. Enfim, ora filósofos, ora trágicos: nunca filósofos trágicos. Do que se trata realmente, ao longo desse processo de exclusão recíproca? Da simples questão do reconhecimento, ou do não-reconhecimento, dos direitos à existência de uma “filosofia trágica”: de saber se o exercício do pensamento pode estar habilitado a se desqualificar a si mesmo, único caso no qual se poderá falar de filosofia trágica; mas é este precisamente o ponto não admitido. Desqualificar o pensamento pelo pensamento, segundo um esquema, por exemplo, pascaliano (“nada mais conforme à razão do que esta condenação da razão”), foi reputado uma empresa não filosófica. Pelo que é preciso entender: empresa que não nasceu das exigências da razão, mas de imperativos outros (tais como o “coração” em Pascal -, a afetividade, a angústia). Condenação do pensamento trágico que acha onde se apoiar, de um lado sobre o número elevado de filosofias pseudotrágicas nascidas de tais exigências afetivas, de Outro, e mais profundamente, sobre a desaparição do acaso no horizonte da consciência filosófica- ou, para ser mais preciso, da afetividade filosófica.

Se há, entretanto, uma filosofia trágica, esta não é em nada mais ilógica que todas as outras formas de filosofias. Donde o título da empresa presente: Lógica do pior, onde o termo “lógica” visa designar o caráter filosófico do discurso trágico. Nada mais: não se tratará de modo algum de buscar aqui as ligações logicamente necessárias que permitiriam, uma vez posto um “mal” qualquer, se seguir, de mal a pior, até a evidência filosófica do pior. De um tal encadeamento de acontecimentos – utilizado por exemplo por Zola, cujo itinerário romanesco consiste em compor a geração de um desastre a partir da falha que ameaça o edifício no princípio de cada volume – não será questão aqui. Uma tal lógica do pior, seja ela de ordem filosófica ou romanesca, supõe, com efeito, que esteja previamente dada a existência de acontecimentos: existência que contesta a filosofia trágica, ou antes aquém da qual ela busca o terreno específico de seu saber. “Lógica do pior” não significa então nada além de: a filosofia trágica considerada como possível.

ROSSET, Clément, Lógica do pior. Trad. de Fernando J. F. Ribeiro e Ivana Bentes. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989.