O santo ascético e o sábio desapaixonado não são seres humanos completos. Um pequeno número deles poderá enriquecer uma comunidade, mas um mundo composto de tais criaturas morreria de tédio.

BERTRAND RUSSELL, Por que não sou cristão

Desordenada, tumultuada, mítica, lírica, a dicção gnóstica é mais rica e conturbada que a canônica. Nela, tudo é metáfora e nada é literal. Enquanto o Novo Testamento traz histórias com começo, meio e fim, os textos da Biblioteca de Nag Hammadi são, em sua maioria, desafios de decifração. Não têm entrecho, e, quando chegam perto de ter, o enredo é bruscamente interrompido para dar passagem a algum cântico ou conselho que os autores acharam apropriado. São histórias sem intriga, cunhadas sem muita preocupação com um léxico coerente. Um breve dia, no Diálogo do Salvador, significa eternidade, e a eternidade, no Evangelho de Tomé, quer dizer aqui e agora.

À sua época, os gnósticos se consideravam os únicos e verdadeiros cristãos, em contraste com os falsos crentes e iludidos adoradores de um Deus menor, os ortodoxos. O termo “pecado”, do grego hamartia, que significa errar o alvo, era, para eles, algo diariamente cometido pelos ortodoxos, que tinham perdido de vista a meta original dos dizeres de Jesus. Do ponto de vista dos valentinianos e marcionitas, foi a Igreja, e não seus dissidentes, que deturpou a mensagem legítima do cristianismo, desperdiçando os ensinamentos. É por isto que boa parte da literatura gnóstica é arquitetada como máximas de sabedoria, os logoi sophon. E essa recuperação da sabedoria, na Biblioteca de Nag Hammadi, vem sempre acompanhada de teatralidade. O recurso mais freqüente é o do paradoxo, para criar intensidade dramática. Abusa-se também da emphasis, que em autores helenísticos seria desaprovada (porque a clareza é a virtude fundamental). A “obscuridade” é uma virtude cristã do estilo, porque sugere que, nas sombras das entrelinhas, há sempre mais do que aquilo que foi dito. Os gnósticos são campeões da obscuridade, mas ela não é uma exclusividade deles. A abertura do Evangelho de João, por exemplo, é um caso de emphasis canônica: “No princípio era o Verbo/ e o Verbo estava com Deus/ e o Verbo era Deus”, ela expõe três sentidos aparentemente contraditórios: o da preexistência (era), o da confluência (estava) e o da personificação (era). Com os gnósticos, esses paradoxos e ênfases serão ainda mais estridentes.

Convencer é sempre uma questão de circunstâncias, como lembrava Aristóteles, a “faculdade de descobrir em cada caso os meios de persuasão à disposição”. No caso dos gnósticos, os meios eram os de uma fantasia ilimitada e de uma inventividade incontrolável. E com muita paixão. O pathos ganha de longe do logos quando se trata de gnósticos. Veja-se a sentença 2 do Evangelho de Tomé:

L2. Jesus diz: “Que aquele que procura continue procurando até encontrar. Quando encontrar, se perturbará. Quando se perturbar, se pasmará e reinará sobre o Todo.”

Perturbar, pasmar, maravilhar-se. Esse pathos permite que o que está sendo dito não precise de justificativas, mas exija, sim, a garantia de uma consecução imediata. Pouca explicação e muita amplificação. Tudo que se diz nos textos gnósticos é urgente. Como no Novo Testamento, presume-se que as mensagens tenham validade eterna; mas aqui elas têm uma pressa extra de se materializar. O apelo sensorial cerca o leitor por todos os lados: hipérboles, metáforas, metonímias, torrenciais imagens. E o tempo mencionado nos textos é geralmente um tempo em suspensão, nem passado, nem futuro, mas um presente alargado. A recompensa está num horizonte vizinho, e o modo prático de obtê-la, embora um tanto velado, nunca é perdido de vista. Enquanto o pathos do Novo Testamento é o do sofredor passivo, o da Biblioteca de Nag Hammadi é o do voluntarioso, daquele que insiste, persiste e conquista. O modo de operar da paixão gnóstica não tem nada de esvaziamento da alma ou de rendição do eu, como nos misticismos tradicionais. É uma ascese às avessas, extrovertida, vigorosa, panteísta, uma confrontação cujo feliz desfecho é a incorporação da divindade (e não a sublimação até ela). Os premiados não serão os humildes ou pobres de espírito, mas os persistentes, os resilientes, os valentes que não retrocedem nem diante de terríveis “perturbações”. São estes os “solitários”, os que chegam lá. Despertar é passar por um tumulto interno, nada com a paz aconchegante que os canônicos oferecem. Basta comparar a incidência dos vocábulos “patéticos” dos textos de Mateus aos de Tomé para notar o quanto esses dois pathos estão dissociados: se em Mateus repete-se “prantear” e “confortar”, em Tomé os verbos preferidos são “perturbar”, “pasmar” e “embriagar”, um autêntico léxico do assombro.

Na literatura gnóstica o estilo é a primeira pele do pensamento, não seu artifício.

É pela forma, por seus circunlóquios e hipérboles, seus tiques e ocultações, pelo jogo de esconde, modo simultâneo de explicar e deixar perplexo, que se abre espaço para acomodar as excêntricas idéias. Sem a dicção gnóstica, não haveria sequer como conceber o pensamento gnóstico. O como dizer é parte do conteúdo do que se está dizendo. Assim, a retórica gnóstica é paradoxal porque foi construída para tratar de notícias assombrosas. Pensar e escrever como um gnóstico é abusar da imaginação — ou, na expressão grega da época, da Epinoia. É essa exacerbação da imaginação, a inventividade usada a torto e a direito, que os distingue de outras matrizes de misticismo e de outras modalidades de cristianismo. E foi por causa dessa qualidade, a imaginação inconformista, que eles granjearam operosos inimigos.

A Epinoia será execrada e combatida duramente pelos padres da Igreja. É importante, pois, distingui-la de um conceito paralelo, o de Ennoia ou consciência “internalizada”, que também aparece nos escritos canônicos da época. Ennoia é a crença, uma dádiva que apazigua. A Epinoia é conquistada a duras penas, à custa do talento do solitário ou eleito.
Veja-se o Evangelho de Tomé:

L75. Jesus diz: “Muitos estão esperando diante da porta, mas serão os solitários que entrarão na câmara nupcial.”

Ennoia significa se acomodar à fé. Epinoia, se debater com uma avalanche de dúvidas e intuições. A Ennoia retribui o pacto de fidelidade do crente proporcionando-lhe a recompensa do alívio. A Epinoia não acalma; perturba, espanta e, na melhor das hipóteses, pode gerar certa sabedoria, ou gnose. A impassível Ennoia, ou conversão pela fé, está lá, basta aderir a ela. A imprevisível Epinoia nunca vem de graça (muito menos por um ato de submissão), e traz inúmeras inconveniências a quem se arrisca nela, embora tenha suas (inexcedíveis) compensações. São dois conceitos paralelos e opostos. Ennoia é passividade, alienação e imobilidade. Epinoia é pura atividade desenfreada.

Essa atividade desenfreada da imaginação era intragável para os padres da Igreja, exatamente na medida em que questionava sua autoridade. Antecipava algo do moderno protestantismo, pois, munido da sua Epinoia, cada qual poderia ler e entender a mensagem sagrada como bem quisesse. É esta a recomendação do Evangelho de Tomé: não dêem a mínima para o que lhes aconselham, todos se metem a profeta mas só vocês, dentro de vocês, são capazes de reconhecer a verdade.

L3. Jesus diz: “Se aqueles que os guiam lhes dizem: ‘Vejam, o Reino está no céu’, então os pássaros do céu os precederão. Se lhes dizem: ‘Está no mar’, então os peixes os precederão. Antes, o Reino está dentro de vocês, e está fora de vocês. Quando vocês chegarem a conhecer-se, então se tornarão conhecidos, e compreenderão que são vocês os filhos do Pai Vivo.”

A Epinoia atrevia-se, inclusive, a reinterpretar o pecado original. Veja-se o insólito dessa remontagem do primeiro ato de Adão e Eva no Apócrifo de João. Nele, o Pai (ou Mãe-Pai), com muita pena de Adão, manda-lhe: “Um auxiliar, a luminosa Epinoia, que provém dele, e é chamada vida (Eva), auxilia na tarefa da inteira criação… restaurando-o pelo seu ser, e ensinando-lhe o caminho para ascender, caminho do qual ele caiu.”

A imaginação chegou ao cúmulo de remediar a tempo o tombo da Queda! É isso que ela faz de melhor: resgata os homens das armadilhas preparadas pelos inimigos. A Epinoia reaparece em outro manuscrito da Biblioteca de Nag Hammadi, “A origem do mundo”, agora formulando a sua exótica versão da despedida do Éden, e incluindo um final alegre: “Eles viram que estavam despidos de gnose. Mas a luminosa Epinoia apareceu para eles reverberando de luz, e despertou suas consciências.”

A imaginação, que antes havia amortecido a Queda, agora conseguiu revertê-la por completo! O Apócrifo de João, que aprecia particularmente o termo, considera-o a forma suprema de revelação e expõe muito didaticamente que, embora Deus seja essencialmente incompreensível, ele pode se mostrar por vários meios: pela pronoia (consciência preliminar), pela ennoia (crença) e pela prognosis (intuição), todos substantivos femininos, no grego. Mas o ponto alto dessa manifestação divina seria a epinoia, o genuíno “despertar”. Só ela, entre todas as faculdades da alma e do espírito, é capaz de sintetizar vislumbres do conhecimento puro. Por sorte, para a jovem Igreja, a Epinoia não prosperou. Tivesse ela se tornado popular na ocasião e teria feito estragos. O efeito multiplicador dessa “livre interpretação” precoce das Escrituras seria provavelmente letal para uma instituição que engatinhava e precisava de ordem e disciplina, e não de dispersão e divagação. Subjugar os imaginadores e tirá-los de circulação foi a condição essencial para cimentar a autoridade da Igreja. Agostinho de Hipona sabia: A audácia separa a alma de Deus.

FIORILLO, Marília, O Deus exilado: breve história de uma heresia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

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