Leibniz escreveu que todos condenam a opinião de Afonso de que o mundo poderia ser melhor. Juntava-se à condenação generalizada e se perguntava por que, apesar dela, o mundo dos filósofos e teólogos continha tantos Afonsos modernos. Pois qualquer um que pense que Deus poderia ter feito o mundo melhor e escolheu não o fazer pensa que Deus não é tão bom quanto poderia ser. Leibniz colocou a questão de forma branda. Sua Teodicéia é uma longa resposta à obra de Bayle, que tinha menos papas na língua. A história, segundo Bayle, é a história dos crimes e infortúnios da raça humana. Um Deus que poderia ter criado um mundo contendo menos crimes e infortúnios, e escolheu não o fazer, parece não passar Ele próprio de um gigantesco criminoso.

Leibniz inventou a palavra Teodicéia para descrever a defesa de Deus em categorias tiradas do discurso do direito. Antes de examinarmos sua defesa, consideremos o ataque que a provocou. A obra de Bayle será examinada isoladamente no Capítulo 2. Aqui desejo simplesmente assinalar o que havia de excepcional nas acusações que ele fez a Deus. Deus estava em julgamento desde o Livro de Jó, no mínimo, e, se os redatores desse texto conseguiram passar alguma idéia com clareza, foi a de que Ele fizera por merecer. Pois nós, leitores, podemos ver que as coisas são ainda piores do que Jó suspeita. Ele implora compreensão. Suponhamos que soubesse que a morte de seus 10 filhos era o resultado de uma aposta de Deus com Satã, como dois colegiais briguentos disputando poder. Alguém que ponha os justos à prova dessa maneira deverá Ele próprio prestar contas mais cedo ou mais tarde. Jó, incapaz de ler o prólogo de sua história, poderia satisfazer-se com a simples aparição de Deus como testemunha, mas as épocas posteriores exigiriam mais em termos de defesa. A medida que os crimes dos quais Ele era acusado ficavam cada vez mais graves e que Ele parecia não estar sequer disposto a comparecer para rebater as acusações, os escritores modernos se sentiram impelidos a condená-lo, in absentia, a algo como a morte.

Bayle argumentou que o cristianismo piorou o problema. Antes de Bayle, era mais fácil ver o cristianismo como uma solução sensata para o problema do mal. Nas palavras de um crente, “Jó é a questão, e Jesus é a resposta”. Os detalhes da solução são tão variados quanto as diferenças na doutrina cristã, mas a afirmação identifica a crença na redenção messiânica, bem como a esperança de vida eterna, como o núcleo de qualquer visão cristã. Segundo esse ponto de vista, o próprio Deus foi vítima de um conjunto de punições tão cruel quanto qualquer ser humano jamais sofreu. De fato, elas se tornaram ainda mais cruéis diante do fato de Sua total inocência. Sua milagrosa ressurreição, que transformaria a agonia na cruz em um pesadelo passageiro, é um protótipo disso, aberto a quem quer que decida acreditar no milagre.

A crença em milagres não era um problema para Bayle. Ele considerava o mundo misterioso de maneira geral. Uma ruptura a mais em uma ordem natural bastante incompreensível não causaria nenhuma grande dificuldade (Bayle 1, 194). O problema está, isso sim, na estrutura interna da solução cristã em si. Os tormentos dos condenados, mesmo sem a doutrina da predestinação, são a pedra na qual a razão tropeça. Pois, por pior que seja um pecado, ele deve ser finito. Uma quantidade infinita de fogo do inferno é, portanto, simplesmente injusta. Imaginar um Deus que considera pecaminosas muitas das formas de vida que Ele próprio criou e depois nos tortura eternamente por nossa breve participação nelas está longe de ser o mesmo que imaginar uma solução para o problema do mal. Postular um Deus capaz de permitir sofrimento infinito e eterno pouco ajuda na dissipação de dúvidas quanto a um Deus que claramente permite sofrimento finito e temporal.

A situação era bem pior para aqueles que aceitavam a doutrina da predestinação. Embora esse não fosse o caso nem de Bayle, nem de Leibniz, ambos a levavam bastante a sério. As heresias maniqueístas consideravam que o mundo era governado por princípios do bem e do mal eternamente conflitantes. Bayle pensava que o maniqueísmo seria muito mais prevalente caso se houvesse desenvolvido em uma época que levasse a predestinação tão a sério quanto a sua. Qualquer um que acredite que nossa visão de mundo se tornou menos animadora com o tempo deveria lembrar-se dos elementos básicos dessa doutrina. Segundo o calvinismo, o número daqueles que serão para sempre amaldiçoados é muito maior do que o número daqueles que acabarão sendo salvos. Deus decide quem será redimido no instante do nascimento ou até antes. Qualquer ação que você realize pode se refletir em suas possibilidades de arder para sempre, mas nada que você faça poderá mudá-las. O próprio Sade esforçou-se, mas foi incapaz de inventar algo pior, e nenhum tirano moderno sequer tentou. A morte é uma misericórdia totalmente ausente nesse caso. A tortura sem limites abate-se indiscriminadamente sobre os bebês não batizados, os príncipes nobres e os gângsteres brutais — e seu autor é o Criador que tendemos a reverenciar.

A doutrina é a lógica da onipotência enlouquecida. O Criador é todo-poderoso? Mas é claro. Então Ele pode fazer o que quiser? É justamente esse o significado do poder. Ele pode quebrar todas as leis? Bem, Ele as criou. As leis da razão? Deveríamos julgá-lo? As leis da justiça? Idem, a mesma coisa. Qualquer justiça? Se Ele assim decidir. Nenhum passo admite exceções, até sermos conduzidos a um sistema engasgado com um mal tão inescrutável, que nos voltamos para as visões modernas de mundo em busca de alívio. A simples aleatoriedade será uma trégua.

É justamente a aleatoriedade da culpa e da punição, junto com a presença do bem assim como do mal, que cria os problemas filosóficos. Pois até Bayle sabe que a vida contém algo além de vício e dor. O que confunde é justamente o fato de algumas vezes encontrarmos a virtude e a felicidade. Se toda a humanidade fosse má e infeliz, poderíamos concluir que ela é a criação de uma divindade má e infeliz, que a criou a sua própria imagem e para seu próprio prazer perverso. Se a justiça de tal mundo não estivesse obviamente aparente, seria difícil encontrar alguém que se fosse importar com isso. Mas esse não é o mundo em que vivemos. Bayle diz que é a mistura de felicidade e sofrimento e de maldade e virtude que nos conduz à reflexão e faz o maniqueísmo parecer a visão mais razoável de todas. A imagem de um mundo governado por princípios bons e maus presos a uma luta constante preserva a crença na benevolência de Deus. Longe de ser o Autor do pecado e da infelicidade, Deus está sempre tentando evitá-los. Ele simplesmente é prejudicado pela força de Seu oponente. Se essa visão faz de Deus um enorme e longevo pai, bem-intencionado, mas de ação limitada, ela violenta menos nossa intuição do que outras alternativas. Pode ser difícil reconhecer os limites de Deus, mas é menos assustador do que negar Sua boa vontade. O maniqueísmo pode não explicar a experiência, mas certamente parece refleti-la, sublinhando a inacreditável alternância entre bem e mal que estrutura a vida humana. É improvável que Afonso houvesse murmurado alguma coisa se o mundo não apresentasse nada além de mecanismos imperfeitos. Foi justamente a presença de alguma ordem incomparável, junto com a existência de partes sem pé nem cabeça, que causou sua reclamação. Alguma experiência de compreensão cria expectativa de mais compreensão. Sem dúvida a crença em tal ordem precedeu em muito a ciência moderna. Kant pensava que ela se manifestava na mudança das estações. O fato de flores delicadas sobreviverem a tempestades de inverno deveria bastar para convencer qualquer cético de que o mundo foi projetado por um extraordinário Criador. E mesmo que a chegada da primavera possa se parecer mais com um milagre na Prússia oriental do que no sul da Espanha, ela é um acontecimento capaz de suscitar questionamentos em qualquer lugar.

O espanto natural diante dos pedaços de ordem do mundo fratura a experiência normal. A descontinuidade entre a compreensão e o tatear cego e entre a decência e o horror emoldura a trama de nossas vidas. Assim, conclui Bayle, o maniqueísmo é a resposta mais sensata para a experiência. Consideremos essa conclusão superficialmente. A resposta da razão à experiência é uma exigência de maniqueísmo. A resposta da fé é a afirmação do cristianismo. Em 1697, mesmo na progressista Holanda, onde escrevia Bayle, não é difícil imaginar qual das duas será condenada.

Não é de espantar que Bayle tenha assumido de bom grado a defesa de Afonso. Pois a sugestão suave do monarca era como um pé na porta. Afonso apoiava qualquer alegação de que a razão humana contém mais sentido e ordem em si mesma do que o mundo a sua frente. A crença de Bayle na incompreensibilidade generalizada de todas as coisas usou Afonso como símbolo. Leibniz precisou refutá-lo no esforço de mostrar que o mundo era em princípio transparente. Ele então retomou Afonso 13 anos depois. Bayle argumentara que a razão e todas as provas da experiência condenavam Deus. Qualquer tentativa de conservar a fé não apenas será desprovida de fundamento racional; ela deve positivamente desafiá-lo.

NEIMAN, Susan, O mal no pensamento moderno: uma história alternativa da filosofia. Trad. de Fernanda Abreu. Rio de Janeiro: Difel, 2003.

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