Devemos desconfiar dos doentes: eles têm “caráter”, sabem explorar e aguçar seus rancores. Um dia um doente decidiu nunca mais apertar a mão de uma pessoa sadia. Mas logo descobriu que muitos dos que julgava com saúde não estavam no fundo incólumes. Por que então fazer inimigos baseado em suspeitas apressadas? Evidentemente, ele era mais razoável do que os outros, e tinha mais escrúpulos do que os de sua raça, corja frustrada, insaciável e profética, que deveria ser enclausurada porque quer destruir tudo para impor sua lei. Confiemos as coisas, de preferência, aos normais, os únicos dispostos a deixá-las tal e qual: indiferentes ao passado e ao futuro, limitam-se ao presente e se instalam nele sem nostalgias nem esperanças. Mas quando a saúde fraqueja, só se pensa no paraíso ou no inferno, em reformar em suma: deseja-se reparar o irreparável, melhorar ou demolir a sociedade que se tornou insuportável porque não se consegue mais suportar a si mesmo. Um homem que sofre é um perigo público, um desequilibrado tanto mais temível quanto deve, na maioria das vezes, dissimular seu mal, fonte de sua energia. Não podemos nos exaltar nem desempenhar um papel nesse mundo sem o auxílio de alguma doença, e não existe dinamismo que não seja sinal de miséria fisiológica ou de devastação interior. Quando conhecemos o equilíbrio, não nos apaixonamos por nada, não nos apegamos nem à vida, porque somos a vida; se o equilíbrio se rompe, em vez de identificar-nos com as coisas, só pensamos em subvertê-las ou em modificá-las. O orgulho emana da tensão e da fadiga da consciência, da impossibilidade de existir ingenuamente. Ora, os doentes, nunca ingênuos, substituem o fato pela ideia falsa que fazem dele, de modo que suas percepções, e até seus reflexos, participam de um sistema de obsessões tão imperiosas que não conseguem deixar de codificá-las e infligi-las aos outros, legisladores pérfidos e irascíveis que se dedicam a tornar obrigatórios seus males para atingir aqueles que têm a audácia de não compartilhá-los. Se os homens sãos se mostram mais complacentes, se não têm nenhuma razão para ser intratáveis, é porque ignoram as virtudes explosivas da humilhação. Aquele que a experimentou não a esquecerá jamais, e não descansará até transferi-la para uma obra capaz de perpetuar seus tormentos. Criar é legar seus sofrimentos, é querer que os outros mergulhem neles e os assumam, impregnem-se deles e os revivam. Isso é verdade para um poema e pode ser verdade para o cosmos. Sem a hipótese de um deus febril, obcecado, sujeito a convulsões, embriagado de epilepsia, não poderíamos explicar este universo que em tudo traz as marcas de uma baba original. E adivinhamos a essência desse deus quando nós mesmos experimentamos um tremor semelhante ao que ele deve ter sentido nos momentos em que lutava com o caos. Pensamos nele com tudo o que em nós é contrário à forma ou ao bom-senso, com nossas confusões e nosso delírio; nos aproximamos dele através de súplicas que nos deslocam, pois ele fica próximo de nós toda vez que algo, em nós, se rompe e que, à nossa maneira, também enfrentamos o caos. Teologia sumária? Contemplando esta criação sabotada, como não incriminar seu autor? Como, sobretudo, julgá-lo hábil ou simplesmente destro? Qualquer outro deus teria dado provas de maior competência ou equilíbrio do que ele: para onde quer que se olhe, só existe erro e confusão. É impossível absolvê-lo, mas também é impossível não compreendê-lo. E nós o compreendemos por tudo o que em nós é fragmentário, inacabado, malfeito. Sua empresa carrega os estigmas do provisório, e, no entanto, não foi tempo o que lhe faltou para realizá-la bem. Para nossa desgraça, ele foi inexplicavelmente apressado. Por uma ingratidão legítima, e para que sinta nosso mau humor, nos esforçamos – peritos em anti-Criação – para deteriorar seu edifício, para tornar ainda mais miserável uma obra já comprometida desde seu início. Sem dúvida, seria mais sensato e mais elegante não tocar nela, deixá-la tal e qual, não vingar-nos nela das incapacidades de seu Criador; mas como ele nos transmitiu seus defeitos, não temos por que ter consideração com Ele. Se, em última instância, O preferimos aos homens, isso não O coloca a salvo de nossos maus humores. Talvez só tenhamos concebido Deus para justificar e regenerar nossas revoltas, para dar-lhes um objeto digno, para impedir que se extenuem e se aviltem, realçando-as pelo abuso revigorante do sacrilégio, réplica às seduções e aos argumentos do desânimo. Jamais nos desembaraçamos de Deus. Tratá-Lo de igual para igual, como inimigo, é uma impertinência que fortifica, que estimula, e são dignos de lástima aqueles a quem Ele não irrita mais. Que sorte, em compensação, poder – sem cerimônia – responsabilizá-Lo por todas as nossas misérias, humilhá-Lo e injuriá-Lo, não perdoá-Lo em momento algum, nem sequer em nossas orações!

CIORAN, E. M., História e utopia. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

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