“O peso da tristeza” (Emil Cioran)

Existirão outras tristezas além das tristezas de morte? Não, pois as verdadeiras tristezas são negras, desprovidas de graça e de sonho, dotadas de uma reflexividade bizarra. O cansaço causado pela tristeza é incomparavelmente maior que aquele causado pela melancolia: é um cansaço que conduz ao desgosto pela vida, a uma depressão terrível e irremediável. O que diferencia a tristeza da dor é o predomínio do elemento reflexivo na primeira, ao passo que na segunda predomina a sensação, a materialidade pesada e fatal, que impregna a dor de um caráter orgânico. A tristeza e a dor só podem levar à morte, jamais ao amor ou à exaltação erótica. Viver os valores de Eros significa diretamente, na vida imediata, na necessidade secreta da vida, que é percebida como liberdade devido à ingenuidade essencial de toda experiência erótica. Ser triste e sofrer, porém, significa não poder viver diretamente, não ser capaz de um gesto imanente de vida, de uma ação associada ao fluxo da vida numa participação orgânica. A tristeza, assim como o sofrimento, revela-nos a existência, pois com ela nos conscientizamos da nossa separação do mundo objetivo e da inquietude que empresta um caráter trágico à existência. Se houvesse um deus da tristeza, ele não poderia deixar de ter asas negras e pesadas para voar não na direção dos céus, mas na do inferno.

CIORAN, Emil, Nos cumes do desespero. Trad. de Fernando Klabin. São Paulo: Hedra, 2011.

Sugestões? Críticas? Contribuições? Deixe aqui o seu comentário:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s