“Crítica de um certo uso das filosofias de Nietzsche, Marx e Freud” (Clément Rosset)

Numa obra que, de certo modo, anunciava na França o verdadeiro início dos estudos nietzscheanos, Georges Bataille desenvolve o tema seguinte: Nietzsche teria sido o primeiro filósofo a fundar uma filosofia sobre o “não-sentido”, ou o acaso, libertando sua representação do mundo de todo pensamento racionalizante, finalista ou teológico. A este primeiro erro histórico (tais visões não tendo de modo algum sido inauguradas por Nietzsche) sucede um contra-senso ao mesmo tempo mais grosseiro e mais revelador da habitual incapacidade daqueles que falam – os “intelectuais” — em dar a palavra ao trágico: a afirmação do não-sentido constitui, aos olhos de Bataille, uma “‘experiência tão desarmante” que ela não poderia ser tentada senão por um brilhante solitário de nosso tempo”. Em outros termos: o saber trágico é o apanágio de alguns intelectuais particularmente brilhantes. Visão superficial, e popular, daquilo que “sabe” e daquilo que “não sabe” o popular. Sobre esse ponto, a situação é bem precisamente o contrário: o saber trágico é o apanágio da humanidade inteira, com a única exceção de alguns intelectuais particularmente brilhantes, como Bataille. Os pontos-de-vista populares sobre o mundo são de maneira geral centrados sobre idéias de desordem, de acaso, de uma absurdidade, inerente à toda existência, que a expressão “é a vida” resume em todas as línguas e em todas as épocas; em contrapartida, a idéia de que o mundo está submetido a uma qualquer “razão” ou ordem não é o apanágio senão de um pequeníssimo número de homens, filósofos, cientistas, teólogos, cuja cegueira não é a de se crerem autorizados em afirmar uma ordem, mas antes de pensar que esta afirmação tem uma influência profunda sobre os pontos-de-vista do “popular”. Objetar-se-á que um tal saber trágico, se ele é decerto o patrimônio universal da humanidade (à exceção dos “brilhantes solitários), quase nunca se manifesta; e ter-se-á razão. Mas quem alguma vez pretendeu que o saber dos homens devia medir-se em relação àquilo que dizem ou escrevem? Fantasma de intelectual, contra o qual seria fácil invocar o testemunho de Freud, assim como aquele de Nietzsche e de Marx.

O que autoriza muitos pensadores contemporâneos a negar, como Bataille, a universalidade do saber trágico é o fato de que o trágico não fala, ou quase não fala. Conclui-se daí que não há “consciência” trágica — pelo menos naquele que não fala,trágico: ou seja em quase todos os homens. Esta concepção superficial, que encontra numerosos ecos na filosofia contemporânea, resulta de uma assimilação, ou antes de uma confusão (esta assimilação não sendo, precisamente, “pensada” enquanto tal), entre o não falado e o não pensado — por vezes batizado “impensado”. Há aí uma utilização fraudulenta do conceito freudiano de inconsciente que resulta numa representação simplista das relações entre o silêncio e a fala, na qual se imagina mecanicamente que todo pensamento vem à fala e que, reciprocamente, toda não-fala significa necessariamente um não-pensamento. Considera-se assim que tudo o que não “é “dito” pelo neurótico, pelo capitalista ideólogo, pelo pensador espiritualista ou teólogo corresponde a um “branco” no pensamento daquele que fala, do qual se estudarão assim as numerosas e significativas “síncopes”: Louis Althusser especializou-se nesta tarefa de detecção dos “brancos” do discurso ideológico, arrastando consigo uma plêiade de jovens neomarxistas, neonietzscheanos, e neofreudianos. Era isto confundir o não-dito e o não-pensado: assimilação sumária que teriam desautorizado tanto Nietzsche quanto Marx e Freud, dos quais ela toma o exato oposto metodológico, uma vez que ela procede de uma fé ideológica no valor das idéias tais quais se exprimem, considera que o “dito” é, aos olhos daquele que fala, uma formulação exata e exaustiva daquilo que ele é capaz de “pensar”, ou seja, de se representar de uma maneira qualquer. Esquema simples e fácil, de um manejo universitário bastante frutuoso, mas que tem o inconveniente de não levar em consideração a existência dos “pensamentos” que “não falam” — estes bem numerosos. Sem dúvida o não-dito, que não se confunde com o “impensado”, tampouco se confunde exatamente com o “pensado”: o neurótico não pensa exatamente sua neurose no sentido em que ele é capaz de pensar aquilo que sabe igualmente exprimir. Mas esse caráter provisoriamente inexprimível não se confunde de modo algum com o inconsciente. O que falta ao neurótico é uma disponibilidade que lhe permitiria servir-se daquilo que pensa para falá-lo: ele pensa, mas não pode falar sua obsessão. Falando-a, ele estaria curado: e o próprio da cura é precisamente levar o conteúdo recalcado não tanto à consciência (onde ele figura, na maior parte dos casos, num lugar já suficientemente bom), quanto à fala.

ROSSET, Clément, Lógica do pior. Trad. de Fernando J. Fagundes Ribeiro e Ivana Bentes. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989.