Desejo acentuar aqui, no início, minha própria convicção de que é infrutífero literalizar ou descartar a experiência espiritual — antiga, medieval ou contemporânea. Essa convicção é pragmática, e sigo William James no reconhecer as experiências religiosas importantes como autênticas diferenças: uma das outras e entre nós. Para muitos dos antigos, os fenômenos dos anjos, sonhos e viagens ao outro mundo ou manifestações do corpo astral eram em essência a mesma coisa, porque o que nós chamamos hoje de psicologia e cosmologia eram também uma só coisa. Grande parte do que agora chamamos ciência é mero cientificismo que, em sua versão fins do século 19, deformou aspectos das especulações de Freud, sobretudo em relação à natureza dos sonhos. No extremo limite da física de hoje, uma demarcação em perpétua evanecência, abundam as especulações de que o cientificismo do século 19 teria sido descartado como místico. Fascina-me o fato de grande parte de nosso mistério atual, à medida que se aproxima o milênio, repetir em nível popular as convicções e imagens de sábios sofisticados e esotéricos, que nos iluminam mais do que podemos nós iluminá-las. Henry Corbin, o grande estudioso do Islã iraniano, sobretudo dos sufistas xiitas, deplorava o fosso ocidental entre a percepção dos sentidos, com seus dados empíricos, e as intuições ou categorias do intelecto. A imaginação poética, na tradição ocidental pós-iluminismo, atua nesse vazio, mas a maioria de nós vê os produtos dessa imaginação apenas como ficções ou mitos. Corbin, eloquentemente, exortava outra coisa:

Por isso não resta esperança de recuperar a realidade sui generis de um mundo supra-sensível, que não é nem o mundo empírico dos sentidos, nem o mundo abstrato do intelecto. Além disso, já há muito tempo nos tem parecido radicalmente impossível redescobrir a realidade de fato — diríamos a realidade no ato — própria daquele “Mundo Angélico”, uma realidade prescrita em Ser ela mesma, não de alguma forma um mito dependente de infra-estruturas políticas ou socioeconômicas. É impossível penetrar, como penetramos num mundo real, no universo da angeologia zoroastriana… e o mesmo diríamos das angelofanias da Bíblia.
Spiritual Body and Celestial Earth [Corpo espiritual e Terra celestial]

Do ponto de vista de Corbin, seguindo os sábios, o próprio sentido literal ou empírico é uma metáfora para a ausência de visão, o que me parece, pragmaticamente, bastante verdadeiro. Entre o mundo sensório e o intelectual, os sábios sempre sentiram um reino intermediário, semelhante ao que chamamos de imaginações de poetas. Se somos um crente religioso, normativo ou heterodoxo, esse reino do meio é sentido como uma presença do divino em nossa vida diária. Se somos mais céticos, essa presença é basicamente estética, ou talvez uma espécie de perspectivismo. Neste livro, a esfera entre as realidades literal e intelectual toma seu nome tradicional de reino angélico, e como tal é descrita e analisada. Os anjos, no sentido judaico, cristão e islâmico, raramente aparecem na Bíblia hebraica, e mal desempenham papéis independentes ate o bem tardio Livro de Daniel, escrito por volta de 165 A.E.C. [Antes da Era Comum], no tempo da revolta macabéia contra os sírio-helenos. Na mais antiga narrativa bíblica, do Javista ou J do século 10 A.E.C., a maioria dos anjos não passam de delegados do próprio Javé, e provavelmente foram acrescentados pelo redatora da época do Retorno da Babilônia ou logo depois. Há um sarcástico adágio talmúdico que diz: “Os nomes dos anjos vieram da Babilônia”, e eu suspeito que não só os nomes vieram do leste do Jordão.

BLOOM, Harold, Presságios do milênio: anjos, sonhos e imortalidade. Trad. de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 1996.

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