“Primeiro passo para a libertação” (E.M. Cioran)

Para fazermos uma experiência essencial, para nos emanciparmos das aparências, não é necessário, de maneira alguma, colocarmos a nós próprios grandes problemas; qualquer pessoa pode dissertar acerca de Deus ou exibir um verniz metafísico. As leituras, as conversas, a ociosidade asseguram-no. Nada mais banal do que um falso espírito inquieto; porque tudo se aprende, mesmo a inquietação.

No entanto, o verdadeiro inquieto, o inquieto por natureza, não deixa de existir. Reconhecê-lo-emos pela maneira como reage perante as palavras. Descobre a carência que lhes é própria? O seu falhanço começa por fazê-lo sofrer e depois regozijar-se? Achamo-nos, sem dúvida, em presença de um espírito liberto ou em vias de se libertar.

Uma vez que são as palavras que nos ligam às coisas, não poderíamos desprender-nos das coisas sem antes nos desprendermos das palavras. Quem se apoia nelas, ainda que se encontre no topo de todas as sabedorias, continua presa da servidão e da ignorância. Em contrapartida, aproxima-se da libertação quem se revolta contra elas ou delas se afasta com horror. Este horror não se aprende nem se transmite: prepara-se no mais fundo de nós próprios. Um pobre transtornado que, através das suas perturbações, chega a experimentá-lo, está mais próximo do verdadeiro saber, mais “liberto”, do que um filósofo incapaz de o sentir. É que a filosofia, longe de eliminar o essencial, assume-o e compraz-se nele: não tenderão todos os seus esforços a impedir-nos de nos apercebermos da dupla nulidade da palavra e do mundo?

Por muito perto que estejamos do Paraíso, a ironia vem afastar-nos dele. “Inépcias”, diz-nos ela, “as vossas ideias de felicidade imemorial ou futura. Curai-vos das vossas nostalgias, da obsessão pueril do começo e do fim dos tempos. A eternidade, duração morta, só aos débeis interessa. Deixai vir o instante, deixai-o absorver os vossos sonhos.”

Voltamos os olhos para o saber? Este assinala-nos a sua inanidade e o seu ridículo: “Para quê degradar as coisas em problemas?” Os vossos conhecimentos anulam-se uns aos outros, o mais recente em nada leva a melhor sobre o anterior. Confinados no já sabido, não tendes outra substância senão a das palavras: o pensamento não adere ao ser.”

E quando, cheio de espanto, pensamos em certo monge hindu que, ao longo de noventa anos, se deteve numa meditação, com a cara voltada para a parede, a ironia intervém de novo para nos ensinar que, ao cabo de tanto esforço, esse monge nunca descobriu o nada por onde começara! “Olhai”, insinua ela, “como são cómicas as aventuras do espírito. Afastai-vos dele em proveito das aparências. Mas não procureis por detrás delas qualquer  fundo, qualquer segredo. Guardai-vos de escavar a ilusão, de atentar contra a única realidade.”

Usando sempre esta linguagem, habituamo-nos a ela, não sem comprometer as nossas experiências metafísicas e os modelos que nos convidavam a tentá-las. Depois, basta-lhe agravar-se através do humor, para nos excluir para sempre desse futuro fora do tempo que é o absoluto.

CIORAN, E. M., A tentação de existir. Trad. de Miguel Serras Pereira e Ana Luisa Faria. Lisboa: Relógio D’Agua, 1988.

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