Eros, beleza e pensamento musical: O Livro das Ilusões, de Emil Cioran

Que ninguém esqueça:

Que só o Eros pode preencher uma vida; o conhecimento nunca. Unicamente o Eros lhe dá um conteúdo; o conhecimento é infinitude oca; para pensar sempre há tempo; a vida tem seu tempo; nenhum pensamento vem demasiado tarde; todo desejo pode converter-se em pesar.

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A impossibilidade de crer nos substitutos da vida: Deus, espírito, cultura, moral, de atribuir o menor crédito à História.

O ardente desejo da solidão e o medo da solidão, o desejo absoluto de ser único e o amor apaixonado da vida. O ato mais insignificante realizado em plena vida parece, às vezes, mais importante que uma grande missão na solidão. Covardia ou veneração? A impossibilidade de não dar crédito às ilusões da vida.

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Toda minha vida é um batismo de sombras. Seus beijos me tornaram maduro para a obscuridade e para a tristeza.

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É possível que a vida tenha sido imortal antes de haver concedido tantos privilégios ao espírito. Este se apropriou das reservas de eternidade da vida, de maneira que, posteriormente, terá de pagar muito caro esse roubo. O castigo do espírito é um castigo ao homem. Prometeu se acorrentou só para obter por meio da penitência o perdão da vida.

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Me dilacera tudo o que é e o que não é. As coisas me pedem que as console ou sou eu que peço a elas que me consolem?

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Resistir a qualquer verdade…

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Esse temor que engendra pensamentos e o medo dos pensamentos…

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Rembrandt me ensinou que existe pouca luz no homem. O retrato rembrandtiano esgota todos os seus recursos luminosos; mais, não há. E a própria luz parece o reflexo interior de uma luz que morre em algum lugar ao longe. O claro-escuro de Rembrandt não deriva da aproximação da claridade e da obscuridade, mas da ilusão da luz e do infinito da sombra. Rembrandt me ensinou que o mundo nasce da sombra…

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Separar-se do mundo com elegância; dar perfil e graça à tristeza; ter um estilo só teu; marchar no compasso das lembranças; ir passo a passo na direção do impalpável; respirar nos limites vacilantes das coisas; o passado renascido em uma inundação de aromas; o odor, pelo qual vencemos o tempo; o contorno das coisas invisíveis; as formas do imaterial; fundir-te no intangível; apalpar o mundo que flutua no perfume; diálogo aéreo e dissolução em voo; banhar-te em teu próprio reflexo…

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Separar-se do mundo como união com o eu… Quem pode fazê-lo de tal maneira que esteja tão longe de si mesmo quanto do mundo? Deslocar o centro da natureza ao indivíduo e do indivíduo a Deus. Eis o final da grande separação…

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O medo de encontrar-nos com nós mesmos… (A fonte de todos os medos.)

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Há belezas para as quais não fomos feitos e que são demasiado plenas e definitivas para as oscilações de nossa alma; há belezas que nos ferem. Tantas noites silenciosas que não merecemos, céus de cuja distância não somos dignos e silhuetas de árvores sobre o azul fantasmagórico dos entardeceres, quando buscamos nossa sombra como uma presença e um consolo…

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Os odores nos tiram do espaço. O perfume dissolve o espaço no tempo. As rosas têm tanta influência sobre nós quanto a música. As sensações olfativas nos conduzem mais perto de nosso tempo que qualquer outra sensação. Desenterram os esquecimentos e dão vida às lembranças. E, desta maneira, vencem também o tempo.

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Só morrem os pensamentos que brotam ocasionalmente. Os outros levamos conosco sem sabê-lo. Eles se abandonaram ao esquecimento para acompanhar-nos sempre.

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Quando o homem puder falar das ilusões como das realidades, estará salvo. Quando tudo for para ele igualmente essencial e ele for igual a tudo, então deixará de entender o mito de Prometeu.

CIORAN, Emil, O Livro das Ilusões. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.