“Jean Baudrillard, sofista pós-moderno” (Francisco Rüdiger)

Correio do Povo, 4 de março de 2017

Professor fala da trajetória do pensador francês e da sua inclassificabilidade pela área do pensar

Sabe-se que a partir da era burguesa, século 18, tentou-se com a formação cultural e as virtudes civis preencher a função que a religião perdera como meio de regramento das relações humanas e princípio de instituição da pessoa. Sinais todavia não faltam de que, onde a modernidade se impôs, este tempo passou. Vive-se agora, no Ocidente, em meio à sociedade predominantemente individualista, na qual o egoísmo e o desejo de poder atomizados se apoderaram dos relacionamentos, e a moralidade cada vez mais assume a forma do cinismo mesquinho e narcisista.

Jean Baudrillard granjeou fama nos círculos intelectualizados como teórico do que, para fazer critica da cultura, ele chamou de simulacros. Para nós, é outra a perspectiva — sua obra importa na medida em que mostra o espanto e originalidade com que se pode reagir moralmente à época que se tornou a nossa. A relevância não está em suas teorias, mas na maneira ao mesmo tempo provocadora e sem ressentimento como ela elabora o desgosto, a decepção que é, para a consciência moral desiludida, ciente de seu anacronismo, o fracasso de nossa espécie em concretizar seus maiores ideais.

Destino do autor parece ter sido pensar, mas isso ele só o conseguiu com originalidade porque desenvolveu a arte de escrever do modo único com que alguém se torna Jean Baudrillard. Rara é a linha de sua obra cujo sentido não seja ficcional, mas também não seja impactante e genial. Quase não há sentença que não seja especulativa, mas fora a que um acadêmico, reunindo e articulando esboços, poderia desenhar, nelas todas não se elabora ou transmite nenhuma filosofia.

Baudrillard foi destes homens cujo brilhantismo intelectual nos impede de enquadrá-los nas categorias mais usuais. Apesar dos títulos e classificações, não foi sociólogo, muito menos filósofo, como indica sua rejeição pelos porta-vozes das categorias. Na verdade, o autor conheceu um só ofício: escrever; e não desenvolveu mais que uma vocação: pensar. Numa época de indigência espiritual, poucos foram, nesse sentido, tão criativos. Paradoxalmente, no entanto, ele não foi o que se toma normalmente por filósofo.

Amparando-se vagamente em Mauss, Bataille, Cioran e outros, ele remeteu suas análises à noção essencialmente esotérica e idiossincrática de “ordem simbólica”, sem contudo chegar a propor a devida teoria, porque, em sua obra, tudo é ideia, mas não há um sistema de pensamento. As pretensões iniciais em elaborar uma sociologia do consumo ou desenvolver teoria crítica do signo social não foram longe. Em tudo o que o autor escreveu sobre o simulacro, há pouco ou nada, fora a radicalização da tese e a novidade do jargão, que vá além do que, sobre o espetáculo, já nos dissera seu rival Guy Debord.

Significa que, em Baudrillard, toda a força está na retórica. O luxo da escrita esconde as deficiências de argumentação. São muito poucos os textos que resistem à análise mais superficial. O fato, porém, não significa que sua obra seja irrelevante ou que não devamos retornar a seus pensamentos. Após deixar a Universidade, Zygmunt Bauman se tornou guru da classe média intelectualizada de todo o mundo requentando em banho-maria ideias que, anunciadas genialmente por Marx, fizeram a fama de Simmel no início do século 20. Alcançou popularidade, afirmando de modo gasoso o que seus leitores desejavam ouvir, em vez de tentar jogá-los na dúvida e pô-los a refletir… [PDF]

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