“Epitáfio” (E.M. Cioran)

“Teve o orgulho de jamais mandar, de não dispor de nada nem de ninguém. Sem subalternos, sem amos, não deu nem recebeu ordens. Excluído do império das leis, e como se fosse anterior ao bem e ao mal, nunca fez ninguém padecer. Em sua memória apagaram-se os nomes das coisas; olhava sem perceber, escutava sem ouvir: os perfumes e aromas se desvaneciam ao aproximar-se de suas narinas e de seu paladar. Seus sentidos e seus desejos foram seus únicos escravos: de tal modo que mal sentiram, mal desejaram. Esqueceu felicidade e infelicidade, sede e temores; e se em alguma ocasião tornava a lembrar-se deles, desdenhava nomeá-los e rebaixar-se assim à esperança ou à nostalgia. O gesto mais ínfimo custava-lhe mais esforços que os que custam a outros fundar ou derrubar um império. Nascido cansado de nascer, se quis sombra: quando viveu então? E por culpa de qual nascimento? E se portou seu sudário em vida, por que milagre conseguiu morrer?”

CIORAN, E. M., Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

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