Dissertação de mestrado sobre Cioran: “O conceito de disciplina de horror no Breviário”, de Anthonio Delbon

Segunda-feira passada, fui pego de surpresa com uma mensagem do professor Flamarion Caldeira Ramos, avisando-me sobre uma defesa de mestrado sobre Cioran: “O conceito de disciplina de horror no Breviário de Decomposição”. Pelo nome do mestrando, dei-me conta de que o conhecia, embora (até então) não pessoalmente. Então, tratei de cancelar meus afazeres para, em plena segunda-feira chuvosa (dia tão “cioraniano”, diriam alguns, não sem cliché), dar um pulo na PUC-SP e assistir à defesa de Anthonio Delbon. Cioraniano sunt; nihil cioraniani a me alienum puto

A dissertação, orientada pela professora Jeanne-Marie Gagnebin (que também me orientou no doutorado), a examinar a concorrência entre o cinismo de Diógenes e o ceticismo de Pirro no pensamento de Cioran, preza pela brevidade, pela leve — e irônica — escrita e pela virtude de um recorte “modesto”: um único livro, o Breviário, como objeto de análise (o que me parece bastante justo, a despeito da minha compulsão pelo todo). Cada livro de Cioran, sempre fragmentário, insular e “autossuficiente” do ponto de vista estético, é um universo em si a merecer atenção exclusiva. O Breviário, então, ainda mais…

Enfim, mais um estudo acadêmico sobre Cioran. E o Autor agradece — ele, que dizia ser contra as teses acadêmicas e, ao mesmo tempo, as estimulava, sugerindo inclusive títulos e subtítulos (vide “Do anti-sistema”, no caso de Savater). Dissequemos Cioran, torturemo-lo (uma doce traição). Aproveitei para pedir que Anthonio respondesse algumas perguntas, a título de entrevista ou diálogo cioraniano. Abaixo, o resumo da dissertação, e, em seguida, a pequena entrevista com o seu autor.

Rodrigo Inácio R. Sá Menezes

*

RESUMO – O presente trabalho tem por objetivo estabelecer um diálogo entre Cioran e algumas correntes de pensamento clássicas tendo como chave central o termo “disciplina de horror”, utilizado pelo autor no início de sua primeira obra em língua francesa, Breviário de Decomposição, publicado em 1949. Partindo deste trecho literário, buscaremos ampliar as aproximações e diferenças entre Cioran e autores filosóficos de verve semelhante, para além das comparações já tradicionais com o pessimismo schopenhaueriano e com o niilismo nietzscheano. Do estofo do conteúdo proposto à forma de discurso e linguagem empregada, as conversas possíveis de se estabelecerem tendo como alicerce essa disciplina de horror, que nada mais é do que uma meditação sobre a podridão e vaidade da natureza humana, conseguem trazer ao cenário o aspecto trágico do pensamento de Cioran que perpassa, necessariamente, o cinismo e o ceticismo clássicos, aqui explorados tendo em vista uma ampliação do estudo sobre Cioran, notando até que ponto Diógenes e Pirro o influenciaram e até que ponto as suas peculiaridades o afastam da tranquilidade visada por tais filosofias do período helenístico.
Palavras-chave: Cioran, Tragédia, Niilismo, Cinismo, Ceticismo, Romantismo

*

ENTREVISTA

Portal E.M.Cioran/Br: Anthonio, você acaba de titular-se Mestre em Filosofia com uma dissertação sobre “o conceito de disciplina de horror no Breviário de Decomposição”. Você poderia comentar, e se possível sintetizar, a sua pesquisa sobre Cioran (o recorte temático, o argumento, a tese central defendida)?

A.D.: Claro, Rodrigo, é um prazer. Este título longo e ridículo foi o modo como consegui trazer Cioran à academia. É nada mais do que um gracejo – porco, alguns dirão – posto que falar de conceito em Cioran é uma palhaçada. Eu uso da ironia kierkegaardiana (O Conceito de Angústia) para puxar essa expressão do início do Breviário, quando Cioran comenta as “Variações sobre a morte”. Como o próprio diz, a disciplina de horror é uma espécie de meditação sobre nossa podridão que nos reduz às cinzas. Se preferir, trata-se de uma dissecação da nossa miséria ontológica só possível quando se imerge no pensamento sobre a morte (ou na obsessão por ela), sendo ela o ponto capaz de escancarar o vazio que nos constitui. Partindo deste ponto, que me parece ser o da vaidade – como negação deste vazio – eu me atenho ao Breviário e às entrevistas de Cioran para mostrar como o exercício da disciplina de horror é um convite à encarar essa condição disjuntiva da nossa natureza insuficiente, trazendo ao jogo o cinismo de Diógenes e o ceticismo de Pirro como pontos de apoio para ler Cioran – e mais alguns outros que trago para evitar a tentação diletante de citar Cioran a cada parágrafo.

Portal E.M.Cioran/Br: Como você descobriu a obra de Cioran, e o que o atraiu a ela?

A.D.: Foi em alguma coluna do professor Pondé na Folha, há alguns anos…2015, salvo engano. Já estava há um ano na graduação de filosofia, onde vi, basicamente, três autores: Nietzsche, Heidegger e Kierkegaard (sem contar Foucault e Deleuze, onipresentes na PUC-SP). Aquela angústia kierkegaardiana, como vertigem em face do abismo, me pegou de jeito, mas Kierkegaard, como diz Noica, escreve sobre tudo, mas de forma demasiadamente insípida. Para além da academia, que é o que realmente importa, certas quedas pessoais e um crescente senso de responsabilidade acabaram me levando à exploração de pensadores com verve semelhante aos que tinha conhecido na faculdade. O texto do Pondé abordava o pessimismo e a esperança, grosso modo. Logo comprei os livros traduzidos por aqui e me apaixonei à primeira vista com História e Utopia, primeira obra dele que li, um pouco às tontas, o que fez o percurso filosófico de até então ficar gradualmente mais sem graça, confirmando algumas intuições de inicio de curso que não conseguia expressar muito bem: carreirismos universitários rasteiros  e buscas pouco elegantes para se entrar em clubes do bolinha – bregas e cafonas – não eram o que eu esperava em um curso de filosofia.

Portal E.M.Cioran/Br: Com que dificuldades e desafios você se deparou no percurso de estudo e escrita da sua pesquisa acadêmica sobre Cioran? Que conselhos daria para os estudantes de filosofia ou de outros cursos que pensam em fazer de Cioran um objeto de estudo acadêmico?

A.D.: Foram algumas. Eu passo minha introdução inteira rodando em cima do contrassenso que é escrever sobre Cioran de modo acadêmico e concluo duas coisas: a primeira, que abre minha dissertação, é a de que Cioran precisa mais de tradução e menos de explicação – eu realmente acho péssimo a inflação de comentário, como diz George Steiner. A segunda é a de que minha introdução basta. Em alguma dose, vá ler Cioran e me esqueça! Eu confesso meu despreparo ao começar o mestrado e, evidentemente, a minha boa dose de ambição e vaidade, a mesma que exerço em dia na presente entrevista. Meu conselho seria neste sentido: vá ler Cioran e esqueça, por um segundo, que existem faculdades e programas de pesquisa e pós-graduação. Deixe-se ser engolido. Se sua tentação de escrever sobre ele não passar, escreva, esgote-se. E se sua tentação de escrever sobre ele academicamente também não passar, gargalhe e vá para a academia convicto e em busca do máximo de liberdade possível – e, de preferência, encontre um orientador que goste minimamente de Cioran. Tendo escrito e passado por ela, eu senti o cheiro do meu temperamento e vi que preciso me afastar, mesmo agradecendo por esses anos. Também prometi, nas minhas noites mais dramáticas, nunca mais escrever sobre Cioran, como o próprio prometeu nunca mais enegrecer o papel após seu primeiro livro. Mas a comédia continua, por anos a fio…

Uma outra dificuldade, que cito brevemente, foi a de escolher os pensadores para trazer à baila. Meu intuito inicial era fazer uma comparação entre Cioran e Kierkegaard, mas logo desisti. Nietzsche, Pascal e Schopenhauer, são aqueles fan favorites que também parecem imprescindíveis. Ao final, Diógenes e Pirro me soaram como escolhas acertadas, frutíferas para as aproximações e distinções que queria realizar com o tema do trabalho – sem aquele drama nietzscheano que carrega consigo muita poeira, nem aquela necessária distinção de Cioran com o niilismo que, confesso, me cansa.

Portal E.M.Cioran/Br: Existencialismo, pessimismo metafísico, niilismo, ceticismo, cinismo, gnosticismo, pensamento trágico… como você interpreta Cioran em meio a tantas classificações normalmente empregadas para defini-lo, e muitas vezes contraditórias entre si?

A.D.: Ao falar do cinismo e do ceticismo, especificamente, eu busquei inicialmente aproximá-lo – o que teve lá suas facilidades – para depois distingui-lo seja da militância e do ardoroso e violento gesto cínico de Diógenes, seja da utópica serenidade da vida pirrônica. Essas etiquetas só atrapalham…mas a discussão tem de começar em algum lugar. Politicamente, por exemplo, há quem reclame dos termos Direita e Esquerda usados a esmo nas mídias sociais. Ok, concordo que haja um uso chulo, mas querer se afastar de toda e qualquer etiqueta é ser mais realista que o rei. Cioran não é cínico nem cético, mas o Cão Celestial é uma ode a Diógenes e Pirro é invejado conforme o Breviário nos diz. Cioran não é niilista, pois o “nada” é um projeto demasiadamente festivo e bobo ao seu olhar, mas se alguém me pergunta de passagem onde Cioran se encaixa na tradição filosófica e me dá vinte segundos de resposta, eu falo niilista com ressalvas religiosas, embaralho a cabeça do meu colega e pouco me importo. Cioran não é um gnóstico moderninho – talvez Eric Voegelin discordasse – nem muito menos existencialista – Sartre era um empreendedor de ideias, Heidegger, um picareta e Camus, um esnobe – , mas bem que essa obsessão pela morte conversa com todos eles.

Particularmente, acho uma delícia caçar esses “ismos” e ver até que ponto Cioran caminha em cada um deles, mas sem aquela paranoia de evitar a todo custo a contradição. O fragmento e o aforismo de Cioran são a definição de contradição, ele nos diz expressamente que é preciso aceitar a contradição e não há mal nisso, como também não há mal em dissecar as contradições aparentes e dedicar uma vida a entender do que se trata sua religiosidade e o problema da salvação/redenção, chave-mestra, ao meu ver, de uma compreensão minimamente firme do seu pensamento. Herdeiro dos bogomilos gnósticos, místico sem fé, admirador dos santos…ele também anda em um cenário extremamente trágico, mas não absolutamente trágico como quer Steiner. Seu lado cômico é brutal. E “metafísica e senso de ridículo” podem até ser incompatíveis, mas quem disse que Cioran tinha um senso de ridículo tão apurado assim ao ouvir Bach, a quem Deus deve tudo?

Portal E.M.Cioran/Br: Como você avalia a importância de uma obra como a de Cioran no mundo contemporâneo?

A.D.: Cioran fala de vaidade e vaidade nunca sai de moda. Ele a disseca, para dizer com todas as letras, com constantes referências religiosas que enjoam quem hoje se diz pensador sério. O problema, ao meu ver, é que a vaidade tomou roupas mais marqueteiras e laicas, da ideologia à autoajuda, do racionalismo positivista anacrônico ao estetismo mais mané que impedem um enfoque incisivo como faz Cioran, sem concessões ao uso light da vaidade como ponto edificante do espírito. Aquela coisa de tratar a filosofia, a literatura e a política como doenças é a brecha perfeita para ser tido, como minha orientadora resolveu me dizer já na qualificação, como um chato. Um homem conservador, pouco afeito à política como projeto, o olhará de soslaio por seu viés demoníaco, negador, colocando-o ao saco de gatos do niilismo chinfrim anti-cristão e desordeiro. Um outro politicamente engajado, militante, o levantará como bandeira exatamente pelo seu lado mais cínico e destruidor, mas o jogará em outro saco de gatos pior quando descobrir seu terrível passado fascista. A importância de Cioran está aí: denunciar a vaidade de ambos – e também a vaidade da denúncia, o que mostra como essa autodestruição não angaria muita gente.

Sua obra é fundamental por falar o óbvio ululante e, devido a isso, faz até sentido ela ser tão pouco bem recebida na academia.

Portal E.M.Cioran/Br: Um aforismo e um livro favoritos de Cioran?

Na parede do meu quarto há apenas uma nota sobre Cioran dizendo “Azeitona”. Diz respeito a uma passagem dos Cahiers em que ele, por sua vez, cita uma passagem do Talmud adorada por Kafka: Nós judeus, como azeitonas, só entregamos o melhor de nós mesmos quando somos esmagados. É engraçado, pois não consigo deixar de sentir surpresa com sua pergunta, mesmo tendo cansado de procurar aforismos de Cioran nesses últimos anos. Garanto-lhe que minha resposta mudaria dependendo do calor e do que comi – e certamente Cioran deve ter alguns aforismos sobre isso também…

Sobre os livros, por mais que eu volte sempre ao Breviário e tenha um carinho especial por História e Utopia, por ter sido meu primeiro contato, eu fico com Lágrimas e Santos. Já me permitindo uma trapaça à sua pergunta, é aqui que santos vivem em chamas; homens sábios, ao lado deles.  Quando descobri que Cioran, miseravelmente posto junto com Nietzsche, Camus e afins meio às tontas, havia se dedicado a um escrito sobre santidade e mística, uma ficha caiu em mim. Entrando em contato, sentindo o ardor com que ele coloca a tensão entre sua paixão e seu ceticismo, sua saudade do absoluto…não havia mais como situá-lo na mesma estante desses outros pensadores, por mais queridos que fossem. Isso sem contar as delícias que Cioran escreve sobre música, dessas que soam oniscientes…Lágrimas e Santos confirmou um despertar que Sob o Sol de Satã, de Bernanos, havia me dado há uns anos. Ambos me ensinaram religião, depois de anos de secagem de espírito. É uma preciosidade que me suscita um sincero sentimento de gratidão.

Deixe aqui suas impressões, comentários e/ou críticas. Deja aquí sus impresiones, comentarios y/o críticas. Leave your impressions, comments and/or critiques here. Laissez ici vos impressions, commentaires et/ou critiques. Lăsați-vă impresiile, comentariile și sau recenziile aici. Lascia qui le sue impressioni, commenti e/o recensioni.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s