Não tem que nos doer a transitoriedade das coisas terrestres ou a inexistência das celestes. Que tudo esteja destinado a perecer, que tudo seja vão e fugaz, que tudo careça absolutamente de valor e consistência, isso só pode provocar desgosto… Mas não pode provocá-lo quando se pensa como em uma existência tão reduzida no tempo e tão limitada no espaço pode caber tantas dores, podem se consumar tantas tragédias e pode surgir tanto desespero. Se a existência individual é tão evanescente como uma ilusão, por que então tantas tristezas, tantas renúncias e tantas lágrimas? Diante desta perplexidade que nos conduz ao desespero, nos vemos forçados a aceitar a irracionalidade da vida sem poder pensar mais além. Também não tem sentido continuar pensando porque não há explicação alguma. Tudo é tão inexplicável que me dói a inutilidade das ideias. A futilidade deste mundo, no qual a dor se afirma como uma realidade, transforma o negativo em lei. Quanto mais ilusória parece a existência do mundo, mais real se torna o sofrimento como compensação. Não há escapatória para o sofrimento enquanto vivamos; mas a morte não é uma solução, porque, resolvendo tudo, não resolve absolutamente nada. Não é possível encontrar para o mundo explicação nem justificação alguma. Que sua fugacidade, sua futilidade e sua inutilidade nos deixem tão insensíveis quanto o fato de que a vida nos tenha sido dada para morrer. Mas saber a cada instante de nossa vida que vamos morrer é o que nos faz mais mal. Quando não se tem consciência da morte, a vida, sem ser uma delícia, tampouco seria um fardo. E passar toda a vida infestado pelo medo da morte é um fardo. Então nos damos conta e nos horrorizamos de que, em uma existência tão reduzida no tempo e tão limitada no espaço possam caber medos tão profundos e tão perigosos. Por que ao homem se deu a vida para temer a morte e por que a vida é tão impura no homem? Por que vivemos para saber que morreremos?

Vejo no homem um tremor da individuação: a insegurança e o medo inerentes à vida que ficou vulnerável através da individuação, uma insegurança e um medo próprios a uma vida que se isola cada vez que se realiza no indivíduo.

Que grande alegria ter vencido por um instante a tristeza, sentir-me vazio até a imaterialidade! Mas não de um vazio vertiginoso e alucinatório, mas de uma vacuidade que me eleve, que me impulsione e me torne tão leve quanto pesado me fez a tristeza.

É preciso estabelecer os métodos de um novo ascetismo que não nos faça voar para Deus, mas para nossas próprias alturas, das quais nos afastou o abismo de nossas tristezas. É absurdo renunciar à comida; mas é igualmente absurdo eliminar a experiência temporal da fome com o que esta comporta de gozo e de imaterialidade. Como no êxtase musical, uma emoção pelas alturas se apodera de nós, a alegria de saber que não existe mais nada além do entusiasmo e da exaltação. Mas, enquanto no êxtase musical uma plenitude interna cresce como um fluxo interior, na fome um vazio nos dilata pela falta de substancia e de resistência, nos anima não com conteúdos mas com espasmos, com tensões nervosas, com um ímpeto absurdo e indefinível. Se a tristeza nos atrai para a terra, para o elemental, material, obscuro e profundo, a imaterialidade da fome nos arremessa para a desordem total, para uma fantasia e um jogo fascinante de planos de uma irresponsabilidade mágica. Que prazer poder estar tão alto que não possamos mais pensar em nada! Que indescritível gozo poder esquecer-se de tudo na embriaguez dos cumes, que encanto sentir-se abandonado pela dor durante essa ascensão! Aí começa a alegria dos que estão tristes: quando não são mais eles, quando esqueceram suas tristezas. Todo o tremor da individuação parece ter transformado a angústia e os tormentos em um tremor extático, cheio de calafrios e gozos, em outra loucura da individuação, cuja alegria só fará com que as tristezas se enraízem mais profundamente.

Uma fome voraz, alimentada por exaltações e visões, isso é o que um ser triste não pode rechaçar como delícia temporária; uma fome que nos faça vencer a atração material, uma fome que nos produza prazeres de voo, prazeres etéreos, solidões leves e aéreas, solidões do voo. É preciso tentar todos os caminhos para não cair derrotados pela dor, pela tristeza e pela doença. E que nossa luta contra eles seja nosso heroísmo.

CIORAN, Emil, O Livro das Ilusões. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

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