“O processo” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Esta manhã acordei de sonhos intranquilos… Sonhava que era um filósofo rodeado de discípulos e tietes, morava no estrangeiro e costumava, nos finais de semana, caçar ursos. Eu era o “pica das galáxias”, inigualável tanto na minha terra quanto universo afora.

Até que um dia um professorzinho de uma universidade qualquer afirmou publicamente que eu não entendia nada de Cioran. Pasme! Fiquei transtornado, quase tive um ataque epilético. Eu espumava pela boca e pelos ouvidos, não conseguia me conter. Abri a gaveta, mirei o revólver carregado de duas balas de prata. Empunhei-o, coloquei-o na boca, mas… desisti, convencido de que não era eu quem merecia morrer.

Resolvi botar no pau o professorzinho que disse que eu não entendia nada de Cioran. Veja só! Não ficaria barato — questionar a minha sacrossanta expertise em matéria de Cioran é caso de polícia! Dinheiro não era o problema. Não que eu fosse rico, mas naquele estranho “sonho de um homem ridículo” eu tinha o sentimento de poder contar com toda a generosidade (e a credulidade) dos meus discípulos — eles sim (milhares!) eram abastados e viviam me agradando com presentinhos e elogiozinhos.

Poderia ser um sonho meu, mas é um delírio real (mais um) do “guru” deste governo, o Filósofo-Olavo-de-Carvalho, que acaba de apresentar uma queixa-crime (!) contra o professor de Filosofia da UFBA, Daniel Tourinho Peres, porque este teria declarado (tese nada original) que o “guru” não manja nada de Kant. Nem de Aristóteles, diria eu. Outros, mais polêmicos, diriam que Olavo não manja nada de Olavo.

Seria kafkiano, não fosse olaviano, demasiado olaviano…

A juíza encarregada do caso, contudo, pediu que o sr. Olavo reescrevesse a sua queixa-crime porque, segundo ela, havia palavras que afrontavam as regras processuais: “delinquente travestido”, “caso de possível esquizofrenia”, “cabeça incauta ou doente”, “narrado pelo idiota”, “apenas discorre o bestial”, “por canalhice própria” e “este desqualificado”, entre outras pérolas poéticas. Vindas de alguém como o Sr. Olavo, é só elogio.

Retificação: “No último dia 20 de março, o advogado de Olavo de Carvalho, Francisco Cabrera, apresentou uma nova queixa-crime com correções. Segundo ele, em conversa com o ideólogo, ‘após o calor das injustas agressões perpetradas pelo réu (Daniel Tourinho Peres)’, resolveu modificar o documento visto que tanto Olavo de Carvalho quanto o advogado são cristãos e ‘nunca tiveram a intenção de ofender terceiros’.” (O Globo, 10/04/2019) E o “cínico” é Cioran.

O Sr. Olavo é um muçulmano disfarçado de cristão, lunático, fanático, conspirador supersticioso que vê fetos na Pepsi e acredita haver um complô comunista mundial não para implantar a Nova Ordem Mundial, mas para persegui-lo e aniquilá-lo e enterrá-lo — sim, trata-se de algo pessoal, afinal, o Sr. Olavo é muitíssimo importante (ele, que publicou um livrinho com o fascista messiânico-eslavófilo Aleksandr Dugin).

Um interessante canal do YouTube (Spotniks) recentemente criou uma seção temática: “Livros para morrer antes ler”. Incluíram Marcia Tiburi (de acordo); eu incluiria todos do Sr. Olavo. Não li e não gostei (preconceito “esclarecido”); não estou (e acredito que ninguém está) perdendo nada (a me fiar pela figura pública, tão ávida de glória, do Sr. Olavo). No Brasil e no mundo, há muita filosofia idônea e de alta qualidade, inclusive à direita, que dispensa a bibliografia olaviana. Antes de formar filósofos e pensadores, o Sr. Olavo reúne (na sua maioria) uma horda de “imbecis coletivos” (leia-se: “digital influencers”) que acham que entenderam tudo (em política, em metafísica) e ganham rios de dinheiro com seus vídeos viralizantes em que aparecem gritando, esperneando, macaqueando o mestre: “Olavo tem razão, talkey?” — bradam eles.

Com Olavos (há um punhado deles no mundo) e olavettes (legião), não se discute; só se pode insultar, vilipendiar, ridicularizar. O Sr. Olavo é o maior engodo, a maior farsa dos últimos tempos. Só os séculos dirão. Cavalo de Troia disfarçado de bom católico, velhaco fanático e sectário (com mais experiência e tempo de vida em seitas do que em universidades), alguém que não busca formar cidadãos e pensadores, apenas angariar discípulos e ser bajulado. Uma mescla de exército e igreja, um cult filosófico-esotérico. E o velhaco se orgulha disso, como se orgulha da sua superestimada popularidade midiática, adquirida não por mérito próprio apenas, mas pelo anticomunismo delirante e conspiratório que soube bem (é preciso reconhecer) explorar. Como bem disse Cioran, “hoje em dia, as consciências só podem exercitar-se em duas formas de revolta: comunista e anticomunista.” (História e Utopia) E pior que um comunista, sabemos, só um anticomunista. Não o acusarei de astrólogo porque não me parece que interessar-se pela astrologia seja necessariamente um defeito. Não duvidemos, contudo, de que ele possui um carisma e uma lábia ímpares: é um grande xavecador — aliás, não foi ele que se converteu ao Islã apenas para dispor de várias mulheres? Quando lhe rasgam elogios, percebe-se imediatamente uma expressão bovina de sorriso amarelo na sua face. Ao lado do Sr. Olavo, Luiz Felipe Pondé é Sócrates.

O Sr. Olavo é uma calamidade pública, o arquétipo do Fanático. Seria interessante recorrer à sociologia de Rodney Stark (Uma teoria da religião, Paulinas, 2008) para ilustrá-lo. Stark desenvolve uma tipologia sociológica a distinguir entre fenômenos de religião, seita e cult (o tão ortodoxo Sr. Olavo oferece-se como o exemplar ideal de um líder de cult ou, na melhor das hipóteses, de seita). Segundo Stark, a religião é um movimento religioso tradicional que se estabeleceu normativamente numa sociedade ao longo do tempo; a seita é um movimento cismático surgido no interior de uma religião, compartilhando com ela muitos princípios e crenças, mas também divergindo radicalmente dela, de modo que mantém-se numa relação de tensão tanto com a religião quanto com a sociedade circundante (de onde o fechamento e o isolamento, a proibição de seus membros de se relacionarem com os outsiders); o cult, por sua vez, tem pouco ou nada em comum com a religião tradicional, caracterizando-se pela inovação mais ou menos radical, por uma (quase) completa originalidade em relação à religião (a Cientologia de Tom Cruise é o perfeito exemplo de um cult).

Sociólogo, Stark não fundamenta a sua teoria em noções teológicas como conversão, graça, milagre, etc., muito embora deva reconhecer que tal é a linguagem dos seus “objetos de estudo”, possuam elas algum “alcance ontológico” ou não. Ele é cético particularmente em relação aos conceitos de “carisma” e “conversão”, fundamentais em se tratando de estudar a psicologia das seitas e dos cults.

Se por um lado o carisma, enquanto conceito, nos alerta para as fascinantes questões de como os indivíduos atraem seguidores e de como legitimam sua liderança, por outro ele pouco explica a capacidade de liderar. A noção de conversão religiosa também pode ser enganosa, caso seja seriamente utilizada como explicação para o comportamento. Ambas as noções derivam diretamente do pensamento religioso, e ambas estão saturadas de conotações mágicas. O carisma não é científico, pois sugere que a pessoa carismática de fato possua poderes super-humanos de liderança e persuasão. A conversão não é científica, uma vez que sugere uma transformação radical, quiçá sobrenatural, na natureza da pessoa que se converte. A noção de conversão pressupõe que um indivíduo mude de modo fundamental ao se juntar a um novo grupo religioso e aponta tipicamente para a ideia de que esta mudança é efetivada diretamente, seja por intervenção divina, seja por uma metamorfose espiritual autógena. (Uma teoria da religião, p. 250).

Stark sugere substituir a noção de “conversão” por “recrutamento”: The Movement wants you! Ora, não se trata de negar cinicamente a autenticidade (intervindo o “sobrenatural” ou não) de toda conversão religiosa. Trata-se apenas de duvidar e desconfiar quando a intuição (o dáimon) assim nos exige. O Sr. Olavo só se converteu verdadeiramente a uma coisa: a ele mesmo. Ou melhor, à imagem idealizada, monumental, totêmica, que ele faz de si. A nada, em todo caso. Pratica um verdadeiro culto à sua pessoa, e não espera menos do vizinho. No Brasil, e quiçá fora, não tem filósofo que preste, só comunista. Apenas ele sabe pensar. Rechaçar as suas ideias é ser imbecil. Ser de esquerda é ser mau-caráter. Ser de direita é ser direito a priori. Mas felizmente, por desígnio dessa Inteligência Cósmica que governa o nosso mundo, podemos respirar aliviados, pois não há nenhuma chance de o Sr. Olavo estar com a razão (em todos os sentidos). Se estivesse, isto significaria que todo o resto da humanidade pensante, à exceção dele e dos seus seguidores, está em erro, engano, “pecado”: tudo comunista, ateu, vagabundo… Se o mundo mostrar-se contrário a Olavo de Carvalho, tanto pior para o mundo.

Leiamos, uma vez mais, essa “Genealogia do fanatismo” de Cioran, que escreve com conhecimento de causa, atacando (pensando) antes de tudo a (contra) si, ele que conheceu bem o fanatismo em sua juventude delirante e febril, mas que teve a nobreza de curar-se pelo recurso à Dúvida, esse exercício de desfascinação. Vacinemo-nos, pois:

Em si mesma, toda ideia é neutra ou deveria sê-lo; mas o homem a anima, projeta nela suas chamas e suas demências; impura, transformada em crença, insere-se no tempo, toma a forma de acontecimento: a passagem da lógica à epilepsia está consumada… Assim nascem as ideologias, as doutrinas e as farsas sangrentas. Idólatras por instinto, convertemos em incondicionados os objetos de nossos sonhos e de nossos interesses. A história não passa de um desfile de falsos Absolutos, uma sucessão de templos elevados a pretextos, um aviltamento do espírito ante o Improvável. Mesmo quando se afasta da religião, o homem permanece submetido a ela; esgotando-se em forjar simulacros de deuses, adota-os depois febrilmente: sua necessidade de ficção, de mitologia, triunfa sobre a evidência e o ridículo. Sua capacidade de adorar é responsável por todos os seus crimes: o que ama indevidamente um deus obriga os outros a amá-lo, na espera de exterminá-los se se recusam. Não há intolerância, intransigência ideológica ou proselitismo que não revelem o fundo bestial do entusiasmo. Que perca o homem sua faculdade de indiferença: torna-se um assassino virtual; que transforme sua ideia em deus: as consequências são incalculáveis. Só se mata em nome de um deus ou de seus sucedâneos: os excessos suscitados pela deusa Razão, pela ideia de nação, de classe ou de raça são parentes dos da Inquisição ou da Reforma. As épocas de fervor se distinguem pelas façanhas sanguinárias. Santa Teresa só podia ser contemporânea dos autos de fé e Lutero do massacre dos camponeses. Nas crises místicas, os gemidos das vítimas são paralelos aos gemidos do êxtase… patíbulos, calabouços e masmorras só prosperam à sombra de uma fé – dessa necessidade de crer que infestou o espírito para sempre. O diabo empalidece comparado a quem dispõe de uma verdade, de sua verdade. Somos injustos com os Neros ou com os Tibérios: eles não inventaram o conceito de herético: foram apenas sonhadores degenerados que se divertiam com os massacres. Os verdadeiros criminosos são os que estabelecem uma ortodoxia no plano religioso ou político, os que distinguem entre o fiel e o cismático.

No momento em que nos recusamos a admitir o caráter intercambiável das ideias, o sangue corre… Sob as resoluções firmes ergue-se um punhal; os olhos inflamados pressagiam o crime. Jamais o espírito hesitante, afligido pelo hamletismo, foi pernicioso: o princípio do mal reside na tensão da vontade, na inaptidão para o quietismo, na megalomania prometeica de uma raça que se arrebenta de tanto ideal, que explode sob suas convicções e que, por haver-se comprazido em depreciar a dúvida e a preguiça – vícios mais nobres do que todas as suas virtudes –, embrenhou-se em uma via de perdição, na história, nesta mescla indecente de banalidade e apocalipse… Nela as certezas abundam: suprima-as e suprimirá sobretudo suas consequências: reconstituirá o paraíso. O que é a Queda senão a busca de uma verdade e a certeza de havê-la encontrado, a paixão por um dogma, o estabelecimento de um dogma? Disso resulta o fanatismo – tara capital que dá ao homem o gosto pela eficácia, pela profecia e pelo terror –, lepra lírica que contamina as almas, as submete, as tritura ou as exalta… Só escapam a ela os céticos (ou os preguiçosos e os estetas), porque não propõem nada, porque – verdadeiros benfeitores da humanidade – destroem os preconceitos e analisam o delírio. Sinto-me mais seguro junto de um Pirro do que de um São Paulo, pela razão de que uma sabedoria de boutades é mais doce do que uma santidade desenfreada. Em um espírito ardente encontramos o animal de rapina disfarçado; não poderíamos defender-nos demasiado das garras de um profeta… Quando elevar a voz, seja em nome do céu, da cidade ou de outros pretextos, afaste-se dele: sátiro de nossa solidão, não perdoa que vivamos aquém de suas verdades e de seus arrebatamentos; quer fazer-nos compartilhar de sua histeria, de seu bem, impô-la a nós e desfigurar-nos. Um ser possuído por uma crença e que não procurasse comunicá-la aos outros é um fenômeno estranho à terra, onde a obsessão da salvação torna a vida irrespirável. Olhe à sua volta: por toda parte larvas que pregam: cada instituição traduz uma missão; as prefeituras têm seu absoluto como os templos: a administração, com seus regulamentos – metafísica para uso de macacos… Todos se esforçam por remediar a vida de todos; aspiram a isso até os mendigos, inclusive os incuráveis: as calçadas do mundo e os hospitais transbordam de reformadores. A ânsia de tornar-se fonte de acontecimentos atua sobre cada um como uma desordem mental ou uma maldição intencional. A sociedade é um inferno de salvadores! O que Diógenes buscava com sua lanterna era um indiferente.

Basta-me ouvir alguém falar sinceramente de ideal, de futuro, de filosofia, ouvi-lo dizer “nós” com um tom de segurança, invocar os “outros” e sentir-se seu intérprete, para que o considere meu inimigo. Vejo nele um tirano fracassado, quase um carrasco, tão odioso quanto os tiranos e os carrascos de alta classe. É que toda fé exerce uma forma de terror, ainda mais temível quando os “puros” são seus agentes. Suspeita-se dos espertos, dos velhacos, dos farsantes; no entanto, não poderíamos atribuir-lhes nenhuma das grandes convulsões da história: não acreditando em nada, não vasculham nossos corações, nem nossos pensamentos mais íntimos; abandonam-nos à nossa indolência, ao nosso desespero ou à nossa inutilidade; a humanidade deve a eles os poucos momentos de prosperidade que conheceu: são eles que salvam os povos que os fanáticos torturam e que os “idealistas” arruínam. Sem doutrinas, só possuem caprichos e interesses, vícios complacentes, mil vezes mais suportáveis que os estragos provocados pelo despotismo dos princípios; porque todos os males da vida provêm de uma “concepção da vida”. Um homem político completo deveria aprofundar-se nos sofistas antigos e tomar aulas de canto; e de corrupção…

O fanático é incorruptível: se mata por uma ideia, pode igualmente morrer por ela; nos dois casos, tirano ou mártir, é um monstro. Não existem seres mais perigosos do que os que sofreram por uma crença: os grandes perseguidores se recrutam entre os mártires cuja cabeça não foi cortada. Longe de diminuir o apetite de poder, o sofrimento o exaspera; por isso o espírito sente-se mais à vontade na companhia de um fanfarrão do que na de um mártir; e nada o repugna tanto como este espetáculo onde se morre por uma ideia… Farto do sublime e de carnificinas, sonha com um tédio provinciano em escala universal, com uma História cuja estagnação seria tal que a dúvida representaria um acontecimento e a esperança, uma calamidade…

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