O “Carnet pour Sténographie” de Emil Cioran (Eugène van Itterbeek)

O Carnet pour Sténographie (trad. francesa de Eugène Van Itterbeek, editura Universităţii „Lucian Blaga“, 2000) é uma espécie de caderno anterior aos Cahiers: 1957-1972. É o esboço, rascunho, de Amurgul gândurilor (Le crépuscule des pensées em francês, “O Crepúsculo do pensamento”), um dos últimos livros escritos por Cioran, já na França, na lingua materna. Segundo Eugène Van Itterbeek, editor do manuscrito:

Foi totalmente por acaso que o “Carnet pour Sténographie” caiu em nossas mãos. Sabíamos que em suas viagens de bicicleta através da França, Cioran estava sempre munido de agendas, de blocos de nota nos quais tinha o hábito, numa caligrafia dificilmente legível, de rabiscar pensamentos, impressões, reminiscências de leituras. Esses “carnets” constituem uma forma de diário de bordo das peregrinações na “paisagem interior” do eu.

O “Carnet pour Sténographie” não possui data. Alguns elementos nos permitem precisar o seu ano, se não o período. Certas frases do “Carnet” aparecem quase literalmente em Amurgul gândurilor (Le crépuscule des pensées), escrito em 1938 e publicado em Sibiu em 1940, por exemplo: “De-aş fi Dumnezeu, m-aş face orice afară de om. — Ce mare ar fi Isus, dac-ar fi fost mai mizantrop!” (Se eu fosse Deus, faria qualquer coisa, menos o homem. Como Jesus seria grande se tivesse sido um pouco mais misantropo!). Em relação ao “Carnet”, o livro difere em dois pontos, de ordem gramatical: “aş fi fost” e “m’aş fi făcut” foram substituídos, num sentido de simplificação ulterior, no texto definitivo por “aş fi” e “m’aş face“.

Quatro páginas adiante no livro, nós lemos: “Pascal — dar mai cu seamă Nietzsche — par nişte reporteri ai eternităţii.” (Pascal — e sobretudo Nietzsche — parece um repórter da eternidade.) A frase no “Carnet” aparece numa versão diferente: primeiramente, aí, a frase “ai eternităţii” aparece sublinhada; em seguida Cioran prefere, no “Carnet”, a palavra “journalişti“, que substituirá posteriormente por “reportieri“, termo mais inglês, diferente do jornalista. A palavra “reporter” é mais especializada, refere-se mais bem à coisa, ao acontecimento, à atualidade da qual o repórter faz parte, e não ao jornal e à profissão de jornalista. É muito interessante observar que um pouco mais acima na mesma folha do “Carnet”, Cioran aplica-se a si mesmo, como um voto, como uma “aspiração”, o qualificativo “jurnalişti al eternităţii“, apelação que parece inspirada pelo “Carnet pour sténographie”, no qual ele anota seus pensamentos à maneira de um repórter da eternidade. Ele quer ser como Pascal e Nietzsche. A expressão “jornalista da eternidade” traduz o gosto pascaliano de reatar os contrários, aqui a pressa do jornalista-repórter, métier da fugacidade, e a atemporalidade do místico que se exercita na eternidade.

Nós não encontramos outras correspondências marcantes entre o livro de 1938 e o “Carnet”. Convenhamos que elas são muito significativas. Outras relações se limitão em torno de certos temas como a “timidez”, a “tristeza”, a “beleza”, a “morte”, o “absurdo”, etc. Não pretendemos aqui submeter o “Carnet” a um estudo exaustivo. Todavia, nós acreditamos ter reunido suficientes argumentos para sustentar que o “Carnet” foi redigido durante ou um pouco antes da redação de Amurgull gândurilor, ou seja, nos anos 1937-8. Acreditamos também que há muitos desses carnets.

O interesse do “Carnet” consiste no fato de que, aí, vemos Cioran em trabalho. A escritura é aí mais explosiva, bastante irregular, imediata, projetada, quebrada como “os pedaços de um espelho quebrado”, saída de um “incêndio ou um naufrágio”, “surgida” numa “fúria elementar, rodopiando ao redor de um destroço — por plenitude — que é o eu.”

Comparado aos desenvolvimentos mais elaborados de muitas das páginas de Crépuscule, alternadas, cortadas por expressões fulgurantes, aforismos, fragmentos de ideias, os do “Carnet”, este assume o ar de pré-esboço (avant-brouillon), de estenografia. O “Carnet” deve ser distinguido, pensamos, do “cahier”, que deve ser concebido como um verdadeiro esboço, mais próximo da obra, da qual de alguma maneira faz parte.

Neste sentido o “Carnet” possui um caráter em si, desprendido do livro que se segue, não destinado a tornar-se público. Mas é nisto se funda o seu valor próprio, sua autencidade, eel é o suporte material de um pensamento em plena gestaão, turbulento, reportagem pecipitada, resultado de um comportamento mental, inteiramente concentrado na reflexão, esta sendo absorvida por uma permanete preocupação puramente filosófica. Foi uma maneira de ser livre e, nessa liberdade, de se dedicar ao pensamento e à vida, numa espécie de dupla nutrição, das quais as folhas dão o testemunho. Cioran nelas se manifesta, quase ao pé da letra, como um “repórter da eternidade”, estando ao mesmo tempo no tempo e no não-tempo, cativo de uma reflexão súbita, surgida de um lençol de eternidade que envelopa o seu espírito. É apenas depois, após o livro, que estas notas se inscrevem numa relação com a obra e que ganham um valor retroativo. O documento que constitui o “Carnet” deve, portanto, ser tomado num sentido autônomo, como um puro documento, como uma restituição de Cioran a ele mesmo, antes da obra, em sua quotidianeidade de poeta, de nômade do pensamento.

Eugène Van Itterbeek