“Para que ler Cioran?” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Reza a anedota que, após a publicação do Précis de décomposition (1949), um jornalista escreveu, indignado, uma carta-protesto a Cioran, repreendendo-lhe a loucura e a irresponsabilidade de publicar um livro daqueles, que poderia cair nas mãos de um adolescente ou mesmo de uma criança!

Ora, ter um livro de Cioran na estante da sala é infinitamente menos perigoso, no caso de ter crianças em casa, do que um revólver. E, na presença das duas coisas, se a criança, com o passar dos anos, calhar de ler o livro, as chances de ela utilizar o revólver, contra os outros ou contra si, reduz-se a praticamente zero.

Incomodada pela crítica politicamente correta do mandarim dos bons costumes, Verena von der Heyden-Rynsch (que editaria o Cahier de Talamanca) cunhou a irônica fórmula ein Geheimtipp für Kenner, “uma dica secreta para conhecedores”, para sinalizar o caráter privativo, de penumbra, do autor do Breviário.

Um autor para não declamar em voz alta, em cima do telhado, mas para ser sussurrado. “Há pensadores que não se pode ler em voz alta. Pascal é um deles. Suas verdades deveriam ser murmuradas; murmuradas deveriam ser todas as contraverdades da vida.” (O Livro das Ilusões) Cioran também.

Gosto dos livros que o leitor sente a necessidade de esconder, de defender com timidez, em vez daqueles que se quer divulgar e indicar para Deus e o mundo. Quantas vezes não me peguei escondendo o título de um livro de Cioran, no ônibus ou no metrô, contra um olhar curioso ou bisbilhoteiro? Do inconveniente de ter nascido, por exemplo… Não por vergonha de assumir o interesse por livro de tão calamitoso título, mas por uma dupla preocupação de poupar a mim mesmo de longas e cansativas explicações, quanto de poupar o curioso.

Cioran não é para qualquer um. O que não significa que seja um autor iniciático, esotérico, munido de verdades — confortáveis ou amargas — apenas assimiláveis por poucos “eleitos”. Não é para qualquer um porque a sua descoberta deve ser o resultado de uma busca individual e não condicionada por estímulos externos, nem do próprio autor, nem dos seus leitores; deve ser uma descoberta acidental — ou providencial –, em todo caso, sem o concurso de influências interessadas. Um pensador que escreve, na solidão, para ser lido por consciências individuais, elas também na sua solidão: condição de possibilidade do encontro. Todo o contrário do autor que escreve para as massas e quer ser lido pelas massas, enquanto massas.

Cioran não vai até o leitor; o leitor vai até Cioran.

Voltando à controvérsia do perigo-Cioran: eis o grande mal-entendido. Perigo que desarma a si mesmo de antemão, que já se anuncia “perigoso” antes mesmo de o avistarmos, de modo que perde todo fator-surpresa. Perigosa é a cultura da saúde e da felicidade a todo custo, perigosa é a autoajuda. Cioran é como uma caixinha de surpresa da qual salta, impulsionado por uma mola, uma caricatura de palhaço.

Por que ler Cioran? Posso responder por mim. Porque me envolve e me desconcerta, porque é como andar de montanha-russa, só que parado (é como afundar para o alto); porque me inspira, me exaspera, me intriga, me incomoda, me deleita; porque é um autor que se desnudou, se sacrificou, e expiou cada palavra que escreveu; porque fala a verdade, mesmo quando mente, quando confunde; me comove, me abala, me dilata no vazio. Sou cúmplice.

Gosto dos livros que “cutucam as feridas”, que as provocam inclusive (Écartèlement); gosto dos livros que são um perigo. Como Emily Dickinson, gosto dos livros que tornam “o meu corpo tão frio que nenhum fogo poderia acalentar-me” – e como explicar que esse frio parece derivar de uma chama que arde sem queimar?

Por que escrever sobre Cioran? Poderia responder cinicamente: porque não sou casado, porque sou um “fracasso social”, uma não-entidade, para poder ficar em casa e ter uma desculpa para recusar convites indesejáveis, para aprofundar-me ainda mais no “sistema” da minha solidão; para procrastinar, para desviar, para evitar fazer alguma coisa de útil, para ruminar no insolúvel, para “mascar tempo”; para conhecer-me e desnudar-me a mim mesmo tendo como pretexto uma paixão, para me exercitar na escrita e individualizar-me – para tornar-me, quem sabe, aquele que sou; para levar até a exaustão a obsessão de toda uma vida, para esgotar, recorrendo a uma fórmula de Sartre, uma “paixão inútil”.

 O que ganho ao ler Cioran? Positivamente, do ponto de vista da utilidade, da eficácia: nada. O que ganho escrevendo sobre ele? Menos ainda. Uma vez mais, apenas a consumação de uma paixão, a duração de uma obsessão que, como tudo neste mundo, deve ter prazo de validade… Cioran é uma brincadeira, uma veleidade que eu levo muito a sério.

Curioso paradoxo, este: ninguém nunca se matou porque leu Cioran. Pelo contrário, muitos já recobraram a paixão da vida e da existência, nos momentos mais críticos das suas vidas, pela leitura revigorante desse clown niilista. Pessimismo que nos reafirma em nossa condição presente, que nos faz enxergar a vida “cor-de-rosa”, tão pura e tão vazia quanto a morte, e tão indiferente quanto ela.

Você já deve ter visto aquele grupo de senhorinhas, Testemunhas de Jeová, na Avenida Paulista ou em qualquer outra grande via urbana, bem-vestidas e educadas, com o seu stand cheio de panfletos sobre o Fim do Mundo iminente, quase implorando pela parada de curiosos e neófitos eventuais. Pois, a julgar pela fórmula de Verena von der Heyden -Rynsch, nada mais inconcebível em se tratando desse autor cuja obra deveria antes ser murmurada.

Ao lado das senhorinhas, avistamos um mendigo, um louco, pestilento e sereno; ele estende as mãos aos transeuntes, expressão de carência, e também de avidez, mas logo percebemos que não lhes pede dinheiro, nem comida: “na sua atitude, na sua rigidez, havia qualquer coisa que vos prendia, que vos cortava a respiração. Ele passa-vos a cegueira dele.” (Do inconveniente de ter nascido)

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