“Banalidade e transfiguração” (Emil Cioran)

Posto que não posso extinguir-me imediatamente e que não posso conquistar a ingenuidade, é uma besteira continuar realizando gestos diários, banais e comuns. A banalidade tem de ser superada em todas as suas versões para que se atinja a transfiguração, que nada mais é que o triunfo da expressividade absoluta. Noto, entristecido, como as pessoas passam uma ao lado da outra, como negligenciam seu próprio destino e se consomem na superficialidade. Por que não nos tensionarmos a cada momento, por que não intensificar continuamente as luzes do nosso interior, por que não nos embebedarmos na profundeza das trevas? Não deveríamos dar uma expressão infinita a todas as nossas contingências? Por que não extrairmos da dor tudo o que ela pode oferecer, por que não cultivarmos um sorriso até chegar à zona vital da qual ele brota? Todos nós temos mãos, mas ninguém pensa em cultivá-las, em atingir uma expressividade absoluta por meio de sua delicadeza, de suas nuances ou de sua posição. Gostamos de admirá-las na pintura, de falar de seu significado, somos porém incapazes de lhes dar expressão em nossa própria pessoa, de fazer com que elas interpretem nossa agitação íntima. Uma mão fantasmagórica, uma mão transparente como um reflexo imaterial, uma mão nervosa, tensa até a última crispação. Ou então uma mão pesada, ameaçadora, dura e repugnante. Que a presença e o aspecto das mãos sejam mais que um discurso, mais que um pranto, um sorriso ou uma prece. As mãos podem ter olhos, olhos que olham para dentro. A expressividade absoluta, fruto de contínua transfiguração, de uma incessante transformação interna com chamas inextinguíveis e ondulações agitadas, com vibrações infinitas e pulsões irresistíveis, fará da nossa presença um centro de irradiação mais poderoso que o sol. E não só as mãos, mas também o rosto, e tudo o que nos individualiza deverá atingir essa forma de expressividade, em que tudo o que é específico ao nosso ser se aprofunda par além dos limites. Há criaturas cuja simples presença causa, nos outros, exaustão, cansaço profundo ou iluminação. De qualquer modo, sua presença é fecunda, decisiva, por espalhar uma fluidez imperceptível que nos assimila e nos cinge como garras imateriais. Para esse tipo de gente não há vazios, vácuos ou descontinuidades, mas comunhão, participação, produtos daquela incessante transfiguração em que os cumes não são meras vertigens, mas volúpias. É necessário, porém, tanta angústia, tanta energia de interiorização para conseguirmos nos exteriorizar numa presença decisiva, que as luzes da transfiguração podem nos queimar e destruir irremediavelmente. Mas não seria suprema a transfiguração, nessa morte de luz e fogo?

Sinto uma estranha inquietude insinuando-se por todo o meu corpo, crescendo e se dilatando como um remorso para em seguida se fixar como uma tristeza. Trata-se de medo do futuro da minha existência problemática ou medo da minha própria inquietude? Sinto-me tomado por uma inquietude da fatalidade do meu ser. Será que conseguirei viver depois de tais problemas, poderei continuar minha vida depois de tais experiências? O que estou vivendo agora é vida, ou será um sonho absurdo, uma exaltação devaneante revestida por imperceptíveis melodias transcendentes? Não estaria se formando dentro de mim a fantasia grotesca e bestial de um demônio, não seria minha inquietude a flor do jardim de uma criatura apocalíptica? O demonismo do mundo parece ter-se concentrado todo na minha inquietude, uma mistura de remorso, de sonhos crepusculares, tristezas e irrealidades. E, desse demonismo, não soltarei perfumes florais sobre o universo, mas a fumaça e a poeira que costuma produzir um grande desabamento. Toda a minha existência é um desabamento que, por ser ilimitado, jamais será definitivo.

CIORAN, Emil, Nos cumes do desespero. Trad. de Fernando Klabin. São Paulo: Hedra, 2011.

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