“O prazer e o desprazer do texto” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Eu dificilmente poderia discorrer, por desconhecê-lo quase absolutamente, sobre esse plaisir du texte de que fala Roland Barthes.

Escrever é, para mim, algo complicado, para não dizer um suplício, um “trabalho de Sísifo”. Quantos rascunhos, quantas versões, quantas e quantas páginas preenchidas apenas para serem descartadas, até chegar no que me parece o ideal, o necessário (para não dizer o exato), ou apenas o minimamente satisfatório. Deus mesmo, se me aparecesse para dar a sua divina aprovação a um texto meu, ainda assim não seria suficiente: preciso, antes de tudo, atender às minhas próprias exigências (autoexigência que se confunde com auto-sabotagem e paralisia induzida).

Escrever, compor um texto, ou mesmo uma frase, é diferente de falar e mesmo de pensar (à sós, com os próprios botões). Escrever é visualizar, num cenário de fundo branco diante de mim, as palavras e as sentenças que desfilam pelo meu pensamento, e que quero comunicar. Falar é automático e imediato; escrever é um exercício delongado, refletido e mediado pelos signos visuais. Escrever é falar com uma página em branco — e portanto com uma transcendência — que nada tem a dizer além do que nós mesmos decidimos inscrever nela. É um descompasso, um intervalo incômodo, meio silencioso meio ruidoso, entre o que se tem em mente e o que se quer colocar — escrever — em palavras escritas.

Aceito o desafio de escrever como quem aceita, a contragosto, um convite para jantar: como um desagrado festivo. Não vivo do que escrevo, não escrevo para sobreviver. A escrita é para mim uma obsessão, uma necessidade desnecessária e uma afetação. Via de regra não gosto do que escrevo: vejo nas palavras um reflexo demasiado fiel dos meus defeitos, das minhas manias, das minhas taras. Assim como não gosto de olhar para as minhas unhas, espelho da minha alma, nem para as minhas sobrancelhas “monoteístas”, destoando de um rosto demasiado dividido

Escrever é um trabalho penoso, demorado, desmotivador. Mas há momentos em que, por uma graça vinda sabe-se lá de onde, nós nos encontramos, nos ajeitamos, nós e as palavras, o pensamento e a linguagem discursiva, isso que escreve (“eu”) e a coisa escrita. É então um fortuito e beatífico encontro, uma comunhão, uma koinonía — “comoção exterior ao universo” (Cioran).

Estar de bem com a “linguagem”, ser amigo das palavras, entreter-se em sua companhia, fazer coisas com ela, colocá-las em movimento, dar-lhes corpo e uma fisionomia reconhecível — não tem preço! Chegar a dizer o que se tem em mente da maneira como se quer dizê-lo, não encontrar dificuldades acessórias, não estagnar, ir direto ao assunto: eis para a mim a — modesta — definição de realização. Contento-me com pouco; para um mendicante do espírito, toda migalha é um banquete.

Nestes momentos, tudo se encaixa, tudo parece fazer sentido, ainda que seja um sentido negativo, tudo parece existir, mesmo que nada exista. Que importa se nada existe? Alcançamos, após toda uma vida de tentativa e erro, o que era mais importante alcançar: o erro ideal. Por fim, reconciliados com as palavras — e com nós mesmos.

Quando conseguimos penetrar no essencial e nele instalar-nos, não queremos sair de lá por nada: nos escondemos, nos isolamos, nos inquietamos por medo de perder a mão, de perder a cabeça, de deixar escapar algo que conquistamos, em nós e fora de nós, de cair em descompasso. Dentro da linguagem, sinto que pertenço a tudo, e que tudo me pertence.

A queda é certa, tarda mas não falha. Entretanto, aproveitemos ao máximo essa pletora provisória que é a “inspiração”, esse estado de “graça”, tão frágil e tão incerto que se confunde com a ansiedade pura. Preservemos esses instantes que duram menos do que uma vírgula, e que são acossados, atormentados, pela visão — que digo? pela ideia — da próxima página em branco.

“Quanto mais nos prejudica o tempo, mais queremos fugir dele. Escrever uma página impecável, uma frase apenas, nos eleva por cima do devir e de suas corrupções. Transcendemos a morte pela busca do indestrutível através do verbo, através do símbolo mesmo da caducidade.” (Do inconveniente de ter nascido)

E, quando o conseguimos, experimentamos, subitamente, uma “necessidade de demonstrar agradecimento, não só aos seres mas também aos objetos, a uma pedra porque é pedra… Tudo parece então animar-se como se fosse para a eternidade. De golpe, inexistir parece inconcebível. Que estes calafrios se produzam, que possam produzir-se, mostra que a última palavra talvez não esteja na Negação.” (Écartèlement)

Deixe aqui suas impressões, comentários e/ou críticas. Deja aquí sus impresiones, comentarios y/o críticas. Leave your impressions, comments and/or critiques here. Laissez ici vos impressions, commentaires et/ou critiques. Lăsați-vă impresiile, comentariile și sau recenziile aici. Lascia qui le sue impressioni, commenti e/o recensioni.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s