PARA OS MAIS SÓS. Me dirijo a vós, a todos os que conheceis até onde pode chegar a solidão do homem, até onde a tristeza de ser pode obscurecer a vida e o tremor do ser sacudir este mundo. E o faço mais para unir nossas solidões do que para saber o que eu também estou experimentando. Irmãos em momentos de desespero, de tristeza oculta e de lágrimas contidas, estamos todos unidos pelo mesmo desejo louco de fugir da vida, pelo mesmo pavor de viver, pela mesma timidez de nossa loucura. Perdemos a coragem de tanta solidão e nos esquecemos de viver por pensar demasiado na vida. Toda a nossa solidão não terá feito senão nos levar à morte e todas as desilusões, só à renúncia? Por que o nada deve ser a morte para nós? Meditamos demasiado sobre nós mesmos para que a vida não nos tenha castigado e amamos demasiado a morte para poder continuar falando de amor. Só há vida onde há um começo contínuo; e nós só fizemos terminar a vida a cada instante; e o que é nosso ser senão um eterno fim?

A nós, aos que estamos mais sós, aos que a vida deixa de lado, quem nos dará a esperança de esquecer-nos de morrer?

Irmãos no desespero, esquecemos a força de nossas solidões, esquecemos que os mais sós são os mais fortes? Pois chegou a hora de que nossas solidões ultrapassem o rebanho, que vençam toda resistência e conquistem tudo. A solidão deixará de ser estéril quando através dela o mundo seja nosso, quando o engulamos com nossos desesperados ímpetos. Que sentido tem toda a nossa solidão se não é a suprema conquista, se através dela não vencemos tudo? – Irmãos, nos espera a conquista suprema, a última prova de nossas solidões. Este mundo tem que ser nosso, dos mais sós, dos que têm que recuperar a vida! Estamos perdidos se não recuperamos tudo o que perdemos, se não recuperamos tudo. Só assim nossa coragem ressuscitará e só assim aprenderemos a viver. Não sei quantas solidões são necessárias para conquistar o mundo; mas sei que bastam algumas para fazê-lo tremer. Porque o mundo só pode ser nosso, dos que não viveram.

Poderemos, irmãos, unir todas as nossas solidões? Teremos a perseverança e a coragem de morrer pelo que não vivemos?

CIORAN, Emil, O Livro das Ilusões. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

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