Um dia um doente decidiu nunca mais apertar a mão de uma pessoa sadia. Mas logo descobriu que muitos dos que julgava com saúde não estavam no fundo incólumes. Por que então fazer inimigos baseado em suspeitas apressadas? Evidentemente, ele era mais razoável do que os outros, e tinha mais escrúpulos do que os de sua raça, corja frustrada, insaciável e profética, que deveria ser enclausurada porque quer destruir tudo para impor sua lei. Confiemos as coisas, de preferência, aos normais, os únicos dispostos a deixá-las tal e qual: indiferentes ao passado e ao futuro, limitam-se ao presente e se instalam nele sem nostalgias nem esperanças. Mas quando a saúde fraqueja, só se pensa no paraíso ou no inferno, em reformar em suma: deseja-se reparar o irreparável, melhorar ou demolir a sociedade que se tornou insuportável porque não se consegue mais suportar a si mesmo. Um homem que sofre é um perigo público, um desequilibrado tanto mais temível quanto deve, na maioria das vezes, dissimular seu mal, fonte de sua energia. Não podemos nos exaltar nem desempenhar um papel nesse mundo sem o auxílio de alguma doença, e não existe dinamismo que não seja sinal de miséria fisiológica ou de devastação interior. Quando conhecemos o equilíbrio, não nos apaixonamos por nada, não nos apegamos nem à vida, porque somos a vida; se o equilíbrio se rompe, em vez de identificar-nos com as coisas, só pensamos em subvertê-las ou em modificá-las. O orgulho emana da tensão e da fadiga da consciência, da impossibilidade de existir ingenuamente. Ora, os doentes, nunca ingênuos, substituem o fato pela ideia falsa que fazem dele, de modo que suas percepções, e até seus reflexos, participam de um sistema de obsessões tão imperiosas que não conseguem deixar de codificá-las e infligi-las aos outros, legisladores pérfidos e irascíveis que se dedicam a tornar obrigatórios seus males para atingir aqueles que têm a audácia de não compartilhá-los. Se os homens sãos se mostram mais complacentes, se não têm nenhuma razão para ser intratáveis, é porque ignoram as virtudes explosivas da humilhação. Aquele que a experimentou não a esquecerá jamais, e não descansará até transferi-la para uma obra capaz de perpetuar seus tormentos.

CIORAN, E. M., “Odisseia do rancor”, in História e utopia. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

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