“Meditação musical” (Emil Cioran)

A meditação musical deveria ser o protótipo do pensamento em geral. Por acaso algum filósofo seguiu um motivo até o fundo, até tocar o seu limite e esgotá-lo, tal como faz um Bach ou um Beethoven? O pensamento exaustivo só existe na música. Depois de ler os pensadores mais profundos, sentimos a necessidade de recomeçar do zero. Só a música dá respostas definitivas. Aonde conduziram tantas reflexões sobre Deus? A repetir as mesmas evidências, argumentos e absurdidades. Não sabemos o que pensaram os mais solitários sobre ele; mas tudo o que sabemos não vale um acorde de órgão. Parece que pelo pensamento não se pode esgotar um motivo e que sobre o tema de Deus existem variações infinitas. Desde Jó até Rilke não se pôde romper com a palavra a crosta que o insensibiliza e o torna refratário às fórmulas inexoráveis. O pensamento e a poesia o intimidaram, mas não liquidaram nenhum dos mistérios que o envolvem. E conseguimos assim enterrá-lo com todos os seus mistérios. Uma aventura alucinante, em primeiro lugar a de Deus, e depois a nossa.

CIORAN, Emil, Lágrimas y Santos. Trad. de Christian Santacroce. Madrid: Hermida Editores, 2017, p. 121-2.

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