“Sinceridade, equidade, objetividade” (Clément Rosset)

O desprezo pelo dado, a ausência de submissão ao real, encontram no culto que se presta a alguns mitos antigos um alimento para a sua incúria. Sabemos que semelhantes forças, ao não se empregarem para assumir-se a si mesmo, para assumir a realidade cotidiana e trágica, derrotam-se sem medida desde o momento em que se trata, por exemplo, de “justiça” ou “honestidade”. Mas é notável que a busca obsessiva da “honestidade” e da “sinceridade” coincida, na maior parte das vezes, com uma complacência inconsciente pela apatia e pela mentira; como prova disto, entre outras, podemos ver o marasmo moral que nos valeu o pós-guerra tanto no campo literário quanto no filosófico. Talvez tenha sido Gide o primeiro a ter acostumado o leitor contemporâneo a considerar que um homem de letras ou do pensamento devia ser antes de tudo uma espécie de guia moral para que conduzíssemos bem a existência, direcionássemos o nosso juízo, confessássemos as nossas faltas e as remediássemos na medida do possível: trata-se de “resultar em algo”. Sem esse conteúdo ético não haverá nenhuma literatura sã, apenas vão estetismo. Um autor deve, antes de tudo, ser um pouco sério. O culto à seriedade se une ao culto da sinceridade, um e outro significativos de uma época de mentiras.

ROSSET, Clément, El mundo y sus remedios. Trad. de Margarita Martínez. Buenos Aires: El Cuenco de Plata, 2012.

 

 

Sugestões? Críticas? Contribuições? Deixe aqui o seu comentário:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s