“Como é que eu me defino politicamente?” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Um jovem jornalista grava um vídeo para se explicar: “Como é que eu me defino politicamente?” Tá devendo pra quem?

Não surpreende, quando se depende, por monetização ou por injeção de endorfina (ou ambas as coisas), de likesdislikes.

Ortega y Gasset tinha razão.

Quem hoje em dia se sentiria na necessidade de explicar-se assim: “Como é que eu me defino metafisicamente?”

Como é que eu me defino politicamente? Sou de esquerda? De direita? Humano? Zumbi? Progressista? Pessimista?

Quero ser visto (e admirado) como de esquerda ou de direita? Quem eu quero agradar (ou convencer)? Qual é a minha “tribo”? Preciso definir-me? De onde vem esta exigência?

“Não ter nunca a oportunidade de tomar partido, de decidir-me ou de definir-me: não há desejo que tenha com mais frequência. Mas nem sempre dominamos nossos humores, essas atitudes em germe, esses esboços de teoria. Visceralmente inclinados à estruturação de sistemas, nós os construímos sem descanso, sobretudo em política, domínio de pseudoproblemas, onde se dilata o mau filósofo que reside em cada um de nós, domínio do qual gostaria de afastar-me por uma razão banal, uma evidência que aparece a meus olhos como uma revelação: a política gira unicamente em torno do homem.” (História e Utopia)

E como, sendo “filantropo”, eu odeio o Homem, só posso lamentar, ou rir, de quem se rebaixa a “definir-se”….