Só o sofrimento muda o homem. Todas as outras experiências e fenômenos não conseguem modificar essencialmente o temperamento de ninguém nem aprofundar certas disposições suas a ponto de transformá-las completamente. De quantas mulheres equilibradas não fez o sofrimento umas santas? Absolutamente todas as santas sofreram muito mais do que se pode imaginar. Sua transfiguração não foi obra da intervenção divina, nem da leitura, nem mesmo da solidão como tal. O sofrimento de cada instante, um sofrimento monstruoso e contínuo lhes revelou mundos que ninguém pode suspeitar, os intensificou e aprofundou como não consegue intensificar e aprofundar a vida espiritual de um homem normal, toda uma vida de meditação. Um homem que tem a maldição e o inesgotável privilégio de poder sofrer permanentemente, pode prescindir durante o restante de sua vida de livros, de homens, de ideias e de qualquer tipo de informação, porque o puro fato de sofrer é suficiente para dispor à meditação contínua, tem por si mesmo bastantes reservas para tornar inútil qualquer contribuição exterior.

Os homens ainda não entenderam que contra a mediocridade não resta outra arma senão o sofrimento. Com a cultura e o espírito não se muda grande coisa; mas é incrível o que pode transformar a dor. A única arma contra a mediocridade é o sofrimento. Através dele mudam-se temperamentos, ideias, atitudes e visões; muda-se o sentido da vida, pois todo sofrimento grande e duradouro afeta o fundo íntimo do ser. Ao modificá-lo implicitamente também está modificando sua relação com o mundo. É uma mudança de perspectiva, de compreensão e de percepção. Quando se sofreu muito, parece impossível recordar o período de vida em que não se sofreu; pois todo sofrimento nos afasta de nossas capacidades inatas, nos coloca em um plano da existência estranho a nossas aspirações naturais. Desta maneira, de um homem nascido para a vida, o sofrimento faz um santo e, em lugar de todas as suas ilusões, estende as chagas e a gangrena da renúncia. Toda a angústia que sucede ao sofrimento mantém o homem em uma tensão tal que não pode mais ser medíocre.

Uma nação inteira poderia ser modificada pelo sofrimento e pela angústia, por um tremor contínuo, torturante e persistente. A indolência, o ceticismo vulgar e o imoralismo superficial podem ser destruídos pelo medo, por uma angústia total, por um pavor fecundo e por um sofrimento geral. De um povo indolente e cético eu poderia fazer brotar faíscas através do medo, de uma dilacerante angústia e de uma tortura ardente. É verdade que um sofrimento que vem de fora não é tão fecundo quanto o que se desenvolve de forma imanente em um ser. Mas de um povo não é preciso fazer um viveiro de criadores. Todos os métodos objetivos, todo o complexo de valores da cultura não modifica essencialmente nada. O conhecimento objetivo e impessoal só faz vestir um manequim, mas não um ser. Eu nunca governaria um país com programas, manifestos e leis, mas não deixaria dormir tranquilo nenhum cidadão até que sua inquietude o assimilasse à forma de vida social na qual tem que viver.

*

A luta contra as próprias aflições é tão dura porque existe um fundo de tristeza em nós, independentemente de causas externas. Aquelas podem ser vencidas; mas é impossível vencer um fundo oculto e íntimo, fonte originária de infinitas aflições. Nesse fundo de tristeza não se vê outra coisa que não seja a tristeza de ser, que é a autêntica tristeza metafísica. Na intimidade de nosso ser existe a inquietude da distância que nos separa do mundo; mas a tristeza de ser é muito mais profunda porque surge de nossa existência enquanto tal, da natureza intrínseca do ser, enquanto a inquietude da distância do mundo nasce somente de uma relação, de uma ligação.

Lutar contra essa tristeza metafísica significa lutar contra si mesmo. E, na verdade, há homens que só podem continuar vivendo negando-se a si mesmos incessantemente.

Todas as vivências totais, todas essas vivências que mais nos envolvem, na realidade, nos superam. E nos superam pelo sentimento de irresponsabilidade que temos sempre que vivemos tais experiências. Por que só podemos conhecer os homens nos grandes acontecimentos da vida? Porque aqui a decisão e o cálculo racional não têm valor algum; tudo o que deriva dos valores e critérios exteriores desaparece para dar lugar a determinações mais profundas. É curioso que os homens exagerem o valor da decisão, da atitude nos grandes acontecimentos, quando neles somos mais irresponsáveis, estamos mais perto de nosso fundo irracional. Não temos durante as vivências totais o sentimento de uma invasão irresistível, de um processo que se desenvolve secretamente em nós e nos domina? De onde procede a ilusão da autodeterminação? A interpretação posterior dos homens os torna insensíveis à irracionalidade de um processo que só compreenderão mais tarde de maneira esquemática. E, ainda que na experiência do processo a irresponsabilidade seja evidente, o orgulho do animal racional não quer admitir o papel do destino interior nas grandes encruzilhadas da existência. Esse orgulho desaparece naqueles cuja existência é uma soma de encruzilhadas e em quem as vivências totais são tão frequentes que se sentem superados a cada momento. Quando se vive de forma extremamente intensa, os conteúdos do ser transbordam os limites de uma existência individual; tem-se então a impressão de que em nós palpitam forças desconhecidas, profundas e longínquas, que realizamos um destino do qual somos irresponsáveis. O nulo valor da decisão racional surge então com toda sua dolorosa evidência. Como indivíduos, temos fatalmente consciência de nossa limitação, de nossa insuficiência individual; por esse motivo nos sentimos doídos e surpreendidos quando a tensão íntima explode em conteúdos tão vivos, tão profundos e transbordantes, dando-nos a impressão de um interior infinito na consciência da fatal insuficiência de qualquer individuação.

CIORAN, Emil, O Livro das Ilusões. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

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