“Crônica de uma giornata acadêmica” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Era un uomo che non sapeva amare (ma che amava comunque) — Nico Fidenco

A exemplo de Ulisses, um périplo memorável deve ser repleto de tribulações. Voos cancelados, stress aeroportuário, uma mochila que cai, um computador que quebra. Tudo isso faz parte…

Uma vez embarcado, converso com um amiga por telefone, ainda em solo: “Quero que o avião caia no meio do Oceano…” — ao que a passageira ao meu lado, com uma prole numerosa, me interpela, questionando: “Mas por que você quer que o avião caia?” Compreendendo a sua consternação, respondo afavelmente: “Quando espero que algo não aconteça, desejo-o.” É a minha maneira de lidar subjetivamente com a lei de Murphy. E me pego especulando se alguma vez que caiu um avião, algum passageiro o havia desejado!

Enfim, Napoli! Salvatore, o anfitrião, muito atencioso, preocupado com que eu não me perdesse, apontou-me como referência uma esquina com uma vitrine devocional, repleta de ícones dos santos locais e do Cristo (um fenômeno massivo aqui, aliás, de um catolicismo sufocante). Respondi-lhe que não havia necessidade de preocupar-se, pois tenho uma excelente memória visual e como que uma bússola mental. Não importa o labirinto, ando sempre com meu o “fio de Ariadne”. Se eu me perdesse, seria de propósito, não por acidente.

Salvatore me pergunta se estou aqui de férias ou a trabalho. Né a vacanza, né a lavoro, respondo. Explico que venho a um colóquio sobre um filósofo romeno, Emil Cioran, que ele desconhece. E como vejo sobre o móvel da sua sala uma edição italiana d’O Mundo como Vontade e Representação, e um Livro Tibetano dos Mortos, mostro-lhe dois livrinhos sobre Cioran, e lhe digo que o autor é um schopenhaueriano contemporâneo (ein Geheimtipp für Kenner).

No primeiro dia da minha estadia, saio a passear a esmo pela cidade, Baudelaire na cabeça. Intuitivamente, decido caminhar em direção à costa: quero contemplar o quanto antes o Mediterrâneo. Na orla, avisto de longe um castelo, Castel dell’Ovo (“Castelo do Ovo”), um dos mais antigos de Napoli. Lá em cima, uma visão desconcertante do mar. E me lembro do célebre poema de Leopardi, “L’Infinito”, que Cioran tinha pregado na parede da sua mansarda: E il naufragar m’è dolce in questo mare

E me lembro de Cioran: “A vida é um estado de não-suicídio.” Eu diria que, num lugar como este, seria um “não-suicídio” festivo.

Cioran é um romeno que amava a Espanha, a sua pátria espiritual. E fico a imaginar como não teria sido se, em vez de expatriar-se na França, tivesse vindo para a Itália, e escrito em italiano (para mim, a língua mais bela, mais doce, mais musical de todas as línguas latinas).

Napoli me parece o equilíbrio ideal entre ordem e desordem. Caminhando pelas suas vielas, é um varal a céu aberto: eis o charme da cidade, e a maior demonstração da sua gostosa informalidade. No Brasil, diriam que é um grande cortiço, mas isto só me faz reiterar o relativismo cultural e admirar ainda mais o ethos local.

João Doria que me perdoe, mas o graffiti é um fato civilizacional. Para conhecer uma cidade, além dos monumentos, da comida e dos nomes das ruas, é preciso prestar atenção aos escritos nos muros.

De acordo com Monty Python, o primeiro grafiteiro foi um hebreu chamado Brian, nascido na Judéia durante a ocupação romana, no mesmo dia em que nasceu o menino Jesus.

E por falar em graffiti, Maradona aqui é idolatrado (e com toda razão). Na hierarquia teológica, entre Deus e o Papa, está Maradona. Ou mesmo acima…

Uma overdose de história. Ernst Becker conta que Freud morria de medo de ir à Itália (e parece-me que nunca foi), porque temia uma crise existencial. Temia surtar. Para ele, as camadas e mais camadas de história, meio soterradas, meio a céu aberto, eram o correlato objetivo das profundezas da psique humana. Posso compreender perfeitamente o medo de Freud…

Vou até o local do colóquio, fechado, nenhum cartaz de divulgação na frente. É sexta-feira. Tenho o sábado e o domingo de errância e vagabundagem. Segunda-feira é o grande dia.

Ansiedade máxima em relação ao momento de encontrar-me com Ciprian Valcan, Giovanni Rotiroti e os demais participantes. Quero entrosar-me, sentir-me pertencente.

Infelizmente, muitas baixas em relação à programação anunciada. Mas nada que tenha diminuído a riqueza do colóquio. No primeiro dia, a romeno-argentina Alina Diaconú falou sobre o seu encontro com Cioran em Paris, nos anos 80. A partir dos escritos jornalísticos do jovem Cioran, Mattia Luigi Pozzi discorreu sobre a psicologia do “desocupado intelectual”. Pausa para o almoço. À tarde, Gilda Valcan abordou o tema da loucura em Cioran. Em seguida, Ciprian falou sobre Cioran, leitor de Pascal. Em seguida foi a minha vez de falar (em francês, pois não domino o italiano e não gostaria de maltratar esta língua tão bela) sobre o pensamento religioso heterodoxo de Cioran. Por fim, Antonio Di Gennaro abordou a correspondência epistolar entre Cioran e Petre Țuțea, tema do recém-publicado L’insonnia dello spirito. Lettere a Petre Țuțea, com curadoria do próprio Di Gennaro, e publicado pela Mimesis Edizioni neste ano de 2019.

Após os trabalhos do primeiro dia, fomos a um restaurante comer, beber e confraternizar. Falo muito mal o italiano, e queria tanto trocar ideias com Mattia Luigi Pozzi, Paolo Vanini, Vincenzo Fiore, Antonio Di Gennaro e os demais, mas infelizmente a língua é um obstáculo. Surpreendeu-me o seu interesse pelo Brasil, pela nossa situação política atual, e que sabiam das lambanças deste governo patético. Falamos bem do Brasil (e de Lula) e mal de Bolsonaro (e de Matteo Salvini). Admirou-me o nível de intelectualidade, humanidade, sensibilidade ético-política, dos meus céticos interlocutores.

No segundo dia de trabalhos, pela manhã, Giovanni Rotiroti falou sobre a problemática existencial-ontológica da imanência da morte na vida em Cioran (cf. Nos cumes do desespero): La morte racchiusa nelle promesse della vita. Em seguida, Vincenzo Fiore abordou a questão da scrittura come terapia, a partir do seu recém-publicado livro, Emil Cioran: la filosofia come de-fascinazione e la scrittura come terapia. Pausa. Claudia Tatasciore, tradutora do alemão e do húngaro, falou sobre a sua recente tradução de uma importante biografia de Cioran, de autoria do alemão Bernd Mattheus, Porträt eines radikalen Skeptikers, cujo título traduzido em italiano é Ritratto di un scettico estremo (Lemma Press, 2019). O professor colombiano, de Pereira, Miguel Ángel Gómez Mendoza, falou sobre a sua experiência de tradução do livro de Ciprian Valcan, “Cioran: um aventureiro imóvel. Trinta entrevistas” (destacando que, para a edição espanhola publicada pela editora da Universidad Tecnológica de Pereira, são 33 entrevistas, 3 a mais em comparação à edição romena original). A romena Marilena Brânda apresentou a Editura Universitatii de Vest di Timisoara.

No período vespertino, Mattia Luigi Pozzi apresentou a sua nova editora, a Criterion Editrice, dedicada a publicações de autores do Leste europeu e particularmente da Romênia. Simona Constatinovici apresentou um sugestivo Dicionário cioraniano de A a Z, destacando que a palavra “abismo” aparece 800 vezes nos escritos romenos de Cioran. O jovem Giordano Dal Poz fez um paralelo entre Cioran e Robert Musil, problematizando as suas visões antitéticas sobre o tema da Utopia. A professora italiana da Università di Napoli “L’Orientale” abordou o tema nevrálgico do sentire in Emil Cioran, com o título: Le gaspillage des passions, propondo uma rica constelação conceitual em torno da problemática da dispersão/desperdício/esgotamento/inutilidade, por um duplo viés estético/econômico (no sentido latu do “econômico”).

Por fim, Paolo Vanini tratou do tema da Utopia em Cioran, a partir do seu livro Cioran e l’utopia. Prospettive del grottesco (Mimesis, 2018). Uma contribuição erudita, conceitualmente fina, historicamente contextualizada, desde Platão, passando por Thomas Morus e Jonathan Swift.

(Graças a Mattia Luigi Pozzi, me caiu uma ficha valiosíssima: o pessimismo de Cioran não só não é sistemático, como o de Schopenhauer, como ele é absolutamente cômico, até no desespero. O absoluto dessa [tragi]comicidade é tal que eu sempre tive dificuldade de levá-la em conta, de reconhecê-la e fazê-la transparecer na minha produção acadêmica, que muitas vezes peca por uma seriedade que o próprio autor não endossa, mas contradiz. Quando um aspecto se confunde com o todo, é difícil discerni-lo, pesá-lo, apreciá-lo refletidamente, muito embora eu nunca tenha derramado uma lágrima lendo Cioran, já rir, ou mesmo gargalhar, por outro lado…).

Um dos meus amigos de juventude, armênio, que perdeu toda a sua família, agora está cansado de viver. É mais velho que eu, tem quase oitenta anos, e me escreveu num momento de profunda depressão. Me pediu como que uma autorização para suicidar-se. Eu lhe respondi: ” Se ainda pode rir, não o faça, mas se não pode, então sim.” São as últimas palavras que posso dizer, se alguém me consulta. Enquanto puder rir, ainda que tenha mil razões para desesperar-se, deve-se continuar. Rir é a única desculpa da vida, a grande desculpa da vida! E devo dizer que mesmo nos momentos de profunda depressão tive forças para rir. Esta é a vantagem do homem sobre os animais. Rir é uma manifestação niilista, assim como a alegria pode ser um estado fúnebre. (Entretiens)

E me lembro, no symposium, de uma professora perguntar aos jovens cioranianos, em italiano: “Mas por que Cioran? Por que não Hegel ou Kant?” Como se fosse algo inusitado que tantos jovens talentos se dedicassem a um autor tão marginal, a um “não-filósofo”. Fiquei tentado a responder por mim, mas a limitação linguística me impediu. Foi Mattia quem deu a resposta que eu faria minha: “L’amore non si spiega [o amor não se explica]; conheci Cioran, me apaixonei (mi sono innamorato), e isso é tudo…” (resposta que vale para Cioran e para a vida enquanto tal)

A minha impressão de Napoli, dos napolitanos, dos cioranianos (italianos e outras nacionalidade), não poderia ser melhor. É preciso dizê-lo: comparado à Europa, o Brasil ainda está engatinhando em matéria de vida acadêmica. E não que seja os atrasados por culpa de uma fantasmagoria como o “marxismo cultural”. Falo por mim: a causa do meu atraso é unicamente minha, não da sociedade, não de fatores externos. Aliás, a mesma autocrítica no jovem Cioran da Transfiguração: “Se expulsarmos todos os estrangeiros do nosso país (judeus incluídos), nem por isso os nossos problemas terão terminado; a raiz do nosso atraso devemos buscá-la em nós mesmos.” E me lembro de Cioran, quando jovem, visitando Viena, com a seguinte constatação: “Sinto-me uma existência ridícula.” Eu também me sinto ridículo, pequeno, mas (quem diria) otimista: vontade de prosseguir com os estudos, de avançar, de fazer melhor, de me superar, de alcançar um nível de excelência — em Cioran como em tudo.

Sabedoria popular: tudo o que é bom dura pouco. A Giornata terminou, mas ainda tenho alguns poucos dias para desfrutar Napoli, città meravigliosa. Saio para jantar com Miguel Ángel Gómez Mendoza e a sua família, uma noite memorável e uma experiência culinária singular: slow food, ragù napoletano cozinhado durante 8 horas. Comemos, bebemos, conversamos, celebramos. Sinto-me em família com os colombianos (e posso dizer que me considero um pouco colombiano).

1 de maio, feriado. Saio para caminhar a esmo e o acaso me leva em direção a um Museo delle Torture (inquisitorial). Um “museu” sensacionalista, um espetáculo grotesco. Um dos bonecos torturados me parece exatamente Edgar Allan Poe. Uma experiência vomitiva, e exaltante. Venho à Itália para fazer amigos cioranianos e para compreender os motivos prementes de converter-se ao ateísmo ou (por que não) ao satanismo.

Nas pedras à beira-mar, a quantidade de lixo me revolta e me deprime. O ser humano é o mesmo onde quer que se encontre, em qualquer canto do mundo. O homem é o único predador do reino animal, ele é mesmo um meta-predador. Eis todo o sentido da crença judaico-cristã, apaixonadamente defendida por Unamuno, de que “o universo foi criado para o homem.” O destino histórico do homem é instaurar o pandemônio universal, e destruir-se após haver destruído tudo. Qualquer outro animal é normalmente gracioso, menos ele. Veja a gaivota, por exemplo, ou mesmo esse “rato voador” que é a pomba urbana. O homem não presta. É o grande, senão único, argumento contra a suposta perfeição do princípio criador deste mundo, e argumento a favor da culpabilidade divina. “O paraíso é a ausência do homem” (Cioran), e o inferno a sua presença.

O Homem, heresia do primeiro Pecador.

E ficar alguns dias mais, vagabundeando, errando, flanando, desfrutando a minha solidão cósmica em meio às gangues de turistas furiosos. Eu não sei se conseguiria viver numa cidade turística como esta. Ainda bem que São Paulo não tem nada (ou muito pouco) de turístico. Ainda bem que não vivo no Rio de Janeiro, e ainda bem que me desenraizei de Salvador, minha querida terra natal. Se São Paulo fosse entupida de turistas, eu teria fugido faz tempo.

A solidão não te ensina a estar só (être seul), mas a ser o único (être le seul). (Cioran)

Queria Napoli só para mim, uma Napoli svuotata. Vontade de não retornar à minha Ítaca, de ficar por aqui, como um fanullone, um mendigo metafísico…