“Eduardo Marinho, Filósofo essencial (um encômio)” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Um dos recentes cursos on-line de Olavo de Carvalho chama-se Ser e poder. Não participei, dispenso, mas intuo bem o que o título sugere sobre o seu hierático “professor”. Filosofia, para ele, é amor ao poder, à fama, e a tudo o que o pacote inclui.

Erudição não apenas não é sinônimo de grandeza, como pode ser um veneno da alma. Eis o que intuiu bem Cioran, muitas vezes aproveitando mais uma conversa com perfeitos analfabetos do que com intelectuais enfatuados.

Tudo o que é contrário a Olavo de Carvalho é bom.

Eduardo Marinho pode ser dito a sua perfeita antípoda. Um filósofo (além de artista plástico) no melhor sentido do termo, alguém que pratica uma filosofia de vida, ao modo dos Antigos.

Uma autêntica alma socrática. Não diria um estoico, pois o estoicismo é uma filosofia demasiado intelectualista, especulativa; tampouco um cínico, pois a polidez não é um traço da filosofia cínica (e Eduardo é uma pessoa extremamente polida). Talvez um epicúreo, pela simplicidade, pela frugalidade do seu estilo de vida.

Eduardo nasceu em berço de ouro, frequentou as melhores escolas e desde pequeno teve tudo de bom e do melhor. Estudou Direito, trabalhou em bancos, foi militar. E abandonou tudo para adotar uma forma de existência que é só para os corajosos e os bem resolvidos. Desiludido com o mundo ao seu redor, saiu de casa para conhecer o mundo, encontrar um sentido para a sua existência e experimentar o que é não ter nada, não ser nada. Chegou a morar na rua, dormindo em cima de papelão.

À reportagem da Hypness, ele diz: “A maioria não tem nada e vive tranquila! Como é que eu olho a minha volta e a classe abastada morre de medo de perder tudo?”

Como não lembrar de Cioran, em História e Utopia?

Toda forma de posse, não tenhamos medo de insistir nisso, degrada, avilta, lisonjeia o monstro adormecido no fundo de cada um de nós. Possuir, nem que seja uma vassoura, considerar qualquer coisa como seu bem, é participar da indignidade geral. Que orgulho descobrir que nada nos pertence, que revelação! Você se considerava o último dos homens, e eis que, de súbito, surpreendido e como que iluminado por sua penúria, você não sofre mais por causa dela; ao contrário, ela se transforma em motivo de orgulho. E tudo o que você deseja é ser tão despojado quanto um santo ou um alienado.

Não se trata de imitá-lo, de seguir o seu caminho. Não é um convite para sair de casa e ir morar na rua. Mas de sacar alguma lição (ética, existencial, humanista) do seu exemplo vivo. Até porque o desprendimento, como a arte, é uma vocação. Um exemplo de sobriedade, lucidez, despojamento, coerência, sabedoria irradiante. A obra de um verdadeiro filósofo se confunde com a sua vida. Como no caso de Sócrates, ou de Diógenes, considerado por Platão um “Sócrates ensandecido”….

Vive no Rio de Janeiro, onde vende a sua arte pensante nas ruas, conversa com todo tipo de gente e amiúde é convidado para dar palestras, em virtude da sua admirável filosofia de vida. Tornou-se conhecido graças ao YouTube, onde proliferam os vídeos (entrevistas, documentários, palestras) dedicados à sua pessoa.

Um Eduardo Marinho vale por mil Olavos de Carvalho. Multiplicando os Eduardos, e teríamos um mundo menos fanático, pretensioso, afetado, velhaco, ávido de poder. Multiplicando Olavos, teríamos uma distopia à la Gilead (The Handmaid’s Tale) ou um apocalipse atômico.

O conselho de um pobre diabo: trocar os livros de Olavo por uma conversa com Eduardo. Não tenho nada a aprender com um; muito com o outro. Um te faz crer que é iluminado, que entendeu tudo — e que Olavo tinha razão, talkey? O outro, sempre socrático, te faz questionar as suas certezas, os seus preconceitos, e compreender que tudo o que você sabe é que você nada sabe, e que o que você é não é, no fundo indeterminado do ser, absolutamente nada:

O despertar independe das capacidades intelectuais: pode-se ter gênio e ser um néscio, espiritualmente falando. Por outro lado, não se está nem um pouco mais avançado com o saber enquanto tal. ‘O olho do Conhecimento’ pode ser possuído por um iletrado, que se encontrará portanto acima de qualquer sabichão. Discernir que o que és não é tu, que o que possuis não é teu, não ser mais cúmplice de nada, nem mesmo de tua própria vida – eis o que é ver com justeza, eis o que é descer até a raiz nula de tudo. (Le mauvais démiurge)

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