Experimentei, em grande silêncio e em grande solidão, no meio da natureza, longe da humanidade e perto de mim, uma sensação de interminável tumulto, em que o mundo, como uma torrente irresistível, me atropelou, me atravessou como um fluido transparente e imperceptível. Ao fechar os olhos, o mundo inteiro parece ter-se fundido no meu cérebro, passando por ele num elã torrencial, de um encanto indefinível e de um impulso impetuoso, escorrendo em seguida de mim em formas e altitudes de ondas, como nos sonhos com afogamento de um terror voluptuoso. Senti então não só como um homem pode viver, em certos instantes, toda a misteriosa essência do destino humano, mas também como é possível concentrar—se nele a universalidade do mundo, absorvida em êxtases de solidão. Se fecharmos os olhos para atingir um silêncio e uma solidão ainda maiores, perdemos o Infinito oferecido pela perspectiva exterior e ganhamos um Infinito mais complexo e mais atraente. Nesse momento de êxtase cósmico, de revelação metafísica, senti como os eflúvios que eu emanava eram eflúvios deste mundo, como o meu tremor era o tremor do ser e como a minha alucinação era a alucinação da existência. Então eu me senti, naquele arrepio inesquecível, irresponsável pela existência do mundo.

CIORAN, Emil, Nos Cumes do Desespero. Trad. de Fernando Klabin. São Paulo: Hedra, 2011, p. 144-5.

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