Os anjos são tudo, menos imagens efêmeras. A sequência histórica de religiões ocidentais — zoroastrismo, judaísmo, cristianismo, Islã — não soube contar a história de suas verdades sem intercessões angélicas, nem há grande tradição religiosa, oriental ou ocidental, que não dependa de anjos. A vida espiritual, expressa no culto ou na prece, na contemplação privada ou nas artes, precisa de alguma espécie de visão de anjos. Essa visão brota em algumas eras e murcha em outras, mas permanece de alguma forma, em algum nível. É provável que mesmo secularistas e materialistas metafísicos falem do anjo bom ou mau de alguém, mas raramente se diz que o anjo da manhã ou o da tarde está ao lado. Isso se deve em parte ao fato de que mesmo os crentes muitas vezes encaram os anjo como seres ambíguos: são puro espírito ou têm corpos, comem e bebem, fazem amor e guerra? O próprio Santo Agostinho, a maior de todas as autoridades cristãs, disse que não sabíamos se os anjos tinham corpos materiais, mas essa sábia observação não teve influência. Pode-se tomar São Tomás de Aquino como representante da posição escolástica católica de que os anjos são puramente espirituais, enquanto o poeta John Milton pode representar os humanistas e protestantes que insistiram em que todos os seres reais devem ser corporificados. Milton, na maior obra de toda a angelologia ocidental, o poema épico Paraíso perdido, enfatiza que seus anjos comem e bebem e digerem comida humana, fazem amor com outros anjos e podem ser feridos (mas não mortos) em combate com os de sua própria espécie. Seus anjos bons são também heréticos no se manterem por sua própria força, não pela de Deus, e assim se assemelham à exaltação miltônica do homem, que também tem de se manter ou tombar pelo poder de seu próprio livre-arbítrio. O mais extraordinário retrato de qualquer anjo que temos ou teremos é o do Satanás de Milton, que usa sua liberdade para danar-se titanicamente.

Robert H. West, em seu Milton and the Angels [Milton e os anjos] (1955), acentua que a grande originalidade do poeta, uma quebra com todos os angelologistas cristãos anteriores, foi insistir em que os anjos, não caídos e caídos, faziam amor uns com os outros pelo prazer da realização, e não para gerar rebentos angélicos. Havia uma longa tradição, zoroastriana e apócrifa judaica, de que muitos dos anjos caíram por luxúria pelas belas filhas dos homens, mas parece que John Milton não teve precedente para sua simpática suposição de que os anjos se desejavam uns aos outros, e resolviam o assunto. Existiam fontes cabalísticas e outras para a sexualidade angélica, mas parece que Milton não teve conhecimento delas. Seus anjos são alternadamente machos e fêmeas, trocando de gênero com os parceiros sexuais, mais ou menos ao modo da sexualidade humana no planeta Gether ou Winter, no maravilhoso romance-fantasia de Ursula Le Guin, The Left Hand of the Darkness [A mão esquerda das trevas]. Embora os anjos bíblicos, como os do Corão, pareçam ser apenas machos, a tradição mais antiga na Pérsia e na Babilônia acentuava a existência também de anjos fêmeas, uma ênfase que reaparece no folclore rabínico e alcança ampliação na Cabala. Milton, em grande parte uma seita de um homem só, faz seus anjos muito humanos, e seus Adão e Eva altamente angélicos, de modo a mais uma vez exaltar a imagem do humano, e em particular celebrar as possibilidades divinas implícitas na sexualidade humana.

Para Milton, os anjos eram um espelho no qual todos nós nos miramos, e não vemos nem a nós mesmos nem uma absoluta alteridade, mas uma região média onde se fundem o eu e o outro. Jacob Boheme, místico protestante de fins do século 16 e princípios do século 17, mirou o espelho angélico e viu uma mistura muito diferente da que iria ver Milton. Os anjos de Boheme, que são pensamentos de Deus, têm formas humanas, sem asas, com mãos e pés, mas sem dentes na boca, pois só comem o fruto do Paraíso. Esses anjos alemães não são simples mensageiros; Deus não pode governar a natureza nem a natureza humana sem eles, pois eles  são seus únicos instrumentos. Se todos desertassem de uma vez, o Deus de Boheme ficaria pragmaticamente impotente, porque os elementos positivo e negativo que compõe a dupla natureza de Deus chegariam a um impasse permanente; e os anjos reforçam  lado positivo. Um século depois de Boheme, outro místico formidável, Emanuel Swedenborg, teve uma visão mais abrangente dos anjos. Todos os seus anjos foram outrora mortais e humanos: o anjo é portanto a forma da Ressurreição. Swedenborg, ele próprio famoso engenheiro de minas, encarou o espelho angélico e ali descobriu um Céu e um Inferno que descreveu em minuciosos detalhes, como se fizesse uma pesquisa sobre direitos minerais estrangeiros. Tão vasto e sublimemente literal é o relatório de Swedenborg que o leitor logo sente que Céu e Inferno são países que é melhor não visitar, embora floresça o amor conjugal no mundo angélico, de modo que se fazem novos casamentos lá. O mais curioso nos anjos de Swedenborg é que não são absolutamente estranhos; são tão banais quanto nossos vizinhos. O poeta inglês William Blake, que nasceu em 1757, o ano que Swedenborg chamou de Julgamento Final no mundo espiritual, satirizou alegremente os seus anjos. Em Blake, esses anjos são defensores oportunistas da tripla exaltação, pelo Iluminismo, da razão, da natureza e da sociedade, e portanto alvos adequados para a arte do satirista.

Depois de Blake, os anjos pareceram retirar-se, a não ser para um visionário solitário como o jovem Joseph Smith, fundador do mormonismo. Há anjos em abundância na arte e na literatura dos séculos 19 e 20, mas tendem a ser figuras isoladas e idiossincráticas de uma espiritualidade perdida. E, no entanto, continuam sendo um espelho de aspiração espiritual, talvez mais um estudo das nostalgias da crença do que uma manifestação de fé em seu próprio esplendor. Que existe um anseio humano por anjos, perpétuo e inapaziguável da parte de muitos, não cabe dúvida. O desejo da consolação de uma vida espiritual transcende as estruturas institucionais, históricas e dogmáticas, e pertence à própria natureza humana. A imagem do anjo aparece a muitos de nós no que parecem ser sonhos profeticamente perturbadores, ou paira em momentos de crise de quase morte na fora de um corpo astral. Todos os séculos têm seus fardos de catástrofe; só uns poucos igualam os terrores do que agora expira. Podemos esperar anjos como augúrios do Milênio, assim como devemos estar preparados para encontrá-los às portas do sonho, ou no limiar da morte.

O Milênio, ou advento de uma era messiânica (nas expectativas de alguns de nós), desperta inevitavelmente sensações ambivalentes mesmo naqueles que desprezam a arbitrariedade da aritmética que governa tais cálculos. Nossa herança última de Zoroastro, o profeta do mais antigo monoteísmo, ainda existente em apenas uns poucos no Irã e num pequeno número na Índia, é nosso senso de um possível final dos tempos. Antes de Zoroastro, todas as religiões viam o tempo como cíclico, retornando perpetuamente sobre si mesmo. De Zoroastro em diante, floresceram as expectativas, que acabaram chegando ao judaísmo e seu filho herético, o cristianismo inicial, e depois ao Islã, que brotou do cristianismo judeu. Zoroastro é o ancestral último do Milênio, assim coo su angelologia engendrou inicialmente os anjos que vieram enxamear o judaísmo, o cristianismo e o Islã. Acho adequado que o Islã iraniano, entre os sufistas xiitas, tenha criado a mais convicente versão do mundo angélico, recorrendo diretamente à herança imaginativa da religião do profeta iraniano, Zoroastro. O universo dos anjos encontrou seus mais fortes teóricos nos sufistas, como demonstrarei mais tarde.

BLOOM, Harold, Presságios do milênio: anjos, sonhos e imortalidade. Trad. de Marcos Santarrita. RIo de Janeiro: Objetiva, 1996.

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