O belo livrinho dos Colóquios de Schopenhauer, que a Rizzoli publicou nos seus breviários do “Ramo d’oro” com a curadoria apaixonada de Anacleto Verrecchia, tem-me sido recentemente uma ótima companhia de viagem; e com Arthur Schopenhauer, filósofo que muito me ajudou, junto a Montaigne e Espinoza, a formar juízos livres, a viver e a não viver, iluminando-me sobre muitas coisas como um mestre vivo, eu também conversei, lendo e anotando, retomando argumentos seus, junto aos seus distantes interlocutores, e aproveitei a ocasião de frui-lo dentro da alma, em vez de girar ao redor de um monumento.

Basta uma confissão como esta: “Não me casei por piedade aos filhos que teria podido ter” ao acender uma afinidade. Eu me casei; mas de não gerar filhos fiz um dos fundamentos éticos da minha existência: filhos não encontrei sem procriá-los, e lembrar disso, quando da janela contemplo as ondas apavorantes do oceano do mal e da dor, me imuniza contra um intolerável enjoo.

A fidelidade rigorosa a este princípio visto como negativo, de recusa a propagar, como um destino penoso, o rosto humano, era para os doutores do Talmude uma culpa grave: de alguém sem filhos diziam que diminuía a Semelhança (de Deus); mas o homem como símile de Deus é uma ideia ao mesmo tempo vertiginosa e insuportavelmente blasfema e absurda, e também aqui emerge a inconciliabilidade de Schopenhauer com a visão bíblica, reflexo de um grande combate entre otimismo hebraico radical (seria melhor dizer farisaico) e pessimismo budista.

Parece-me que amar, casar-se e acolher filhos em gerá-los não está excluído da Ordem da compaixão infinita; não deixa de ser ajudar outros seres, eles também perdidos, no seu caminho em direção à morte; aliviar neles, ainda que minimamente, o clamante sofrimento cósmico. Todavia, Schopenhauer errou o seu verdadeiro alvo, a salvação do gênero humano não está ao alcance do seu livro: e bem na sua época em diante a perdição humana, irredimível, acelerou o passo.

Alexis Philonenko, recentíssimo e admirável exegeta de Schopenhauer, recorda o verso de Byron: “A Árvore do Conhecimento não é a da Vida”, que separa com rigor de fogo os dois campos e me explica o mito do Gênese como laceração trágica: o casal não escolhe, sai do Éden atordoado, com o Conhecimento no estomago e a Vida escondida sob a folha de figo, destinado a procriar logo um Abel que infinitas vezes morrerá assassinado e um Caim que sempre será a pedra de fundação da cidade humana. Segundo Philonenko, a árvore do Conhecimento é idêntica à árvore da Morte: é verdade se se entende por morte a morte ao mundo, única via que libera da sujeição à destruição física (e do mundo). É a via budista e vedântica, schopenhaueriana mas também grega, cristã, maniqueia, sufista, taoísta. A escolha do Conhecimento é a forma superior da nossa eterna e selvagem luta contra o anjo da morte.

Nem pode ser um ato de egoísmo, quando quem faz esta escolha faz dom do absoluto que tocou os outros, como está escrito antes do imenso poema filosófico de Schopenhauer. É justamente este dom a purgá-lo de não poucos pecados de egoísmo, e da vaidade (especialmente senil), a mitigar nele fortemente a misantropia, pois foi como uma morte expiatória, um sacrifício de si por meio do pensamento. Mas certamente Schopenhauer tinha total consciência dos riscos de fechamento egotista inerentes à vida solitária, e de não ser um santo (portanto um raté em relação ao seu sistema ético).

Verrechia chama-o, por um lado, Buda do Ocidente, e, por outro, na nota, pensador – a vibração é toda solidária e elogiosa – satânico. Foi um bom Adversário, mas do Maligno (encarnado antes em Hegel e nos fichtianos), nem do satanismo do seu século vejo rastro na sua vida e na sua obra. Quanto a ser um Buda ocidental, não blasfememos… Já é inutilizável a expressão: budista ocidental, pois não se pode dizer de nenhum tipo de iluminação que seja ocidental; onde há luz, há sempre Oriente, seja na Ásia ou no Main. Catarina de Siena, meteoro luminoso, é ocidental? Dante, anjo de luz, não é um puríssimo zéfiro oriental? Schopenhauer é um romântico ocidental que recolhe e acende entre os alemães opacos o Oriente do Buda e dos Upanixades, com estranhos e grandiosos efeitos de claro-escuro.

Também nos colóquios retornam vários motivos do antissemitismo de Schopenhauer, que no seu aspecto mais evidente é um antijudaísmo e um antibiblismo volteriano repercutidos com toda a profundidade de um golpe de gongo metafísico. Voltaire é superficial; Schopenhauer, um mergulhador; a sua luta com o Deus bíblico não é uma rajada de piadas do Dictionnaire philosophique. Mas luta com alguém que se esconde.

Num pensador de tão grande retidão intelectual, a baixeza psicológica antissemita não poderia insinuar-se, nem o seu antibiblismo pode ser dito um fenômeno de incompreensão. É antes um fenômeno de incompatibilidade. Certamente se combinam, na sua bizarra mas coerente natureza, anti-hegelianismo e antissemitismo: o judeu é visto por ele (e com razão) como um otimista histórico e, após a grande revolução, um portador de revoluções por toda a Europa, em vista de um messianismo material inadmissível. E revolução, seja política ou o avanço hegeliano do divino, era para Schopenhauer o horror dos horrores, a mentira das mentiras… “Os judeus são piores do que os hegelianos” é o cúmulo do insulto antissemita schopenhaueriano, mas não é um grito de pogrom.

Mas o que restaria desse antissemitismo não psicológico nem demonológico se o bom filósofo lesse hoje Kafka, ou tivesse dado mais peso a certos textos escriturais, mal vistos pelos otimistas, como Qohelet e Jó? Os nômades semitas odiavam o keleb, o cão, abandonado, raivoso e perigoso; é um ódio escritural, cão é sempre, nos textos, metáfora de opróbrio e de medo. Para Schopenhauer, apegadíssimo ao seu encaracolado poodle, Atma, a vida livre de cão não era sequer vida! Mas, mas cidades alemãs, certamente não faltarão judeus cinófilos… Há tiradas, nos seus jantares no Englischer Hof, ou na sua casa decorada com o sorriso de uma estátua do Buda, contra as passagens do Gênese em que Elohim, o Criador, acha molto buono o mundo que plasmou. E repetia, furioso, em grego: Panda kalà! Tudo é bom! Mas este mundo infame!

Ah, filósofo! Este panda kalà do Gênese ressoou inclusive na sua apreciada Grécia! “Para Deus, tudo é belo e tudo é bom”, diz o sublime Heráclito, “mas os homens chamam algumas coisas justas, e outras injustas”. Julga inadmissível que um Deus moral tenha consignado ao poder dos homens os animais; de fato, só pode ser assim por decreto aos olhos humanos justos injustíssimo, razão pela qual é impenetrável. Mas, se esse decreto infame não fosse senão a ocasião dada ao homem para afirmar um princípio mais alto, infringindo-o? Sei de um jovem ator que, à noite, pula os muros para abrir as jaulas dos laboratórios de vivisseccionistas; talvez seja nele o comprazimento de Deus; porque é no paradoxo divino que a lei seja feita para a infração.

Philonenko explica o antissemitismo de Schopenhauer com o hebreu homem da Lei, que nega no fundo a liberdade por amor à submissão. O homem da Lei é mais o doutor farisaico do que o judeu em geral, especialmente moderno. (A Lei, para ele e para nós, é aquela porta pela qual não se entra, no Processo[1]). O judeu, por paixão moral, se rebela também contra Deus; é do muçulmano a submissão. Schopenhauer detesta o judeu como um dos mais surpreendentes produtos da maléfica vontade de viver, o ávido multiplicado de universos de dor, inaceitável no próprio sistema.

Mas com toda a sua zoofilia jamais foi vegetariano; o Englischer Hof servia grelhados e frangos não parcimoniosos, os quais não parece ter comido com peso na consciência.

É interessante o que diz Verrecchia, ao término da sua nota, ser a tumba de Schopenhauer, em Frankfurt, sempre coberta de flores frescas. Não serão as mãos de professores de filosofia a coloca-las, mas de simples leitores cheio de gratidão, de devotos da verdade, por ele muitíssimo amada, e, nos momentos de máxima inspiração, encarnada. Se um dia eu for a Frankfurt, lugar que não me atrai, não deixarei de colocar eu também uma flor sobre o túmulo de Arthur Schopenhauer. Tão nefasto foi Hegel como, com influxo menor, foi benéfico Schopenhauer. Ter visto em Hegel, o “charlatão metafísico”, algo de tenebroso, o fundador da miserável idolatria da história que nutriu as mentes e as nações, é um privilégio de visionário. Quem aprende com Schopenhauer não terá mais ídolos de partido, de classe, de raça, de nação, de Estado. Como não terá a idolatria da história, e nãos terá aquela, tão maléfica quanto, da vida. Porque nenhuma idolatria é boa, e de Schopenhauer não se produzem idólatras. É um parentesco secreto que ele tem com os profetas de Judá.

Tinha perfeitamente razão contra os otimistas do seu século. Daquele otimismo derivam todos os horrores do nosso. E continua a predicar otimismo, com uma sem-vergonhice, esta sim, verdadeiramente satânica. Com uma cegueira do que há tem de imundo… Um insulto ininterrupto ao sofrimento humano, à pena do mundo! Um cristianismo que de ascético se fez chupador do progresso! Populorum progressio… mas esta é uma voz saída da tumba de Hegel, do outro lado do muro de Berlim! Não duvidar do homem é vocação ao suicídio; a idolatria da vida é abrir todos os abismos da morte! Não existe predicador de otimismo que seja puro; muitos, de mãos sujas, banham-se no crime. Tanta gente que silencia sente hoje o mal-estar, a doença, o perigo, a impiedade da predicação otimista universal, e a sente como opressão, como náusea, toda vez que abre uma torneira e lhe chega a água, ou abre um jornal e a catarata a invade.

Nem Buda, Nem Satanás: uma magnífica cabeça pensante, uma evasão de muitas prisões do pensamento, um guia para os perdidos. Uma flor, muitas flores para Arthur Schopenhauer.

1983

CERONETTI, Guido, “Né Buddha né Satana: Schopenhauer”, La Lanterna del Filosofo. Milano: Adelphi: 2005, p. 147-154.

Trad. de Rodrigo Menezes

NOTAS:

[1] O romance de Franz Kafka.

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