Os homens se tornam cavalos e os cavalos tomam o lugar dos homens: eis a reviravolta carnavalesca da realidade graças à qual Jonathan Swift confuta a definição filosófica segundo a qual “homo est animale rationale“, para demonstrar que na melhor das hipóteses ele é um animal “rationis capax” [capaz de razão]. Todavia, emerge dos contos gulliverianos uma hipótese ainda pior, ou seja, que o ser humano seja um animal mais débil do que uma formiga, mais lento do que um potro, mais feroz do que um lobo, mas mais estúpido do que um asno: “Upon this great foundation of Misanthropy“, escreve Swift numa famosa carta a Alexander Pope, “the whole building of my Travells is erected“. Para precisar, entretanto, numa carta seguinte, que para chegar a não detestar a humanidade, é necessário aprender a ser misantropo, no sentido de que é necessário aprender a aceitar os seres em toda sua miséria constitutiva: “I tell you after all that I do not hate Mankind, it is vous autres who hate them because you would have them reasonable Animals, and are Angry for being disappointed. I always rejected that Definition and made another of my own” [Eu vos digo que não odeio a Humanidade, são vous autres que a odeia porque a estimava feita de animais razoáveis, e estais nervosos pois fostes decepcionados. Eu sempre rejeitei essa definição e criei uma outra para mim]

Uma atitude que caracterizará a obra inteira de Cioran, cuja misantropia é sempre o efeito de uma profunda sensibilidade ao sofrimento da existência humana e de uma profunda ausência de sofrimento [insofferenza] pela fanfarronice dos yahoo. Nos Cahiers, comentando a conclusão do quarto livro das Viagens de Gulliver, Cioran observa: “Gulliver retorna ao lar após cinco anos de ausência e, quando abraça a sua esposa, cai em desgosto. Chegava do país dos cavalos, e não podia suportar o fedor do animal humano. O homem cheira mal, é um monstro que fede, esta é a conclusão de Swift.” Nesta passagem, o fedor do homem é um prelúdio à decomposição da sua racionalidade, porque em Swift a paródia do animal racional parte sempre da sátira do seu corpo e da denúncia de suas deficiências fisiológicas; assim como acontece em Cioran, que faz da carne humana um dos centros gravitacionais da sua sátira filosófica. E é um aspecto interessante, porque a tese de Cioran, para quem o fisiológico detém prioridade ontológica sobre o espiritual, vem normalmente relacionada às doutrinas de Nietzsche e Schopenhauer: assunto certamente correto, mas que não leva em consideração que Cioran maldiz o corpo humano e inspeciona as suas aberrações macabras principalmente para diagnosticar o fato de que a razão não é uma cura, mas uma doença da nossa existência. Não é por acaso que, num capítulo de Le Mauvais Démiurge, intitulado “Paléontologie”, o nosso autor reivindique Swift explicitamente e que — desfrutando a circunstância de uma visita ao Museu de História Natural — proponha uma contra-narrativa satírica da histórica evolucionária, cujo epílogo seria representado pela posição ereta do ser humano. Segundo Cioran, o homem penou inutilmente para obter o privilégio da verticalidade, ao ponto que, tendo chegado aos cumes das suas potencialidades, ou seja, “tendo chegado ao limiar da senilidade, se ressimiará,[1] pois não se vê o que poderia fazer de melhor.” (Le Mauvais Démiurge)

A esperança de Cioran de reintegrar-se aos símios evoca o desejo de Gulliver de retornar ao país dos cavalos. Em ambos os casos se trata de uma vontade de reaproximar-se das bestas que não manifesta apenas uma negação da evolução humana, mas também uma fuga da sociedade humana: fuga que é um regresso e portanto, no mesmo instante, uma confutação cética de toda teoria do progresso. Esta esperança de dar um passo para trás, em direção a uma espécie biológica anterior, torna-se uma metáfora grotesca da futilidade de toda tentativa utópica de aperfeiçoamento antropológico. Uma caricatura que, tal como nas sátiras swiftianas, não é destituída do melancólico sentimento de ser uma criatura ridícula, semelhante a uma besta nascida coxa e de cabeça para baixo.

VANINI, Paolo, Cioran et l’utopia. Milão: Mimesis, 2018.

NOTAS:

[1] “il se resingera…”; futuro simples do verbo resinger, cunhado por Cioran a partir de singe: “macaco” ou “símio” em francês. A solução encontrada por Richard Howard, tradutor do inglês, é re-ape; Fernando Savater, em espanhol, optou por resimiar; Diana Grange Fiori, em italiano, por ri-scimmierar. Optou-se aqui por “ressimiar-se” (N. do T.).