“A habilidade de S贸crates” (E.M. Cioran)

Se tivesse dado precis玫es acerca da natureza do seu dem贸nio, teria estragado uma boa parte da sua gl贸ria. A prud锚ncia da sua precau莽茫o criou a seu respeito uma curiosidade que inclui antigos e modernos; permitiu, al茅m disso, aos historiadores da filosofia insistirem num caso que se mostra inteiramente estranho 脿s suas preocupa莽玫es. Trata-se de um caso que evoca outro: o de Pascal. Dem贸nio, abismo, s茫o para a filosofia duas doen莽as excitantes ou duas piruetas… Reconhe莽amos que o abismo em causa nos desorienta menos. Avist谩-lo e reivindic谩-lo, nada mais natural por parte de um esp铆rito em luta aberta contra a raz茫o; mas seria natural que o inventor do conceito, o promotor do racionalismo, se autorizasse invocando 芦vozes interiores禄?

Tal g茅nero de equ铆voco n茫o deixa de ser fecundo para o pensador que visa a posteridade. Em nada nos preocupamos com o racionalismo subsequente: adivinhamo-lo e, sabendo onde ele quer chegar, abandonamo-lo ao seu sistema. Calculista e inspirado ao mesmo tempo, S贸crates soube, pelo seu lado, que fei莽茫o imprimir 脿s suas contradi莽玫es para elas ainda hoje nos surpreenderem e desconcertarem. Seria o seu dem贸nio um fen贸meno puramente psicol贸gico ou corresponderia, pelo contr谩rio, a uma realidade profunda? Era de origem divina ou confundia-se somente com uma exig锚ncia moral? Era algo que S贸crates ouvia deveras ou n茫o passaria de uma alucina莽茫o? Hegel considera-o um or谩culo inteiramente subjectivo, sem nada de exterior; Nietzsche, um artif铆cio de comediante.

Como podemos acreditar que se passe uma vida inteira a fazer de homem que ouve vozes? Sustentar semelhante papel teria sido, mesmo para um S贸crates, fa莽anha dif铆cil, sen茫o imposs铆vel. No fundo, pouco importa que tenha sido dominado pelo seu dem贸nio ou que se tenha apenas servido dele de acordo com as necessidades da sua miss茫o. Se o forjou por completo, 茅 porque teve, sem d煤vida, necessidade disso, que mais n茫o fosse para se tornar impenetr谩vel aos outros. Solit谩rio rodeado de gente, o seu primeiro dever era escapar aos que o rodeavam, entrincheirando-se atr谩s de um mist茅rio real ou fingido. Por que meios distinguir entre um dem贸nio verdadeiro e um dem贸nio inventado? Entre um segredo e uma apar锚ncia de segredo? Como saber se S贸crates divagava ou sava de ast煤cia?

A verdade 茅 que se o seu magist茅rio nos deixa indiferentes, o debate que suscitou a seu pr贸prio respeito ainda nos toca: n茫o foi ele o primeiro pensador a erigir-se em caso? E n茫o 茅 com ele que come莽a o inextric谩vel problema da sinceridade?

CIORAN, E. M., A Tenta莽茫o de Existir. Trad. de Miguel Serras Pereira e Ana Luisa Faria. Lisboa: Rel贸gio D’脕gua, 1988.

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