“Cioran não ficou imune aos equívocos políticos, o pecado original dos filósofos” (José Thomaz Brum)

O Globo, 20 de janeiro de 1996

A filosofia de Cioran não constitui uma arquitetura abstrata de conceitos ideais. Meditação fundamentalmente impura, deriva de um estado de espírito, de uma obsessão mais do que se uma ideia a priori. Filósofo que parte dos afetos, das “misérias do eu”, Cioran conheceu, em sua reflexão errática, momentos de fervor e de remorso, de paixão e de autocrítica implacável.

Os equívocos políticos são o pecado original dos filósofos: Jean-Paul Sartre e a sua missão diante dos crimes stalinistas, Michel Foucault e sua adesão de primeira hora ao aiatolá Khomeini e, sobretudo, Martin Heidegger e sua dedicação ao nacional-socialismo. Cioran não ficou imune a esses deslizes. Nos 20 e início dos 30, engajou-se num projeto nacionalista comum à maioria dos intelectuais de sua geração: fornecer uma nova ideia da Romênia para a Europa.

Junto com Cioran neste projeto estavam Constantin Noica e, principalmente, o guia dessa geração, o já célebre Mircea Eliade. Uma revista, “Cuvintul”, conjugava esses pensamentos, e os intelectuais namoravam também as ideias do movimento meio místico, meio político da Guarda de Gerro, que mesclava elementos da Igreja Ortodoxa com posturas do fascismo europeu.

Cioran, jovem entusiasta, aderiu a este projeto nacionalista com um fervor que mais tarde rejeitará sem nenhuma autocomplacência: “Quando penso hoje nesses momentos de entusiasmo e de furor, os atribuo não mais a sonhos de filantropia e de destruição, à obsessão de não sei qual pureza, mas a uma tristeza bestial dissimulada sob a máscara do fervor” (“História e utopia”). Em “Meu país”, texto inédito escrito provavelmente nos anos 50, ele também se refere a essa época exaltada de sua juventude: “Nós, os jovens do meu país, vivíamos de insensatez. Era o nosso pão cotidiano. Colocados em um canto da Europa, desprezados ou negligenciados pelo universo, queríamos que falassem de nós”.

Os extremismos políticos da época ofereciam aos jovens os mesmos ideais de sempre: grandeza e regeneração. A regeneração do seu país – esta ideia transparece no livro “A transfiguração da Romênia” (1936) onde diatribes contra os judeus, húngaros e estrangeiros se misturam com ataques veementes contra o conformismo e a passividade dos próprios romenos, incapazes, segundo o autor, de sair do seu “torpor ancestral”.

Os engajamentos nacionalistas de juventude (que jamais significaram filiação a qualquer partido oficial) deixaram marcas profundas no homem Cioran. Foram eles que o fizeram, num movimento de auto-repulsa e remorso, decidir-se a romper com a Romênia, pelo exílio voluntário na França. Seu espírito altamente exigente e autêntico encontrou na adoção definitiva de uma atitude cética a resposta para seus embates interiores com os erros de juventude. A grandeza de Cioran é ter feito desses embates a matéria-prima de sua obra.

A adoção definitiva da língua francesa como forma de expressão não por acaso exige a condenação radical de todos os fanatismos e ideologias: “Em si mesma, toda ideia é neutra ou deveria sê-lo; mas o homem a anima, projeta nela suas chamas e suas demências; impura, transformada em crença, insere-se no tempo, toma a forma de acontecimento: a passagem da lógica à epilepsia está consumada… Assim nasceu as ideologias, as doutrinas e as farsas sangrentas” (“Breviário de decomposição”, 1949).

O “Breviário de decomposição”, primeiro texto francês de Cioran, revela a sua atitude desilusionista que marcará a totalidade de sua obra: denúncia da ilusão que subjaz a todo credo ideológico, crítica inapelável de todo fanatismo político e religioso.

A partir daí Cioran desenvolveu uma filosofia pessimista da História, na qual o ceticismo é o antídoto eficaz contra os entusiasmos messiânicos. O que é essencial é a constatação de que tal atitude se harmoniza perfeitamente com as grandes desilusões da civilização ocidental: a Segunda Guerra e o comunismo legaram ao Ocidente o espetáculo macabro dos campos de concentração (hitleristas ou marxistas), e a herança que temos dessas agruras é o terrorismo que nada mais é senão o autoritarismo da violência.

“Como se pode ser romeno?” A paráfrase à famosa pergunta de Montesquieu nas “Cartas persas” poderia situar muito bem o dilema que angustiava Cioran. Ser romeno é pertencer a uma “cultura menor” em comparação às grandes culturas da Europa, é ter o orgulho ferido de um povo que “não fez História”. Essas questões complexas e intrigantes – que falam de perto inclusive a nós, brasileiros, que as recalcamos sob a ilusão do ufanismo – colocam a identidade romena de Cioran como uma ferida aberta que ele transcendeu forjando para si uma nova identidade: a de escritor francês.

Ao longo de sua existência em Paris, a Romênia permaneceu como uma referência nostálgica e quase sempre ligada a sua infância no vilarejo de Rasinari. A paisagem de sua infância rural, esta era a Romênia viva para Cioran, e não algum ideal cívico equivocado de sua juventude.

Mas, ao lado da imagem idílica da Romênia de sua infância, Cioran nunca deixou de se interessar pelos infortúnios de seus compatriotas. Persona non grata durante p regime do ditador Ceausescu, sempre acolheu com generosidade intelectuais romenos em sua célebre mansarda pariense. Admirado pelo socialista François Mitterrand, que um dia mandou buscá-lo de helicóptero só para uma conversa, Cioran se tornou um ponto de referência libertário para o sofrido povo romeno.

Outro ponto importante a destacar na questão nacional em Cioran é a sua relação com os judeus. Em “A tentação de existir” (1956), no capítulo “Um povo de solitários”, Cioran faz um ajuste de contas com suas opiniões passadas sobre os judeus: “E, no entanto, teria eu sempre feito justiça a eles? De modo algum. Se, aos 20 anos eu os amava a ponto de lamentar não ser um dos seus, mais tarde, não podendo perdoá-los pelo papel preponderante que desempenharam na História, comecei a detestá-los com a raiva de um amor-ódio. O brilho de sua onipresença me fazia sentir melhor a obscuridade de meu país destinado, eu sabia, a ser sufocado ou mesmo a desaparecer; enquanto que eles, também o sabia, sobreviveriam a tudo, acontecesse o que acontecesse. Aliás, nessa época, eu tinha apenas uma comiseração livresca por seus sofrimentos passados e não podia adivinhar os que os aguardava.”

As relações de Cioran com os judeus têm dois momentos emblemáticos: a convivência com Benjamin Fondane, o discípulo de Léon Chestov que morreu em Auschwitz, apesar das tentativas de Cioran e outros intelectuais de protegê-lo; e a grande amizade com o poeta judeu Paul Celan, que traduziu para o alemão “Breviário de decomposição” e se matou em Paris, em 1970. O jornal judaico “Information juive” de julho de 1995 saúda Cioran como um dos amigos judeus ressalta a semelhança espantosa de seus aforismos com a sabedoria de alguns dos mestres hassídicos.

Se Heidegger, considerado o maior filósofo do século, não utilizou sua inegável força conceitual para analisar a tragédia do holocausto, fruto do nacional-socialismo ao qual aderira, Cioran deixou em sua obra um notável testemunho de repúdio aos fanatismos e de alerta aos engajamentos entusiastas. Não há grandeza alguma no silêncio de Heidegger, nem em sua obsessão de repetir – até a morte – que só se pode “pensar” em alemão. Como diz Jerôme Garcin, em clara referência a Cioran, “pelo menos, arrepende-se melhor em francês”.

JOSÉ THOMAZ BRUM é filósofo e tradutor de três livros de Cioran.

Deixe aqui suas impressões, comentários e/ou críticas. Deja aquí sus impresiones, comentarios y/o críticas. Leave your impressions, comments and/or critiques here. Laissez ici vos impressions, commentaires et/ou critiques. Lăsați-vă impresiile, comentariile și sau recenziile aici. Lascia qui le sue impressioni, commenti e/o recensioni.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s