Tímon passou os últimos anos de sua longa vida em Atenas, onde morreu no ano de 235 a.C. Com sua morte, a escola de Pirro teve fim enquanto escola, mas, por mais estranho que possa parecer, suas doutrinas foram adotadas — com algumas alterações — pela Academia, representante da tradição platônica.

O homem que realizou essa surpreendente revolução filosófica foi Arcesilau, contemporâneo de Tímon que faleceu muito idoso, em cerca de 240 a.C. O que a maioria dos homens assimilou de Platão foi a crença num mundo intelectual suprassensível, bem como na superioridade da alma imortal em relação ao corpo perecível. Platão, porém, tinha muitas faces, e em alguns aspectos poderia ser visto como propagador do ceticismo. O Sócrates platônico declara nada saber; essa afirmação nós normalmente tratamos como ironia, mas poderia ser levada a sério. Muitos dos diálogos não logram nenhuma conclusão positiva e almejam deixar o leitor em estado de dúvida. Alguns — a parte final do Parmênides, por exemplo — parecem não ter qualquer objetivo senão o de revelar que ambos os lados de qualquer questão podem ser defendidos com igual plausibilidade. A dialética platônica pode ser tratada como fim em vez de meio, e nesse caso se presta admiravelmente à defesa do ceticismo. Parece ter sido essa a forma como Arcesilau interpretou o homem a quem ainda professava seguir. Ele havia decapitado Platão, mas o torso que restara era genuíno.

O modo como Arcesilau ensinou mereceria muitos elogios caso os jovens alunos tivessem se mostrado capazes de evitar a paralisia que aquilo lhes causava. Arcesilau não defendia nenhuma teoria, mas refutaria toda tese elaborada por um pupilo. Às vezes defendia duas proposições contraditórias em ocasiões sucessivas, demonstrando assim como argumentar convincentemente em favor de ambas. Um pupilo vigoroso o bastante para rebelar-se poderia aprender a destreza e a evasão das falácias, mas na realidade nenhum parece ter aprendido nada além da sagacidade e da indiferença pela verdade. Tão grande foi a influência de Arcesilau que a Academia permaneceu cética por cerca de duzentos anos.

No meio desse período, ocorreu um divertido incidente. Carnéades, digno sucessor de Arcesilau no comando da Academia, foi um dos três filósofos que Atenas enviou em missão diplomática a Roma no ano de 156 a.C. Ele não via razões para que sua dignidade como embaixador prejudicasse sua principal ocupação, e assim anunciou uma série de aulas em Roma. Os jovens, que à época ansiavam por imitar os modos gregos e por adquirir a cultura da Grécia, afluíram para ouvi-lo. Sua primeira lição expôs as visões de Aristóteles e Platão sobre a justiça, sendo completamente edificante. A segunda, por sua vez, teve como objetivo refutar tudo o que fora dito na primeira — não, porém, com o intuito de obter conclusões opostas, e sim para demonstrar que toda conclusão é injustificada. O Sócrates de Platão afirmara que a injustiça fazia mais mal para quem a cometia do que para a vítima. Carnéades, em sua segunda lição, tratou esse ponto de vista com desprezo. Os grandes Estados, assinalou, se tornaram grandes porque cometeram agressões injustas contra seus vizinhos mais fracos; em Roma, era impossível negá-lo. Num naufrágio, você pode salvar a própria vida às custas de outra mais fracada, e estaria sendo tolo se não o fizesse. Ele parece acreditar que “Mulheres e crianças primeiro” não é máxima que conduz à sobrevivência pessoal. O que você faria caso estivesse fugindo de um inimigo vitorioso e, tendo perdido seu cavalo, encontrasse um companheiro ferido sobre o dele? Se sensato, derrubá-lo-ia e pegaria o animal, independentemente do que a justiça ditasse. Esse raciocínio pouco edificante é surpreendente em quem se diz seguidor de Platão, mas parece ter agradado aos jovens romanos de espírito moderno. […]

Após Carnéades (ca. 180 a ca. 110 a.C.), o líder da Academia foi um cartaginês cujo verdadeiro nome era Asdrúbal, mas que ao lidar com os gregos preferia ser chamado de Clitômaco. Ao contrário do antecessor, que limitou-se às aulas, Clitômaco escreveu mais de quatrocentos livros, alguns dos quais em língua fenícia. Seus princípios parecem ter sido os mesmos de Carnéades. Em alguns aspectos, eram úteis. Esses dois céticos se opuseram à crença na adivinhação, na magia e na astrologia que cada vez mais se espalhava. Também elaboraram uma doutrina construtiva referente aos graus de probabilidade: embora a certeza jamais se justifique, algumas coisas têm mais probabilidade de serem verdadeiras do que outras. A probabilidade deve guiar-nos na prática, uma vez que é razoável agir de acordo com a mais provável das hipóteses plausíveis. Com essa visão a maioria dos filósofos modernos estaria de acordo. Infelizmente, os livros que a enunciam foram perdidos, e é difícil reconstituir a doutrina a partir dos indícios que sobrevivem.

Após Clitômaco, a Academia deixou de ser cética, e a partir de Antíoco (cuja morte se deu em 69 a.C.) suas doutrinas passaram a ser, durante séculos, quase a mesma dos estoicos.

No entanto, o ceticismo não desapareceu. Seu resgate foi feito por Enesidemo, cretense oriundo de Cnossos, onde, segundo o pouco que sabemos, podem ter existido céticos dois mil anos antes, distraindo cortesãos dissolutos com dúvidas quanto à divindade da senhora dos animais. As datas de Enesidemo são incertas. Ele rejeitou as doutrinas da probabilidade que Carnéades propusera e retornouo às formas mais antigas de ceticismo. Sua influência foi considerável; seguiu-o o satírico Luciano, no século II d.C.; também, pouco depois, Sexto Empírico, único filósofo cético da Antiguidade cujas obras ainda sobrevivem. Há, por exemplo, um pequeno tratado, intitulado “Argumentos contra a crença em Deus”, que foi traduzido por Edwyn Bevan em Later Greek Religion (p. 52-56) e que, segundo este, foi provavelmente retirado de Carnéades, tal qual relata Clitômaco.

O tratado se inicia com a explicação de que, no comportamento, os céticos são ortodoxos: “Nós, céticos, seguimos na prática os modos do mundo, mas sem defendermos nenhuma opinião sobre eles. Falamos dos deuses como se existissem, prestamo-lhes culto e dizemos que exercem a providência; no entanto, quando assim nos expressamos, não exprimimos crença alguma e evitamos a imprudência dos que dogmatizam.”

Ele então declara que as pessoas diferem quanto à natureza de Deus; alguns, por exemplo, julgam-No incorpóreo, e outros, corpóreo. Uma vez que não temos experiência dEle, não podemos conhecer Seus atributos. A existência de Deus não é autoevidente, e portanto necessita de provas. Segue-se um raciocínio um tanto confuso para provar que tais provas são impossíveis. Em seguida, ele se ocupa do problema do mal e termina com as seguintes palavras:

Os que afirmam positivamente que Deus existe necessariamente resvalam na impiedade. Com efeito, se dizem que Deus controla tudo, convertem-No em autor das coisas más; se, por outro lado, declaram que controla tão-somente algumas coisas, ou mesmo que nada controla, veem-se obrigados a fazer dEle um invejoso ou impotente, o que é impiedade claríssima.

O ceticismo, embora continuasse a encantar indivíduos cultos até o século III d.C., opunha-se ao espírito da época, que cada vez mais voltava-se para a religião dogmática e para as doutrinas da salvação. O ceticismo teve força suficiente para fazer que os homens instruídos se desagradassem das religiões estatais, mas nada tinha de positivo, nem mesmo na esfera puramente intelectual, que pudesse colocar em seu lugar. Do Renascimento em diante, o ceticismo teológico foi substituído, na maioria de seus proponentes, por uma crença entusiasmada na ciência, mas na Antiguidade não havia substituto como esse para a dúvida. Sem responder aos argumentos dos céticos, o mundo antigo se afastou deles. Desacreditados os deuses do Olimpo, desobstruiu-se o caminho para a invasão das religiões orientais, as quais competiram pela adesão dos supersticiosos até o triunfo do cristianismo.

RUSSELL, Bertrand, História da Filosofia Ocidental, vol. I (“A Filosofia Antiga”). Trad. de Hugo Langone. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.

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