Como as grandes obras, os sentimentos profundos sempre significam mais do que t√™m consci√™ncia de dizer. A const√Ęncia de um movimento ou repuls√£o dentro da alma se reconhece em h√°bitos de fazer ou de pensar e se persegue em conseq√ľ√™ncias que a pr√≥pria alma ignora. Os grandes sentimentos trazem junto com eles seu universo, espl√™ndido ou miser√°vel. Com sua paix√£o, aclaram um mundo exclusivo onde reencontram seu pr√≥prio clima. H√° um universo do ci√ļme, da ambi√ß√£o, do ego√≠smo ou da generosidade. Um universo, isto √©, uma metaf√≠sica e um estado de esp√≠rito. O que √© verdadeiro para sentimentos j√° especializados o ser√° mais ainda para emo√ß√Ķes, no fundo, a um tempo t√£o indeterminadas, t√£o confusas e t√£o “certas‚ÄĚ, t√£o distantes e t√£o “presentes” quanto aquelas que o belo nos desperta ou que o absurdo nos suscita.

O sentimento da absurdidade para com o desvio de uma rua qualquer pode se meter na cabe√ßa de homem qualquer. Assim como, em sua desoladora nudez, em sua luz sem cintila√ß√£o, ele √© incaptur√°vel. Mas at√© essa dificuldade merece reflex√£o. √Č provavelmente certo que um homem permanece para sempre desconhecido de n√≥s e que para sempre haver√° nele alguma de irredut√≠vel que nos escapa. Mas, praticamente, conhe√ßo os homens e os reconhe√ßo em seu comportamento, no conjunto de seus atos, nas conseq√ľ√™ncias que sua passagem vai provocando na vida. De igual modo, todos esses sentimentos irracionais que a an√°lise n√£o saberia dominar eu posso praticamente defini-los, praticamente apreci√°-los, para reunir a soma de suas conseq√ľ√™ncias na ordem do entendimento, para captar e anotar todos os seus aspectos, para descrever seu universo. √Č verdade que, aparentemente, por ter visto cem vezes o mesmo ator, eu n√£o conhecerei pessoalmente melhor esses seus tra√ßos. No entanto, se fa√ßo a soma dos her√≥is que ele encarnou e se digo que o conhe√ßo um pouco mais na cent√©sima personagem recenseada, j√° se sente que haver√° a√≠ uma parcela de verdade. Porque aparente paradoxo √© tamb√©m um ap√≥logo. Tem a sua moralidade. Ensina-nos que um homem se define tanto por suas com√©dias quanto por seus impulsos sinceros. D√°-se o mesmo, um tom abaixo, com sentimentos inacess√≠veis no cora√ß√£o mas parcialmente tra√≠dos pelos atos que os animam e os estados de esp√≠rito que pressup√Ķem. Sente-se que, dessa maneira, defino um m√©todo. Mas tamb√©m se sente que esse m√©todo √© de an√°lise e n√£o de conhecimento. Porque os m√©todos envolvem metaf√≠sicas, traem na sua insci√™ncia as conclus√Ķes que, √†s vezes, pretendam ainda n√£o conhecer. Por isso as √ļltimas p√°ginas de um livro j√° est√£o nas primeiras. √Č um n√≥ inevit√°vel. O m√©todo aqui definido confessa a percep√ß√£o de que todo verdadeiro conhecimento √© imposs√≠vel. S√≥ se podem enumerar as apar√™ncias e se fazer sentir o clima.

Então, talvez possamos atingir esse inapreensível sentimento da absurdidade nos mundos diferentes, mas fraternos, da inteligência, da arte de viver ou da arte simplesmente. O clima da absurdidade está no começo. O fim é o universo absurdo e esse estado de espírito que aclara o mundo com uma luz que lhe é própria, para fazer com ela resplandecer o rosto privilegiado e implacável que nele identifica.

Todas as grandes a√ß√Ķes e todos os grandes pensamentos tem um come√ßo irris√≥rio. As grandes obras nascem, freq√ľentemente, na esquina de uma rua ou no barulho de um restaurante. Assim tamb√©m a absurdidade. O mundo absurdo, mais que qualquer outro, extrai sua nobreza desse nascimento miser√°vel. Em certas situa√ß√Ķes, responder “nada” a uma quest√£o sobre a natureza de seus pensamentos pode ser uma dissimula√ß√£o para com um homem. Os entes queridos sabem disso. Mas se essa resposta √© sincera; se representa esse estado d’alma em que o vazio se torna e eloq√ľente, em que a cadeia dos gestos cotidianos √© rompida, e em que o cora√ß√£o inutilmente procura o anel que a restabele√ßa, ent√£o ela √© como que o primeiro sinal da absurdidade.

Ocorre que os cen√°rios se desmoronam. Levantar-se, bonde, quatro horas de escrit√≥rio ou f√°brica, refei√ß√£o, bonde, quatro horas de trabalho, refei√ß√£o, sono, e segunda, ter√ßa, quarta, quinta, sexta e s√°bado no mesmo ritmo, essa estrada se sucede facilmente a maior parte do tempo. Um dia apenas o “porque” desponta e tudo come√ßa com esse cansa√ßo tingido de espanto. “Come√ßa”, isso √© importante. O cansa√ßo est√° no final dos atos de uma vida mec√Ęnica, mas inaugura ao mesmo tempo o movimento da consci√™ncia. Ele a desperta e desafia a continua√ß√£o. A continua√ß√£o √© o retorno inconsciente √† mesma trama ou o despertar definitivo. No extremo do despertar vem, com o tempo, a conseq√ľ√™ncia: suic√≠dio ou restabelecimento. Em si, o cansa√ßo tem alguma coisa de desanimador. Aqui, eu tenho de concluir que ele √© bom. Pois tudo come√ßa com a consci√™ncia e nada sem ela tem valor. Essas observa√ß√Ķes n√£o t√™m nada de original. Mas s√£o evidentes: por ora isso √© suficiente para a oportunidade de um reconhecimento sum√°rio das origens do absurdo. A simples “preocupa√ß√£o” est√° na origem de tudo.

Da mesma forma, e ao longo de todos os dias de uma vida sem brilho, o tempo nos carrega. Mas sempre chega um momento em que √© preciso carreg√°-lo. Vivemos para o futuro: “amanh√£”, “mais tarde”, “quando voc√™ tiver uma situa√ß√£o”, “com o tempo voc√™ vai compreender”. Essas inconseq√ľ√™ncias s√£o admir√°veis porque, afinal, se trata de morrer. Mas chega um dia e o homem verifica ou diz que tem trinta anos. Afirma assim sua juventude. Mas, nesse mesmo lance, se situa com rela√ß√£o ao tempo. Ocupa ali seu lugar. Reconhece que est√° num dado momento de uma curva que confessa ter de percorrer. Ele pertence ao tempo e, nesse horror que o agarra, reconhece nele seu pior inimigo. Amanh√£, ele queria tanto amanh√£, quando ele pr√≥prio deveria ter-se recusado inteiramente a isso. Essa revolta da carne √© o absurdo.

Um degrau mais abaixo e eis a estranheza: dar-se conta de que o mundo √© “espesso”, entrever at√© que ponto uma pedra √© estranha, nos √© irredut√≠vel, e com que intensidade a natureza ou uma paisagem pode nos negar. No fundo de toda beleza jaz alguma coisa de inumano e essas colinas, a do√ßura do c√©u, esses desenhos das √°rvores, eis que no mesmo instante perdem o sentido ilus√≥rio de que os revestimos, doravante mais long√≠nquos que um para√≠so perdido. A primitiva hostilidade do mundo, atrav√©s dos mil√™nios, se levanta de novo contra n√≥s. Por um segundo, n√£o a compreendemos mais, porque durante s√©culos s√≥ compreendemos nela as figuras e os desenhos com que previamente a represent√°vamos, e porque doravante nos faltam for√ßas para nos valermos desse artif√≠cio. O mundo nos escapa porque volta a ser ele mesmo. Esses cen√°rios mascarados pelo h√°bito tornam a ser o que s√£o. E se afastam de n√≥s. Assim como h√° certas horas em que sob o rosto familiar de uma mulher se redescobre como uma estranha aquela que se amara h√° meses ou h√° anos, talvez cheguemos at√© a desejar o que nos torna subitamente t√£o s√≥s. Mas ainda n√£o √© chegada a hora. S√≥ h√° uma coisa: essa espessura e essa estranheza do mundo √© o absurdo.

Os homens tamb√©m destilam um tanto do inumano. Em certas horas de lucidez, o aspecto mec√Ęnico de seus gestos, sua pantomima destitu√≠da de sentido faz ficar est√ļpido tudo aquilo que os rodeia. Um homem fala no telefone por tr√°s de uma divis√≥ria envidra√ßada; n√£o √© ouvido, mas se v√™ sua m√≠mica inalcan√ß√°vel: e se pergunta por que ele vive. Esse desconforto diante da inumanidade do pr√≥prio homem, essa queda incalcul√°vel diante a imagem do que n√≥s somos, essa “n√°usea‚ÄĚ como a denomina um autor dos nossos dias, √© tamb√©m o absurdo. De igual modo o estranho que em determinados momentos vem ao nosso encontro num espelho, o irm√£o familiar e no entanto inquietante que reencontramos em nossas pr√≥prias fotografias, √© ainda o absurdo.

Da√≠ eu chego finalmente √† morte e √† sensa√ß√£o que temos dela. Sobre esse ponto j√° se disse tudo e √© decente evitar o pat√©tico. Mas nunca nos espantaremos suficientemente com o que todo mundo vive como se ningu√©m o ‚Äúsoubesse”. √Č que, na realidade, n√£o existe experi√™ncia da morte. Num sentido estrito, s√≥ √© experimentado o que foi vivido e se tornou consciente. Com isso, √© indiscut√≠vel que se pode falar da experi√™ncia da morte dos outros. √Č um suced√Ęneo, uma vis√£o do esp√≠rito, e jamais ficamos muito convencidos dela. Essa conven√ß√£o melanc√≥lica n√£o pode ser persuasiva. Na realidade, o horror prov√©m do lado matem√°tico do acontecimento. Se o tempo nos assusta, √© que ele faz sua demonstra√ß√£o. A solu√ß√£o poder√° vir em seguida. Todos os belos discursos sobre a alma ter√£o aqui, ao menos por algum tempo, uma prova dos nove de seu oposto. Nesse corpo inerte, em que uma bofetada n√£o se distingue mais, a alma desapareceu. Este lado elementar e definitivo da aventura torna absurdo o conte√ļdo do sentimento. Sob a ilumina√ß√£o mortal desse destino, aparece a inutilidade. Nenhuma moral, nenhum esfor√ßo s√£o a priori justificados ante as sangrentas matem√°ticas que organizam a nossa condi√ß√£o.

Ainda uma vez, tudo isso j√° foi dito e redito. Limito-me a fazer aqui uma classifica√ß√£o r√°pida e a indicar esses temas evidentes. Eles circulam atrav√©s de todas as literaturas e todas as filosofias. A conversa de todos os dias se nutre deles. N√£o se trata de reinvent√°-los. Mas √© preciso se certificar dessas evid√™ncias para poder se interrogar, em seguida, sobre a quest√£o primordial. O que me interessa, fa√ßo quest√£o de repetir, n√£o s√£o tanto as descobertas absurdas. S√£o suas conseq√ľ√™ncias. Se nos certificarmos desses fatos, o que ser√° preciso concluir, at√© onde ir para deixar de pesquisar? Ser√° preciso morrer voluntariamente ou, apesar de tudo, esperar? √Č necess√°rio, antes, fazer o mesmo recenseamento r√°pido no plano da intelig√™ncia.

O primeiro procedimento do esp√≠rito √© distinguir o que √© verdadeiro do que √© falso. No entanto, desde que o pensamento reflete sobre ele mesmo o que descobre √©, inicialmente, uma contradi√ß√£o. √Č in√ļtil esfor√ßar-se para ser convincente a esse respeito. Durante s√©culos ningu√©m tratou o caso com uma demonstra√ß√£o mais clara e mais elegante que a de Arist√≥teles: “A conseq√ľ√™ncia freq√ľentemente ridicularizada dessas opini√Ķes √© que elas se destr√≥em por si mesmas. Porque, afirmando que tudo √© verdadeiro, afirmamos a verdade da afirma√ß√£o oposta e, conseq√ľentemente, a falsidade da nossa pr√≥pria tese (pois a afirma√ß√£o oposta n√£o admite que ela possa ser verdadeira). E, se dizemos que tudo √© falso, tamb√©m esta afirma√ß√£o se torna falsa. Se declaramos que s√≥ √© falsa a afirma√ß√£o oposta √† nossa, nos vemos n√£o obstante for√ßados a admitir um n√ļmero infinito de julgamentos verdadeiros ou falsos. Porquanto, quem emite uma afirma√ß√£o verdadeira declara ao mesmo tempo que ela √© verdadeira, e assim por diante at√© o infinito.”

Esse c√≠rculo vicioso √© s√≥ o primeiro de uma s√©rie em que o esp√≠rito que se inclina sobre si mesmo se perde em um torvelinho vertiginoso. A pr√≥pria simplicidade desses paradoxos leva a que sejam irredut√≠veis. Sejam quais forem os trocadilhos e as acrobacias da l√≥gica, compreender √©, antes de tudo, unificar. O desejo profundo do pr√≥prio esp√≠rito em seus procedimentos mais evolu√≠dos vai ao encontro da sensa√ß√£o inconsciente do homem diante do universo: ele exige familiaridade, tem fome de clareza. Para um homem, compreender o mundo √© reduzi-lo ao humano, marc√°-lo com o seu selo. O universo do gato n√£o √© o universo do formigueiro. O tru√≠smo de que “todo pensamento √© antropom√≥rfico‚ÄĚ n√£o tem outro sentido. Assim tamb√©m o esp√≠rito que procura compreender a realidade s√≥ pode se considerar satisfeito se a reduz em termos de pensamento. Se o homem reconhecesse que tamb√©m o universo pode amar e sofrer, ele estaria reconciliado. Se o pensamento descobrisse nos espelhos cambiantes fen√īmenos,
rela√ß√Ķes eternas que pudessem resumi-los e se resumirem elas pr√≥prias num princ√≠pio √ļnico, se poderia falar de uma felicidade do esp√≠rito de que o mito dos bem-aventurados seria apenas um rid√≠culo arremedo. Essa nostalgia da unidade; esse apetite de absoluto ilustra o movimento essencial do drama humano. Mas que essa nostalgia seja um fato n√£o significa que deva ser imediatamente apaziguada. Porque, se acaso transpondo o abismo que separa o desejo da conquista, afirmamos com Parm√™nides a realidade do Um (seja l√° o que ele for), ca√≠mos na rid√≠cula contradi√ß√£o de um esp√≠rito que afirma a unidade total e com a pr√≥pria afirma√ß√£o prova a sua diferen√ßa e a diversidade que pretendia resolver. Basta esse novo c√≠rculo vicioso para sufocar as nossas esperan√ßas.

Uma vez mais temos a√≠ evid√™ncias. Repetirei, novamente, que elas n√£o s√£o interessantes em si mesmas e sim nas conseq√ľ√™ncias que se podem tirar delas. Conhe√ßo outra evid√™ncia: diz-me que a homem √© mortal. No entanto, podem-se contar os esp√≠ritos que tiraram disso as conclus√Ķes extremas. √Č preciso considerar como uma refer√™ncia permanente, neste ensaio, a constante separa√ß√£o entre o que imaginamos saber e o que realmente sabemos, o consentimento pr√°tico e a ignor√Ęncia simulada que nos levam a viver com id√©ias que, se verdadeiramente experiment√°ssemos, deveriam perturbar toda a nossa vida. Diante dessa contradi√ß√£o inextric√°vel do esp√≠rito, compreenderemos com precis√£o e sem reserva o div√≥rcio que nos separa de nossas pr√≥prias cria√ß√Ķes. Enquanto o esp√≠rito se cala no mundo im√≥vel de suas esperan√ßas, tudo se reflete e se organiza na unidade da sua nostalgia. Mas, em seu primeiro movimento, o mundo se racha e se desmorona: uma infinidade de clar√Ķes resplandecentes se oferecem ao conhecimento. √Č preciso desistir, para sempre, de reconstruir com isso a superf√≠cie familiar e tranq√ľila que nos daria paz ao cora√ß√£o. Depois de tantos s√©culos de pesquisa, e de tanta abdica√ß√£o entre os pensadores, sabemos bem que isso √© verdadeiro para todo o nosso conhecimento. Excetuando-se os racionalistas por profiss√£o, hoje j√° n√£o se tem esperan√ßa do verdadeiro conhecimento. Se fosse necess√°rio escrever a √ļnica hist√≥ria significativa do pensamento humano, seria preciso fazer a dos arrependimentos e das impossibilidades.

De quem e de que, de fato, posso dizer “conhe√ßo isso”? Este cora√ß√£o, em mim, posso experiment√°-lo e julgo que ele existe. Este mundo, posso toc√°-lo e julgo ainda que ele existe. P√°ra a√≠ toda a minha ci√™ncia, o resto √© constru√ß√£o. Porque, se tento agarrar este eu de que me apodero, se tento defini-lo e sintetiz√°-lo, ele n√£o √© mais do que uma √°gua que corre entre meus dedos. Posso desenhar um por um todos os rostos que ele sabe usar, todos aqueles tamb√©m que lhe foram dados, essa educa√ß√£o, essa origem, esse ardor ou esses sil√™ncios, essa grandeza ou essa mesquinhez. Mas n√£o se adicionam rostos. At√© este cora√ß√£o que √© o meu continuar√° sendo sempre, para mim, indefin√≠vel. Entre a certeza que tenho da minha exist√™ncia e o conte√ļdo que tento dar a essa seguran√ßa, o fosso jamais ser√° preenchido. Serei para sempre um estranho diante de mim mesmo. Em psicologia, como em l√≥gica, h√° verdades mas n√£o h√° verdade. O “conhece-te a ti mesmo” de S√≥crates tem tanto valor quanto o “s√™ virtuoso” do nossos confession√°rios. Revelam uma nostalgia, ao mesmo tempo que uma ignor√Ęncia. S√£o jogos est√©reis sobre grandes assuntos. S√£o leg√≠timos apenas na medida exata em que s√£o aproximativos.

Eis a√≠ tamb√©m as √°rvores e conhe√ßo suas rugas, eis a √°gua e experimento-lhe o sabor. Esses perfumes de relva e estrelas, a noite, certas tardes em que o cora√ß√£o se descontrai, como eu negaria o mundo de que experimento o poder e as for√ßas? Contudo, toda a ci√™ncia dessa terra n√£o me dar√° nada que me possa garantir que este mundo √© para mim. Voc√™s o descrevem e me ensinam a classific√°-lo. Voc√™s enumeram suas leis na minha sede de saber, concordo que elas sejam verdadeiras. Voc√™s desmontam seu mecanismo e minha esperan√ßa aumenta. Por √ļltimo, voc√™s me ensinam que esse universo prestigioso e colorido se reduz ao √°tomo e que o pr√≥prio √°tomo se reduz ao el√©tron. Tudo isso √© bom e espero que voc√™s continuem. Mas voc√™s me falam de um invis√≠vel sistema planet√°rio em que os el√©trons gravitam ao redor de um n√ļcleo. Voc√™s me explicam esse mundo com uma imagem. Reconhe√ßo, ent√£o, que voc√™s enveredam pela poesia: nunca chegarei ao conhecimento. Tenho tempo para me indignar com isso? Voc√™s j√° mudaram de teoria. Assim, essa ci√™ncia que devia me ensinar tudo se limita √† hip√≥tese, essa lucidez se perde na met√°fora, essa certeza se resolve como obra de arte. Para o que √© que eu precisava de tantos esfor√ßo? As doces curvas dessas colinas e a m√£o da tarde sob este cora√ß√£o agitado me ensinam muito mais. Compreendo que se posso, com a ci√™ncia, me apoderar dos fen√īmenos e enumer√°-los, n√£o posso da mesma forma apreender o mundo. Quando tiver seguido com o dedo todo seu relevo, n√£o saberei nada al√©m disso. E voc√™s me levam a escolher entre uma descri√ß√£o que √© certa, mas que n√£o me informa nada, e hip√≥teses que pretendem me ensinar, mas que n√£o s√£o certas. Estranho diante de mim mesmo e diante desse mundo, armado de todo o apoio de um pensamento que nega a si mesmo a cada vez que afirma, qual √© essa condi√ß√£o em que s√≥ posso ter paz com a recusa de saber e de viver, em que o desejo da conquista se choca com os muros que desafiam seus assaltos? Querer √© suscitar os paradoxos. Tudo √© organizado para que comece a existir essa paz envenenada que nos d√£o a neglig√™ncia, o sono do cora√ß√£o ou as ren√ļncias mortais.

Tamb√©m a intelig√™ncia, portanto, me diz √† sua maneira que este mundo √© absurdo. Seu oposto, que √© a raz√£o cega, inutilmente afirmou que estava tudo claro: eu esperava provas e desejava que ela tivesse raz√£o. Mas, apesar de tantos s√©culos pretensiosos, repletos de tantos homens eloq√ľentes e persuasivos, sei que isso √© falso. Pelo menos nesse aspecto, n√£o existe felicidade se eu n√£o posso saber. Essa raz√£o universal – moral ou pr√°tica -, esse determinismo, essas categorias que explicam tudo t√™m com que fazer rir o homem honesto. N√£o t√™m nada a ver com o esp√≠rito. Negam sua verdade profunda, que √© estar acorrentado. Nesse universo indecifr√°vel e limitado o destino do homem, da√≠ em diante, adquire seu sentido. Uma multid√£o de irracionais se levantou e o cerca at√© o √ļltimo objetivo. Em sua perspic√°cia reavida e agora harmonizada, o sentimento do absurdo se aclara e se precisa. Eu dizia que o mundo √© absurdo: estava andando muito depressa. Esse mundo em si mesmo n√£o √© razo√°vel: √© tudo o que se pode dizer a respeito. Mas o que √© absurdo √© o confronto entre esse irracional e esse desejo apaixonado de clareza cujo apelo ressoa no mais profundo do homem. O absurdo depende tanto do homem quanto do mundo. √Č, no momento, o √ļnico la√ßo entre os dois. Cola-os um ao outro como s√≥ o √≥dio pode fundir os seres. √Č tudo o que posso discernir nesse universo sem limites em que prossegue a minha aventura. Paremos aqui. Se considero verdadeira essa absurdidade que regula minhas rela√ß√Ķes com a vida, se me compenetro desse sentimento que se apossa de mim ante os espet√°culos do mundo, desse descortino que me imp√Ķe a busca de uma ci√™ncia, devo tudo sacrificar a estas certezas e encar√°-las de frente para poder mant√™-las. E devo, sobretudo, pautar de acordo com elas o meu comportamento, levando-as adiante em todas as suas conseq√ľ√™ncias. Estou falando de honestidade. Mas quero saber, doravante, se o pensamento pode viver em tais desertos.

Já sei que o pensamento pelo menos entrou nesses desertos. Aí encontrou seu pão. Aí compreendeu que até então se alimentava de fantasmas. E serviu de pretexto a alguns dos temas mais insistentes da reflexão humana.

A partir do momento em que √© reconhecida, a absurdidade √© uma paix√£o, a mais dilacerante de todas. Mas saber se algu√©m pode viver com suas paix√Ķes, se lhes pode aceitar a mais profunda lei, que √© a de queimar o cora√ß√£o que ao mesmo tempo elas exaltam, eis a√≠ todo o problema. No entanto, n√£o √© ainda o que apresentaremos. Ele est√° no centro dessa experi√™ncia. Chegar√° a hora de voltar a ela. Reconhe√ßamos, antes de tudo, esses temas e esses impulsos nascidos do deserto. Bastar√° enumer√°-los. Esses tamb√©m, no presente, s√£o conhecidos por todos. Sempre houve homens para defender os direitos do irracional. A tradi√ß√£o do que se pode chamar de pensamento humilhado jamais deixou de estar viva. A cr√≠tica do racionalismo j√° foi feita tantas vezes que parece n√£o se ter mais como fazer. No entanto, a nossa √©poca v√™ renascer esses sistemas paradoxais que se aplicam em atravancar a raz√£o, como se ela de fato houvesse sempre andado para a frente. Mas isso n√£o √© tanto uma prova de efici√™ncia da raz√£o quanto da vitalidade das suas esperan√ßas. No plano da hist√≥ria, essa const√Ęncia de duas atitudes ilustra a paix√£o essencial do homem dilacerado entre seu apelo para a unidade e a vis√£o clara que pode ter dos muros que a encerram.

Mas talvez em nenhuma outra √©poca, como na nossa, foi mais vivo o ataque contra a raz√£o. Desde o grande grito de Zaratustra – “Por acaso, √© a mais velha nobreza do mundo. Eu a reintegrei em todas as coisas quando disse que n√£o queria nenhuma vontade eterna acima dela” -, desde a doen√ßa mortal de Kierkegaard – “esse mal que confina com a morte sem mais nada depois dela” -, os temas significativos e supliciantes do pensamento absurdo se sucederam. Ou, pelo menos, e essa min√ļcia √© fundamental, aqueles do pensamento irracional e religioso. De Jaspers a Heidegger, de Kierkegaard a Chestov, fenomen√≥logos √† Scheler, no plano l√≥gico e no plano moral, toda uma fam√≠lia de esp√≠ritos, aparentados por sua nostalgia, opostos em seus m√©todos ou metas, se obstinaram em obstruir a estrada real da raz√£o e em reencontrar os caminhos certos da verdade. Pressuponho, a essa altura, esses pensamentos conhecidos e vividos. Sejam quais forem ou tenham sido as suas ambi√ß√Ķes, todos partiram desse universo indiz√≠vel em que ‚Äúreinam a contradi√ß√£o, a antinomia, a ang√ļstia ou a impot√™ncia. E o que lhes √© comum s√£o justamente os temas que estivemos revelando at√© agora. Tamb√©m para eles; √© preciso dizer claramente que o mais importante s√£o as conclus√Ķes a que se pode chegar com essas descobertas. A tal ponto, que ser√° necess√°rio examin√°-las separadamente. No momento, por√©m, se trata apenas de suas descobertas e de suas experi√™ncias iniciais. Trata-se t√£o-somente de verificar a sua concord√Ęncia. Se seria demasiada presun√ß√£o examinar as suas filosofias, √© poss√≠vel e, em todo caso, suficiente fazer sentir o clima que lhes √© comum.

Heidegger considera friamente a condi√ß√£o humana e anuncia que esta exist√™ncia √© humilhada. A √ļnica realidade √© a “inquieta√ß√£o” em toda a escala dos seres. Para o homem perdido na mundo e seus divertimentos, essa inquieta√ß√£o √© um medo breve e fugidio. Mas, quando esse medo toma consci√™ncia dele mesmo, se transforma em ang√ļstia, o clima permanente do homem l√ļcido “em que a exist√™ncia se redescobre”. Esse professor de filosofia escreve sem nenhum tremor e na linguagem mais abstrata do mundo que “o car√°ter finito e limitado da exist√™ncia humana √© mais primordial que o pr√≥prio homem”. Interessa-se por Kant mas √© para reconhecer o car√°ter acanhado de sua “Raz√£o pura”. √Č para concluir, nos termos das suas an√°lises, que “o mundo nada mais consegue oferecer ao homem angustiado”. Essa inquieta√ß√£o a tal ponto lhe parece, na verdade, ultrapassar as categorias do racioc√≠nio, que ele pensa unicamente nela e n√£o fala de outra coisa. Enumera suas faces: de t√©dio, quando o homem comum procura nivel√°-la com ele mesmo, e mitig√°-la; de terror, quando o esp√≠rito contempla a morte. Ele
tamb√©m n√£o separa a consci√™ncia do absurdo. A consci√™ncia da morte √© o apelo da inquieta√ß√£o e “a exist√™ncia recorre ent√£o a um apelo pr√≥prio por interm√©dio da consci√™ncia”. √Č a voz da pr√≥pria ang√ļstia e convoca a exist√™ncia “a retornar ela pr√≥pria de sua perda no Se an√īnimo”. Tamb√©m para ele n√£o se deve dormir e √© preciso velar at√© a consuma√ß√£o. Ele se segura nesse mundo absurdo, denuncia-lhe o car√°ter perec√≠vel. Procura seu caminho no meio dos escombros.

Jaspers n√£o espera mais nada de toda ontologia, pois pretende que n√≥s tenhamos perdido a “ingenuidade”. Sabe que n√£o podemos chegar a nada que transcenda o jogo mortal das apar√™ncias. Sabe que o fim do esp√≠rito √© o fracasso. Demora-se ao longo das aventuras espirituais que a hist√≥ria nos oferece e revela impiedosamente a falha de cada sistema, a ilus√£o que salvou tudo, a prega√ß√£o que n√£o escondeu nada. Nesse mundo devastado, onde a impossibilidade de conhecer √© demonstrada, onde o nada parece a √ļnica realidade e o desespero sem sa√≠da a √ļnica atitude, ele tenta reencontrar o fio de Ariadne que conduz aos segredos divinos.

Chestov, por sua vez, em meio a uma obra de admir√°vel monotonia, agarrado incessantemente a suas mesmas verdades, demonstra sem tr√©gua que o sistema mais compacto, o racionalismo mais universal acaba sempre por se escorar no irracional do pensamento humano. N√£o lhe escapa nenhuma das evid√™ncias ir√īnicas ou das rid√≠culas contradi√ß√Ķes que depreciam a raz√£o. S√≥ uma coisa lhe interessa e √© a exce√ß√£o, seja a da hist√≥ria do cora√ß√£o ou do esp√≠rito. Atrav√©s das experi√™ncias dostoievskianas do condenado √† morte, das aventuras furiosas do esp√≠rito nietzschiano, das impreca√ß√Ķes de Hamlet ou da amarga aristocracia de um Ibsen, ele descobre, ilumina e engrandece a revolta humana contra o irremedi√°vel. Recusa suas raz√Ķes √† raz√£o e s√≥ come√ßa a orientar seus passos com alguma decis√£o no meio desse deserto desbotado em que todas as certeza se tornaram pedras.

Talvez o mais interessante de todos, Kierkegaard, pelo menos em uma parte de sua exist√™ncia, fez mais do que descobrir o absurdo: ele o viveu. O homem que escreve “O mais certo dos mutismos n√£o √© o de calar mas o de falar” se convence logo de in√≠cio, que nenhuma verdade √© absoluta e n√£o pode tornar satisfat√≥ria uma exist√™ncia que √© imposs√≠vel em si. Don Juan de conhecimento ele multiplica os pseud√īnimos e as contradi√ß√Ķes, escreve os Discursos edificantes ao mesmo tempo que esse manual de espiritualismo c√≠nico que √© O di√°rio do sedutor. Recusa as consola√ß√Ķes, a moral, os princ√≠pios de todo repouso. E nada faz para abrandar a dor desse espinho que sente no cora√ß√£o. Ao contr√°rio, reanima-o e, na alegria desesperada de um crucificado contente em s√™-lo, constr√≥i pe√ßa por pe√ßa – recusa, lucidez, com√©dia – uma categoria do demon√≠aco. Esse rosto a um tempo terno e escarnecedor, essas piruetas seguidas de um grito que vem do fundo da alma, √© o pr√≥prio esp√≠rito absurdo √†s voltas com uma realidade que o ultrapassa. E a aventura espiritual que leva Kierkegaard a seus queridos esc√Ęndalos tamb√©m come√ßa no caos de uma experi√™ncia destitu√≠da de seus cen√°rios e devolvida √† sua incoer√™ncia primordial.

Em um plano bem diferente, o do m√©todo, por seus pr√≥prios exageros, Husserl e os fenomen√≥logos reabilitam a diversidade do mundo e negam o poder transcendente da raz√£o. O universo espiritual, com eles, se enriquece de maneira incalcul√°vel. A p√©tala de rosa, o marco da quilometragem ou a m√£o humana t√™m tanta import√Ęncia quanto o amor, o desejo ou as leis da gravita√ß√£o. Pensar; ent√£o, deixa de se unificar, tornar familiar a apar√™ncia por tr√°s da face de um grande princ√≠pio. Pensar √© reaprender a ver e a estar atento, √© dirigir sua consci√™ncia, √© dar a cada id√©ia e a cada imagem, √† maneira de Proust, um lugar privilegiado. Paradoxalmente, tudo √© privilegiado. O que justifica o pensamento √© sua extrema consci√™ncia. Por ser mais positivo que nos casos de Kierkegaard ou de Chestov, o procedimento husserliano em sua origem nega, n√£o obstante, o m√©todo cl√°ssico da raz√£o, engana a esperan√ßa, abre ao cora√ß√£o e √†s intui√ß√Ķes toda uma prolifera√ß√£o de fen√īmenos cuja riqueza tem algo de inumano. Esses caminhos levam a todas as ci√™ncias ou a nenhuma, o que significa que o meio, aqui, √© mais importante do que o fim. Trata-se apenas “de uma atitude para conhecer” e n√£o de uma consola√ß√£o. Pelos menos em sua origem, lembremos.

Como n√£o sentir o parentesco profundo desses esp√≠ritos? Como n√£o ver que eles se re√ļnem em torno de um lugar privilegiado e amargo em que a esperan√ßa n√£o tem vez? Quero que tudo me seja explicado, ou nada. E a raz√£o √© impotente diante do grito do cora√ß√£o. O esp√≠rito incitado por essa exig√™ncia procura e s√≥ encontra contradi√ß√Ķes ou desprop√≥sitos. O que n√£o compreendo n√£o tem raz√£o. O mundo est√° todo ocupado por esses irracionais. Ele pr√≥prio, cuja significa√ß√£o n√£o compreendo, n√£o passa de um imenso irracional. Poder dizer uma s√≥ vez: “isso √© claro”, e tudo estaria salvo. Mas esses homens insistentemente proclamam que n√£o est√° nada claro, que tudo √© caos, que o homem s√≥ conserva sua percep√ß√£o e conhecimento preciso dos muros que o rodeiam.

Todas essas experi√™ncias se entendem e se desentendem de novo. O esp√≠rito que atinge os confins deve trazer um julgamento e escolher suas conclus√Ķes. A√≠ se colocam o suic√≠dio e a resposta. Mas eu quero inverter a ordem da pesquisa e partir da aventura inteligente para voltar aos gestos cotidianos. As experi√™ncias que acabamos de evocar nasceram no deserto que n√£o se deve deixar .√Č preciso saber pelo menos at√© onde elas puderam chegar. Nesse ponto de seu esfor√ßo, o homem se v√™ diante do irracional. Sente dentro de si o desejo de felicidade e de raz√£o. O absurdo nasce desse confronto entre o apelo humano e o sil√™ncio despropositado do mundo. E isso que n√£o se deve esquecer. √Č a isso que e preciso se agarrar, pois toda a conseq√ľ√™ncia de uma vida pode nascer da√≠. O irracional, a nostalgia humana, o absurdo que surge do di√°logo entre eles: eis os tr√™s personagens do drama que deve necessariamente, acabar com toda a l√≥gica de que uma exist√™ncia √© capaz.

CAMUS, Albert, O Mito de Sísifo. Trad. de Mauro Gama. Rio de Janeiro: Guanabara, 1989.

 

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