O Globo, 26/12/2015

Duvidando de todos os sins, eles têm certeza de todos os nãos

Céticos são os que duvidam de tudo. Não acreditam em promessas, juras de amor, boas intenções. Olham de banda a própria realidade, que corre sob seus narizes: é falsa. Política? É lama. Políticos? Bandidos. E, evidentemente, não lhes venham com conversas de Deus. Há uma fundamental arrogância entre os céticos. Duvidando de todos os sins, têm certeza de todos os nãos. Têm um pé atrás com a vida e o amor! São maiores do que a vida e o amor! Olham-nos de fora. É espantoso.

Mas os velhos céticos gregos, os do século III a. C, não foram rasos assim. Foram filósofos importantíssimos. As histórias da filosofia que olham só as ideias e sistemas os põem entre as escolas menores. Mas para uma que esteja atenta às atitudes, ao que estava realmente acontecendo enquanto os filósofos pensavam o que iam pensando, são fundamentais. Porque, justamente, ensinaram a duvidar. Hoje pensamos neles como os que diziam que nada pode ser sabido com certeza. E logo apontamos o dedo irônico para eles e gritamos: “Eis aí uma certeza! Eles duvidam de todas as certezas, menos dessa! Morrem do próprio veneno”. E, encantados com tanta inteligência, vamos tratar de sistemas sérios, com princípios, teorias, demonstrações e verdades. Sistemas dogmáticos. Os céticos, os verdadeiros, se ainda os houvesse, olhariam para nós entre irônicos e divertidos. Porque amamos os dogmas e não podemos ser incomodados pela dúvida radical. Coitados de nós.

A palavra grega skepsis, da qual deriva “cético”, significa “procura”. Os velhos céticos procuravam. Tinham a paixão da busca. Bem pensadas as coisas, esses foram os verdadeiros discípulos de Sócrates, o que só sabia que não sabia nada. E inventou a filosofia para dar conta da sua ignorância. Da nossa, da de todos. Da dos seus contemporâneos que supunham saber, e cuja arrogância ele desnudava em público, conversando. Foi a essa atitude da ignorância pedagógica que se chamou então a “ironia socrática”. Depois vieram Platão e Aristóteles, no século IV a.C., e inventaram grandes doutrinas e sistemas. É por esses que os conhecemos e reverenciamos como nossos maiores antepassados gregos. Pois foi contra eles que os velhos céticos bombardearam seu ceticismo. Seu libelo acusatório. Platão e Aristóteles tiveram certezas! Contentaram-se, num certo momento das suas vidas, com as ideias que tinham inventado. Satisfizeram-se com elas. Deixaram de ser ignorantes. Pararam de procurar. Ficaram sábios. Traíram Sócrates.

Foi isso o ceticismo grego, o antigo: uma vibrante chicotada antidogmática. Como é possível saber com certeza, se tudo que sabemos “de verdade” é a nossa ignorância? Todos os sistemas de certezas são, portanto, falsos na sua raiz. Não se pode demonstrar o erro das suas ideias. Não importa. Basta apontar o dedo acusador para os seus resultados: os sistemas que julgam saber entregaram os pontos, cansaram-se, ficaram autocondescendentes. Pararam de pensar. Quem sabe não precisa do pensamento. O pensamento é para os ignorantes nós, os ignorantes.

O que mais vemos hoje são os preguiçosos do pensamento. Uns porque sabem tudo, não admitem contradição. Os arrogantes da verdade. Pobre verdade! Outros porque sabem que é tudo bobagem, tudo falso, e não vão ser enganados por tudo isso que está aí. “Tudo isso que está aí” é o mundo todo, toda a vida… Mas eles, os céticos por preguiça, não se deixam enganar. É tudo manipulação, atrás de cada boa palavra há uma péssima intenção, tudo é da boca para fora, “quem não os conhece que os compre”. Triste divisa… Quem não os conhece devia ir procurá-los. Quanto a comprar… Sinal dos tempos… [+]

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