Prefácio

Ideias céticas podem ser encontradas em muitos textos da filosofia grega antiga; elas reaparecem na filosofia moderna em novas versões e continuam a ter influência até os tempos atuais. Empregaram-se argumentos céticos para corroborar visões filosóficas que, embora não totalmente céticas, tendem para essa direção: termos como relativismo, convencionalismo, construtivismo, anti-realismo, pragmatismo e subjetivismo são alguns exemplos correntes. Muitas filosofias que não marcham sob a bandeira do ceticismo de fato incorporaram temas céticos.

O ceticismo globa ou radical duvida da própria possibilidade de conhecimento do mundo e apresenta argumentos destinados a demonstrar que não estamos de posse do conhecimento que julgamos ter. Variedades locais aplicam argumentos céticos a domínios restritos da investigação e do interesse humanos, como a religião, a crença de senso comum, o valor ético e estético, a interferência científica e o eu. Vivemos numa época cética, e o calor que ouvimos sobre a indispensabilidade da fé, a necessidade de aceitar verdades eternas e a obtenção de conhecimento objetivo dá testemunho da condição vulnerável destas. Embora quase todos concordem que a busca da certeza de Descartes não seja mais um programa válido, a necessidade de  viver com a certeza, com a capacidade negativa, como a chamou o poeta John Keats, criou um nervosismo geral em nossa cultura.

Uma discussão completa do ceticismo incluiria sua história desde os  tempos antigos aos dias atuais, uma descrição de sua importância cultural, uma análise de seus principais argumentos e uma teoria defensável do conhecimento humano que pudesse ser usada para avaliar suas teses. Este livro, porém, é apenas um esboço desse projeto abrangente, um prelúdio para uma síntese histórico-filosófica. Seu objetivo é introduzir o tema, explicar o que é o ceticismo filosófico, identificar e interpretar alguns dos argumentos céticos mais historicamente influentes, convencer o leitor de que não é fácil descartar o ceticismo e, por fim, mostrar que não é possível sustentar suas afirmações extremas, que negam a nossa posse de conhecimento. Procurei tornar o livro auto-suficiente, para que ele possa ser acessível aos que não tenham conhecimento prévio do tema, e tentei fazê-lo filosoficamente contencioso, para que seja de interesse para os preocupados com os problemas e a história da teoria do conhecimento.

Sucintamente, este livro concorda com a afirmação cética de que não podemos estabelecer, por meios lógicos sólidos, que de fato possuímos conhecimento, e discorda do ceticismo quando este afirma que não temos conhecimento e até que o conhecimento é impossível. Procurei mostrar o que há de certo no ceticismo e o que há de errado nele, e desenvolver uma abordagem para o problema do conhecimento que nos permita escapar da plena força dos poderosos argumentos dos céticos antigos e modernos.

O primeiro capítulo serve como uma introdução. Ele apresenta alguns dos principais personagens históricos e identifica o tema do realismo como uma parte essencial do debate entre céticos e anticéticos. O segundo capítulo discute um ceticismo local historicamente importante segundo o qual algumas de nossas percepções comuns — as de cor, por exemplo — não representam precisamente as coisas como ela são em si mesmas. Ele introduz o tema da fragilidade e da incerteza de nossas crenças de senso comum. O capítulo III discute a diferença entre uma crença ser justificada e ser verdadeira. Os capítulos IV, V, VI abordam o ceticismo antigo, com ênfase no argumento cético central contra o critério. Esse poderoso argumentos pretende mostrar que não podemos ter conhecimento por não ser possível estabelecer uma de suas precondições essenciais — um critério de verdade.

Os capítulos VII a XII referem-se ao problema de nosso conhecimento do mundo exterior e exploram com algum detalhamento o que Hume chamou de ceticismo com relação aos sentidos. Interpretam e criticam os famosos argumentos céticos introduzidos por Descartes no início de suas Meditações — dos sonhos e da possibilidade de um demônio maldoso. O principal veículo de crítica são os modos de G.E. Moore defender o senso comum, em particular sua prova de um mundo exterior. Embora a prova de Moore seja insatisfatória por si só, pode-se corrigi-la e elaborá-la de forma a revelar a falha dos argumentos de Descartes. Os capítulos XIII e XIV discutem dois exemplos de ceticismo local: as dúvidas de Hume sobre indução e as dúvidas sobre a possibilidade de autoconhecimento. O método de argumentação contra o ceticismo desenvolvido com base na prova de Moore é aplicado novamente para defender a possibilidade de conhecimento em ambos os casos. O capítulo final discute se é possível combinar o ceticismo com a atividade filosófica positiva; usando os exemplos de Hume e Quine, mostra que o ceticismo não precisa minar o engajamento em questões filosóficas. Encerra-se com uma descrição do conhecimento humano baseada num ponto de vista confiabilista e externalista, que sugere que os argumentos mais fortes do cético falham em demonstrar que o conhecimento está além do nosso alcance.

LANDESMAN, Charles, Ceticismo. Trad. de Cecília Camargo Bartalotti. São Paulo: Loyola, 2006.

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